terça-feira, 18 de junho de 2013

Da posse

Assumir que não sabemos tudo, ao contrário do que muita gente pensa, é um ato de grande inteligência. E de humildade. Porque, obviamente, não podemos saber tudo sobre tudo, e muitas vezes o que sabemos é muito menos do que o resto do mundo sabe sobre o assunto em questão. No outro dia, dei por mim com um sorriso nos lábios quando a minha irmã mais velha me pediu algumas indicações sobre São Francisco, porque deve lá ir passar uns dias.


Abril 2013 - a melhor madrinha 'importada' de sempre :)

Ora, a minha irmã é possivelmente a pessoa que eu conheço que mais regularmente vai aos EUA, que mais cidades conhece nessa base e que mais sabe sobre viajar para o meu-amor-mais-recente. Foi ela, aliás, que preparou praticamente toda a nossa lua-de-mel, com indicações de milhares de coisas. Só que o problema é que ela nunca foi a São Francisco. E como São Francisco não é NYC, nem Chicago, nem Boston, nem outra qualquer, ela pediu ajuda.

Para ser realista, ela até ouve conselhos sobre NYC - a cidade que visita praticamente uma vez por ano há não sei quantos anos. Onde foram? Onde comeram? O que viram? A sério? Vou anotar..

Tal como nós, quando chegámos a NYC, por exemplo, quisemos ir jantar com o R. e com o P. Porque eles vivem lá e portanto devem conhecer aquilo melhor do que eu. Faz sentido? Faz. Porque eles, ainda assim, obviamente que conhecem a cidade melhor que a minha irmã. Porquê? Porque vivem lá. E viver num lugar é conhecer-lhe as entranhas. Ir lá de férias, é apaixonarmo-nos pela cobertura. É triste, meus amigos, mas é assim.

Quem vive num país conhece-lhe o melhor, e o pior. Quem vive num País sente-lhe a História, a alma, os defeitos e as virtudes como se de nosso se tratasse. Ir lá de férias é fingir que conhecemos algo que na verdade desconhecemos por completo. Eu não conheço Paris. Eu vou lá, oriento-me lindamente e até sei onde ficam as coisas. Mas viver em Paris? Com os ratos nos restaurantes, as casas minúsculas, os preços exorbitantes e provavelmente o glamour de todos os dias, sei lá eu? Isso eu não conheço. Porque não vivo lá.

Eu não conheço Barcelona, Madrid, NYC, São Francisco, Sevilha, Porto Alegre, whatever... eu passei lá, como milhares de turistas fazem, mas não sei as cidades. Não lhe conheço todos os defeitos e muito menos posso ter a pretensão de lhes conhecer tudo o que elas são. Porque não conheço. Viver num lugar é conhecer as gentes, pedir-lhes emprestadas as vidas, os sorrisos, as expressões, as palavras, os lugares que estão na moda e os preços mais baratos. Conhecer uma cidade é ter uma rotina aos Sábados e aos Domingos, ter restaurantes favoritos e lugares que odiamos. Conhecer uma cidade, conhecer um País, é conhecer-lhe a forma de pensa, intrincada no dia-a-dia e não somente o 'mood' alegre com que nos recebem quando somos turistas.

E ainda assim, quando abandonamos um outro país, uma outra cidade em que vivemos, é preciso manter vivos os contactos que nos fazem não ser apenas turistas quando lá vamos. É preciso manter vivo o pensamento, o conhecimento, as informações, e sobretudo o laço. O amor que se cria por uma cidade, um País que não é o nosso mas podia ser. E nenhum País podia ser nosso em duas semanas. Um país só pode ser nosso em meses. Às vezes em anos.

E só assim, sendo também um pouco nosso, lhe podemos sentir saudades daquelas muito a sério. Saudade de estar e não saudades de, simplesmente, estar em viagem. Só assim podemos compreender-lhes os conflitos, as lutas e as desigualdades. Porque foi nosso. E nada é nosso só porque lá passámos umas férias.


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