terça-feira, 11 de abril de 2017

Nunca é tarde

Para descobrir que afinal gostamos de favas. Foram precisos mais de 30 anos e muitas refeições a saltar este prato para desenvolver todo um palato que agora me diz que aquilo é coisa boa, gente. Guisadas, cruas, you name it. Um fim-de-semana e de repente as favas entraram na minha vida...vá-se lá entender isto.

segunda-feira, 20 de março de 2017

De perder a cabeça

Lisboa está de se perder a cabeça.  A sério, não é possível, não são possíveis os preços que se andam a praticar na cidade. T1 a 1000 euros porque "estão totalmente remodelados"; T2 decrépitos a 800 euros "numa zona calma e com estacionamento"... E estou a falar fora do centro, porque se começar a olhar para Alvalade, Avenidas Novas and so on, as coisas descambam até preços que tenho vergonha de proferir.

A sério? I mean: a sério? Uma amiga disse-o assim de rajada e eu nem sequer tinha pensado na comparação, mas realmente é verdade. Estamos num dos países onde pior se ganha na Europa - sim, sim um salário médio é de 838 euros por mês, uma fortuna - com casas ao preço de Paris. Para além de quem já começa num degrau acima - com casas de família, uma casa oferecida pelos pais que pode arrendar ou afins - gostava sinceramente de saber quem consegue pagar os preços que andam a pedir por casas que nem deviam ter este nome.

Numa conta rápida, pensando num casal que, na loucura ganhe 2.000 euros por mês (sabem quantas pessoas NÃO ganham isto? Pois, a maioria), pagar 800 euros de casa implica uma taxa de esforço de 40% - sabemos que esta deve ser 30%, não sabemos? O que significa que se por acaso o senhorio decidir aumentar a renda todos os anos, mesmo segundo a inflação, ou se uma despesa de água ou luz ou gás aumentar, esse mesmo bom casal se vê aflito para pagar a renda. Certo?

Nem vou falar de uma pessoa sozinha - não sei sinceramente como conseguem. Mas acho absolutamente surreal o que se anda a passar. E acho surreal que pouca gente ache isto surreal - sei de um caso, concreto, em que um apartamento que está a ser arrendado por 550 euros vai chegar ao mercado, daqui a uma semana, por 750 euros...a sério!, sou mesmo só eu que acho isto surreal?

Tudo bem, podem dizer-me que devíamos todos ganhar melhor - lá está, se tivéssemos salários de Paris, não me estava a queixar -, mas uma vez que também pouca gente se insurge quanto a isso, não acham mesmo surreal andar a pagar um salário por casas que não passam de cubículos? Ah, desculpem, não vos disse que as  casas com ar de casas estão ainda mais caras que aquelas que referi? My bad...

sexta-feira, 17 de março de 2017

Um dia também vamos ser velhos

Hoje, no comboio, um senhor que aparece de quando em vez entrou na carruagem a pedir esmola. Cego de um olho, já entrado em idade, repete a mesma cantilena desde que me lembro de o encontrar: mais vale pedir do que roubar; ninguém me dá emprego; não tenho ninguém.

Enquanto ele se aproximava decidi que hoje queria dar-lhe algo para o ajudar - geralmente dou comida, raramente dou dinheiro, mas eram 9h da manhã e não tinha onde comprar coisa alguma. Dei-lhe aquilo que o meu coração achou que devia dar. Ele parou e disse "não posso aceitar, menina, esta moeda é muito grande". Pedi-lhe que aceitasse. "Não lhe faz falta, menina? É uma moeda grande..." Aquela frase doeu-me mais do que qualquer uma que tenha ouvido nos últimos tempo. Pensei para mim que a moeda me faz menos falta a mim do que a ele e pedi que a aceitasse. Ele recitou-me um poema, com a minha mão na dela, enquanto pessoas à minha volta olhavam, algumas enojadas, para o facto de ele me estar a tocar. "Já valeu a moeda, já viu? Até ganhei um poema", desejei-lhe felicidades e voltei para a minha leitura, enquanto as pessoas desviavam o olhar - incomoda ignorar as pessoas, é um facto. Preferimos olhar para o lado e fingir que não podíamos ser nós a ter que pedir para comer.

