domingo, 24 de março de 2013

Do luto.

Há uma coisa que sempre me incomodou, e que a minha pequenita cabeça teima em não entender. Ontem deparei-me, novamente, com a situação, e preciso que me ajudem a perceber se o problema é meu.

Quando nos morre alguém querido, é óbvio que temos que fazer o luto. Ele não é igual para todos, e muitas pessoas passam dias sem conseguir mostrar qualquer emoção. Outras largam em prantos. Umas gritam. Outra não fazem coisa alguma. Cada pessoa tem o seu tempo, o seu modo. E ele deve ser respeitado, porque é o tempo mais importante de todos: o luto é o tempo de que precisamos para assimilar os acontecimentos menos bons que passam por nós. É o tempo de que precisamos para os apreender e para os aceitar. Um luto não vivido ou mal vivido é meio caminho andado para problemas mais à frente.

Eu sempre tentei respeitar o luto de cada um, sabendo que obviamente não é um tempo fácil. Mas - e obviamente consoante a pessoa de quem estivermos a falar - dificilmente me verão a fazer mais do que chegar, dar um abraço e um beijinho, dizer que lamento e afastar-me. Fico por perto se a pessoa o pedir. 

No entanto, há um hábito que me incomoda muito - e mais nunca aconteceu comigo, que graças a Deus ainda não perdi pessoas muito próximas. Imaginem um cenário em que os familiares da pessoa que faleceu até estão calmos e serenos. Pois haverá sempre pelo menos uma pessoa que vai chegar, em pranto, vai dar beijos repenicados, gritar um "aaaaaai, o que vocês devem estar a sofrer", e acabar por obrigar as pessoas a chorar. Se não reagem, continuam. "Podes chorar, meu querido. Ele era tão boa pessoa. Ai, o que vai ser de ti. Ai ai. Ai ai".

Isto voltou a acontecer ontem. À minha frente. E eu estive quase para ir pegar na senhora por um braço e perguntar-lhe qual a necessidade de fazer uma familia, que até ela chegar estava calma e serena a viver o seu luto, incomodada com tanto choro e ranger de dentes.

Juro, juro que não entendo. E na Páscoa, altura em que fico inevitavelmente mais sensível, claramente percebo menos.

Lord!


1 comentário:

  1. Não ver as pessoas reagir exactamente como si-mesmo é algo que incomoda muita gente. A falta de choro à perda de uma pessoa é algo que incomoda muita gente.
    Na sociedade angolana, chorar nos funerais até da "profissao", as choradeiras, que quando todo o mundo está calmo, têm de se esgoelar para demonstrar o sentimento de perda. Caso isso não aconteça, estamos a ocidentalizar a coisa e a ser menos sensivel.

    Very weird, very delicate subject.

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