quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Frente & Verso - Como a crise passa por nós



Frente

Em 2008 eu trabalhava directamente com o mercado imobiliário. Foi quando a Lehman Brothers declarou bancarrota que a coisa começou. Na agência, acharam que aquilo era coisa passageira, que não ia ter repercussões. Começou a ouvir-se falar de crise e o assunto foi sendo desvalorizado. Lembro-me de estar numa conversa informal com uma das minhas chefias e de dizer que achava que aquilo ia piorar e muito, e que íamos todos cair. Gozaram comigo, que eu era fatalista, que não sabia do que é que estava a falar. Infelizmente, eu tinha razão.
Passado algum tempo, o meu marido foi despedido da empresa onde trabalhava. Esteve em casa pouco tempo, nem dois meses. Começou a ajudar o pai na empresa familiar e daí a assumir que aquilo não era uma ajuda mas sim um emprego foi um pulinho. Foi o que nos valeu.

Comecei a receber meios ordenados em 2009, a andar sempre em stress com a questão do dinheiro, a não saber com o que contar. Mudei de emprego, correu mal, vim para casa. Assumimos, enquanto casal, que era altura de eu ficar por casa, mais dedicada aos miúdos e a orientar as tropas por este lado, dado que o meu marido trabalha entre 14h a 16h por dia e não pode colaborar muito por aqui. 

Isto teve um preço, lógico.
Deixámos de viajar (e morremos ambos de saudades de entrar num avião e de aterrar num lugar distante qualquer), deixámos de sair, deixámos de jantar fora, deixámos de fazer programas familiares que impliquem gastos (coisas como idas ao zoo ou ao Oceanário estão fora do programa), deixámos de comprar coisas de que não precisamos verdadeiramente (e mesmo assim eu ainda me perco de vez em quando!). Passámos a viver com os cêntimos contados. Passámos a ter que recusar convites de amigos para coisas que impliquem abrir a carteira. Deixámos de usufruir de coisas que, para nós, eram essenciais. Isto é fruto das circunstâncias e da decisão que tomámos acerca do que eu faço.

Não é fácil. Não é mesmo nada fácil. É angustiante. Mas tem um lado bom: aprendemos a viver com muito menos. Aprendemos a procurar alternativas a custo zero. Passámos a ir à biblioteca e a passear em sítios que têm entrada livre. Passámos a fazer as compras no supermercado mais barato e não no que dá mais jeito. Passámos a ter atenção a promoções e a comprar apenas o que faz falta e não tudo o que apetece. Deixámos de entrar em aviões (a última vez foi em Março de 2010). Temos saudades de não nos preocuparmos com dinheiro. De não termos que contar ao cêntimo o que há na conta. De nos divertirmos sem sentimentos de culpa.

E tem outro lado muito positivo: o tempo que tenho para os miúdos. Vou buscá-los cedo, brinco, passeio. Levo-os ao médico sem pedir favores a ninguém. Levo a minha filha à natação à hora a que a maioria das pessoas ainda está sentada à secretária, a contar os minutos para poder ir para casa. Não ando enfiada em filas de trânsito, não me desgasto com as chatices dos escritórios (apesar de continuar a colaborar com a empresa que, em 2008, achava que a falência da Lehman Brothers era uma coisa sem importância). Em breve, a coisa será repensada – até porque os miúdos estão maiores e já não precisam tanto de mim (nos entretantos vou trabalhando em projectos meus e ganhando algum dinheiro, mas que não é significativo). Até lá, vivemos esta crise com tudo aquilo a que temos direito: bolsos vazios e corações apertados (mas com a certeza de que estamos a dar aos miúdos a melhor coisa que podiam ter, nesta fase da vida: uma mãe que está por perto e sempre disponível).

[O verso - ou seja, a minha parte - desta crónica está aqui.] 

[Para quem não faz ideia do que isto é, a explicação está aqui ]

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