quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O escutismo [e acabou]

Quando escrevi este texto não tive outra intenção se não a de tentar explicar que o escutismo (ou escotismo) não pode ser comparado a exploração infantil ou a um movimento que tem como objectivo roubar trabalho às pessoas.

A Raquel Varela, pelos vistos, recebeu algumas das mensagens de indiganção de escuteiros desse País, e voltou a escrever sobre o assunto. Eu encerro, com este texto, a discussão. Porque o pior cego é aquele que não quer ver. E a Raquel Varela, que já o tinha demonstrado noutras ocasiões, veio provar que é a pessoa mais toldada que tenho ouvido em praça pública. A historiadora voltou a escrever sobre o assunto e eu (pelas mais de 3.000 pessoas que leram o texto anterior) sinto-me na obrigação de lhe responder.

Escreve ela:
"A propósito de um artigo que escrevi onde mencionava o trabalho de crianças, em regime de voluntariado, a ocuparem postos de trabalho, e na impossibilidade de responder a todas as mensagens individuais, gostava de esclarecer:
1) Caso essas crianças estivessem a ajudar outros trabalhadores, que estavam no seu posto de trabalho, e naquele dia tinham a ajuda simpática das crianças, isso é uma boa ideia, ajuda os trabalhadores que ganham o mesmo e têm menos trabalho naquele dia, trata-se de uma boa acção, as crianças aprendem, na minha opinião e bem, a ajudar. Todos ganham. Quando tinha 7 anos passei muito tempo na mercearia da minha tia avó no Alentejo a ajudá-la a ela e à empregada. Não lhe passava a ela pela cabeça despedir a empregada ou não contratar alguém para eu ir fazer o trabalho – isso, nas sociedades evoluídas, democráticas, chama-se trabalho infantil. E é ilegal."




Ex.ma Senhora Doutora!, é com pesar que vejo que a acumulação de graus académicos, de facto, faz pouca diferença nas pessoas. Há anos (pelo menos há 20, que é desde que tenho memória escutista) que os escuteiros embrulham presentes nos supermercados; vendem pinheiros de natal; fazem vendas de Natal; ajudam velhotes a atravessar a rua. Eventualmente tudo isto é ilegal e há mais de cem anos que a justiça não se apercebeu. Vamos ver se agora, com o seu iluminado comentário, os chefes dos lobitos vão para a cadeia por ensinarem que ajudar os outros é bom. Isto tem tanto de exploração infantil como obrigar o seu filho a arrumar o quarto. Algo que presumo que não faça, uma vez que isso retiraria o trabalho a uma empregada doméstica. E para o caso de não viver no memso país que nós!, nos lugares onde não tenho visto escuteiros a embrulhar presentes,sabe o que tenho visto? Papel de embrulho, tesoura e fita-cola. E embrulho eu, se quiser. Portanto, pare com esse moralismo de trazer por casa que nem sequer faz sentido.



2) Uma vez que no caso mencionado estavam a ocupar gratuitamente um posto de trabalho onde não estavam mais trabalhadores isso configura ocupação de postos de trabalho recorrendo a trabalho infantil mascarado de trabalho voluntário.

Chamar ao escutismo trabalho infantil é uma verdadeira ofensa a casos sérios e graves como aqueles que existem no mundo. Não fale do que não sabe e não ofenda os milhões de crianças que sofrem com o flagelo do trabalho infantil.

3) É indiferente se isto é feito com pioneiros de boina vermelha, pupilos do exército, escuteiros, senhoras reformadas ou ecologistas radicais de 5 anos. Não é de um grupo em particular que estamos a tratar mas da crescente substituição de trabalho pago por trabalho voluntário.
De hoje para amanhã quando as freiras forem gratuitamente fazer de enfermeiras para pressionar os salários dos enfermeiros para baixo também vamos achar que é ajuda humanitária/voluntária? E quando uns reformados chateados forem para as escolas dar aulas de graça? E quando alguém a receber o RSI for obrigado a ir secretariar uma câmara? E quando colocarem mendigos a varrer ruas em troca de comida?


De hoje para amanhã, quando a Raquel ou algum dos seus precisar da ajuda voluntária que hoje abomina, talvez pense de outra forma. A História tem mostrado - e mostra-o esta crise, também. Talvez não no seu meio, mas aí a sorte é sua - que muitas pessoas não sobreviveriam, nem tão pouco teriam um mínimo de dignidade se não fossem os voluntários. Se o seu problema é com quem enriquece ilicitamente, com quem explora pessoas ou com as empresas que fogem aos impostos, ataque-os a eles. Não invente teorias da conspiração sobre movimentos que ensinam, na sua génese, o bem.

A suas palavras são más. E as pessoas más, que não querem ver para além daquilo que acham que é o correcto no mundo que inventaram, não merecem mais do nosso tempo. Nem sequer a indignação. Conseguiu ambos, da minha parte, por duas vezes. Desejo-lhe somente um Feliz Natal e uma vida cheia de empregados que lhe façam tudo, para promover o emprego no país!


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