Saí do comboio e a caminho da redacção uma senhora, terrivelmente parecida com a minha mãe na estatura, na dignidade e no discurso pediu-me atenção. Aos 73 anos é viúva e não tem emprego. Tinha uma cesta cheiinha de saquinhos de alfazema, feitos à mão para vender e a "ajudar a comprar os legumes para a sopa, ou os remédios na farmácia". Não trouxe o saco, dei-lhe o dinheiro que tinha comigo e desejei-lhe felicidades, novamente.

E enquanto subia, no elevador, não podia deixar de pensar que andamos a falhar miseravelmente na forma como andamos a viver e a tratar as nossas pessoas, os nossos velhos, que mereciam muito mais respeito do que aquele que lhe andamos a votar. Não sei bem o que fazer em relação a isto, mas estou comprometida em pensar sobre isso. Obrigatoriamente.

terça-feira, 14 de março de 2017

Era suposto ser um médico, mas olhe..é um estudante. Está bem?

Nos últimos meses tem sido assustador. De cada vez que recebo uma notificação do Linkedin ou me salta uma janela do Facebook, ou tenho uma conversa com antigos colegas percebo que as pessoas estão a abandonar o barco. A maior parte delas fá-lo com muita razão, o que me entristece mais ainda: os jornalistas estão a desistir. Pior. Os bons jornalistas estão a desistir. Muitos, demasiados bons jornalistas estão a desistir. É claro que isso se reflete na qualidade dos jornais, revistas, televisões no final, mesmo que haja quem queira continuar a dizer que não.

Vou tentar explicar isto de uma forma simples: quando chegam ao hospital para uma cirurgia, não há médicos experientes para vos atender. Vão ter que ficar com um estagiário, que não vai ter quem o supervisione. Pode ser?

Ou então, vamos imaginar que estão num restaurante de elevada qualidade. Só que afinal o chef que lá estava já não está. Nem o sous chef. Restam os ajudantes de cozinha. Não se importam, verdade?
Podemos ainda pensar no seguinte: o vosso filho chega à escola, mas hoje não há professores. Hoje há uma pessoa que ainda não acabou o curso, sequer, a dar aulas. Vai ficar o resto do ano que não há dinheiro para pagar ao professor, sim?

Faz sentido? Não. Acontece? Todos os dias. Hoje as redações estão cheias de estagiários que trabalham sem rede: porque a) não há jornalistas experientes que sobrevivam aos despedimentos colectivos – são quem ganha melhor, logo, alvos a abater; b) não há pessoas que se sujeitem a fazer um trabalho desta responsabilidade pelo salário ridículo que as empresas querem pagar. Portanto, os jornalistas estagiários passam a jornalistas num instante, e um júnior com dois anos de carreira acha que tem a experiência de 10. Sensação que é natural, porque trabalhou o triplo do que devia, mas que não se reflete, muitas vezes, no resultado final (estou a generalizar!, como é óbvio. Porque felizmente há bons jornalistas com 2 anos de trabalho, sim? Pronto.)

Depois começam a acontecer coisas: termos errados, contas mal feitas, informação não confirmada. E isso não é culpa de quem está nas redações, é culpa de quem manda. Porque não percebe a diferença entre um jornalista sólido e um jornalista estagiário – conquanto ganhe metade e trabalhe mais horas, está tudo bem. Porque não percebe que não é possível, havendo um jornalista sénior para 5 estagiários, formar bons profissionais e ainda dar boas notícias e apurar boas histórias. Porque não percebe que a falta de qualidade e o preço baixo de um trabalho, a prazo, se paga e bem. Temos alguns bons exemplos disso na nossa praça e nem preciso de pensar muito para chegar a dois ou três casos.

Isto tudo para dizer o quê? Que fico verdadeiramente triste quando percebo a quantidade de gente que está a ir embora. A desistir. A desencantar-se e a optar por ter uma vida digna ao invés de continuar a lutar por um sonho que, cada vez mais, implica muito mais sacrifícios do que alegrias. E isso deixa as radações ainda mais abandonadas, os jornais, televisões, rádios e revistas muito mais abandonados e, inevitavelmente, a sociedade mais pobre.


Mas sobre jornalismo ninguém quer saber. Enquanto o Facebook for veiculando informação ridícula está bom para todos, verdade?

quarta-feira, 8 de março de 2017

No dia da Mulher, um brinde [também] aos homens da minha vida

Vem de há pouco tempo, esta minha veia de luta pela igualdade de género, confesso. Nunca foi algo a que tenha dado muita importância porque achava, honestamente, que nunca a tinha sentido na pele. Depois, com as chamadas de atenção de amigas queridas - obrigada, Paula e Teresa! - fui percebendo que na verdade, era uma luta que também me pertencia. A do feminismo - essa palavra que ainda assusta tanta gente.

Não gosto do Dia da Mulher, tal como não gosta de quotas - embora seja a favor delas. Não gosto de marchas, de manifestações, de pequenos-almoços para executivAs.

Mas gosto ainda menos que tudo isto seja necessário. Gosto ainda menos que os números me mostrem que ainda há tanto, demasiado a fazer, no que toca à Igualdade de Género. Não sei se sabem, mas Portugal entregou na UNESCO uma proposta de Declaração Universal da Igualdade de Género. Parece quase tão tolo quanto promover a água a Direito Humano, não é? O problema é que tanto um como outro têm que ser forçados sob risco de, na nossa santa ignorância, deixarmos que o mundo continue a mostrar que ainda estamos longe, tão longe de garantir a homens e mulheres os mesmo direitos, as mesmas oportunidades.

Se não, vejamos:

As mulheres representam metade da população mundial - e 70% dos pobres; 
As mulheres trabalham 2/3 do total das horas trabalhadas - e representam apenas 1/10 da receita mundial
Uma em cada quatro mulheres sofre actos de violência durante a gravidez;
As mulheres representam apenas 8% no que toca a cargos executivos;
Todos os dias, 39 mil raparigas menores são obrigadas a casar.

Podemos dizer que em Portugal estamos muito longe desta realidade. Que a parte principal está feita - é verdade. Mas falta muito mais, ainda.

Falta garantir que as mulheres ganhem salários iguais por desempenharem trabalhos iguais; falta garantir que as mulheres podem chegar a cargos de topo com a mesma facilidade que os homens; falta conseguir que uma mãe que trabalha não seja vista como uma péssima mãe e como uma má profissional; falta conseguir que os homens percebam que as suas carreiras não são mais importantes que as das mulheres; falta conseguir que as vozes das mulheres sejam ouvidas, não porque são mulheres, mas porque são tão válidas quanto as dos homens; falta acabar com os preconceitos aliados à defesa da igualdade de género; falta, falta, falta... Portanto, que venham as quotas, os dias da Mulher, os pequenos-almoços de executivas, os debates. Let's fake it until we make it!

Eu tenho tido, na vida, a graça e a sorte de ter à minha volta, no meu círculo íntimo, homens - sim, que este problema é das mulheres mas são os homens quem podem fazer ainda mais por nós, 'educando' os seus pares - que me respeitam. Que sempre me olharam como uma igual no que toca a direitos e deveres, e me respeitaram na minha feminilidade. Cresci, cresço ainda, com homens que não me dizem que as minhas conversas ou os meus problemas são 'coisas de mulher'; que não se assustam diante da minha independência ou das minhas certezas; que não me consideram mais frágil porque sofro de amores ou de dores nos pés por causa dos saltos altos. Cresci, cresço ainda com homens que me fizeram acreditar que a igualdade de género era uma não questão. E estou-lhes grata por isso. Porque me ensinaram, ensinam todos os dias, que é possível fazer melhor do que o que temos hoje. No trabalho, em casa, na escola, na rua.

No Dia da Mulher, mais do que agradecer às mulheres da minha vida [a essa agradeço fazendo a minha parte nesta luta, e todos os dias], quero agradecer aos homens que dela fizeram e fazem parte. Porque são eles que me apoiam nesta causa da Igualdade de Género, fazendo a parte deles: reforçando as minhas certezas sobre a necessidade e a possibilidade de um dia ela ser uma não questão.
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