segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Depressão.

Eu tinha dezoito anos e um mundo cheio de sonhos. Foi o primeiro ano de faculdade, a vinda para a capital, uma imensidão de coisas para descobrir, uma imensidão de medos para ultrapassar.

Ela chegou, devagarinho, como chegam sempre. Sem se desconfiar que eu sou uma pessoa de responder sempre o mesmo: "Está tudo bem!" ou "Estou ótima!". Foi-se instalando, facilmente, numa cabeça que estava mais cheia de solitude e de medos do que de força e de coragem. Os telefonemas, de um amor proibidíssimo, repetiam-se mas não aliviavam a dor. Na verdade aumentavam-na da proporção do bom que eram aquelas minutos de amor, de carinho, de ternura, de entrega.

Eu, pessoa de pensar pouco e falar muito, dava por mim horas a fio a olhar para o vazio e a sonhar com coisas que sabia não serem possíveis. Mas entre o que sabemos e aquilo em que queremos acreditar vai uma distância enorme que pesa no coração porque deixamos - sim, porque deixamos. De olhos presos em outro lugar que não o telefone, sorria num esgar de dor cada vez que recebia um sms ou um telefonema. Porque, novamente, era tudo tão bom quanto tão mau se adivinhava.

Os encontros furtivos, as promessas sonhadas a dois - que ambos sabíamos que nunca iriam acontecer - as ausências, a dor, a dor, a dor. Fui perdendo peso e horas de sono. Cheguei a menos de 50 quilos em menos de nada e a minha mãe - atenta, Mãe com letra grande - atirou-me para o consultório médico antes de eu ter tempo  [ou vontade] de reagir. A única coisa que sabia fazer, naquela altura, era chorar. Chorava, tomava remédios para a dor de cabeça que não me largava porque não dormia e obrigava-me a colocar alguma comida na boca só para conseguir arrastar-me para a faculdade.

Miraculosamente fiz todas as cadeiras nesse semestre. Ainda hoje não sei como, porque a única imagem que tenho é a minha, sentada à secretária, a olhar durante três horas para a mesma folha de papel sem conseguir ler o que lá estava escrito. E os dias de febre, de cansaço, de exaustão pura de mim própria.

Com mais remédios na mala e uma depressão diagnosticada, valeu-me, já na altura, o João. A primeira e das únicas pessoas que soube o que se passava, e que, sem uma pergunta, tomava conta de mim. Era ele que controlava as horas dos remédios, durante o dia; era quem me ia buscar à noite para ir passear; era quem me tirava de casa quando eu só queria ficar enrolada no sofá a olhar para uma televisão que ia passando programas aleatórios.

Nos tempos seguintes tive alguns laivos de consciência. Com noites de sono decentes e a ajuda preciosa dos meus pais, decidi que era demasiado nova para aquilo. Parei de tomar a medicação e decidi que não iam ser remédios a controlar-me a vida. Que seria!! Num esforço [que senti como] sobre-humano decidi controlar a minha vida. Não que doesse menos. Não que sofresse menos. Mas tinha que ser eu. Isso eu sabia: tinha que ser eu a controlar a minha vida, a minha vontade, a minha alegria ou tristeza. Recusava-me [também] que fosse um homem, um sentimento por um homem, a fazê-lo.

Durante quatro ou cinco anos lutei contra o azedume que se quis instalar na minha vida porque estava furiosa. Sentia-me enganada, trucidada por mim própria. Sentia-me uma idiota por ter acreditado, mesmo sem querer, em algo que sempre soube ser impossível. Por ter tido esperanças infundadas, mas cheias de uma amor tão puro que nunca desapareceu. Durante anos deixei de olhar para o mundo e para as pessoas e esqueci-me de que tudo passa. Senti a falta dos amigos, a quem não falava do que estava a passar [tonta!] e cuja ausência sentia no meu coração porque achava que não se preocupavam comigo. Durante esse tempo, esqueci-me também de que só nos é dado aquilo que podemos suportar.

Hoje, quando olho para trás, sei que não poderia ter sido de forma diferente, embora adorasse não ter passado por uma depressão. Sobretudo assim, tão nova. Hoje, quando olho para trás, consigo sorrir e perceber tudo o que aprendi com alguém que sei, realmente amava e que me amava. Hoje consigo perceber que sou muito mais forte e muito mais 'amor' porque passei por isso.

Não sei porque decidi escrever sobre este assunto agora.  De alguma forma, creio que senti uma necessidade catártica de o fazer. E porque sei quão bom é saber que há pessoas que já passaram por aquilo que tatnas pessoas poderão estar agora a passar. A essas, posso dar três conselhos:

1. Peçam ajuda e não se fechem em vós próprias;
2. Escrevam num papel todas as coisas boas que a vida já vos deu. Leiam-no todos os dias;
3. Aceitem o problema, aceitem a ajuda e nunca desistam.










8 comentários:

  1. Ainda não passou nem sequer 1 ano... um ano com muitas recaídas, mesmo muitas...e a saber que muitas mais vou ter. o pior de tudo é saber q a culpa foi minha, fui eu q estraguei tudo...e saber isso não me deixa descansar, não me deixa seguir em frente, por uma pedra, ...o q lhe quiserem chamar. ele hoje esta com outra pessoa, alguém q não o merece (e não é dor de cotovelo) mas conseguir alguém com base em mentiras, em ataques a quem esteve com ele no passado (eu) não me parece a forma correcta de o amor acontecer. Esta depressão não passou e não vai passar tão cedo...sei disso da mesma forma que sei q não existem karmas nem outras coisas inventadas para acreditarmos que essas pessoas vão pagar de alguma forma o que nos fizeram. uma vez alguém disse, ser boa gente não rende...será mesmo assim? e sim isto vai passar! pode demorar mais 1 ano, 2, 3...os que forem. ele pode ficar para sempre em mim...isso é uma certeza, mas vai passar e dele levo as boas recordações MUITAS, o AMOR e o saber que não fiz nada do que fui acusada...eu pelo menos sei isso!

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    1. Olá Anónima :)

      Pela minha experiência - que posso dizer que não foi única.. - acho que uma coisa importante é tentar não culpabilizar ninguém. Nem achar que ser boa pessoa não compensa. O que somos, a forma como vivemos, é o que nos define. Fazer as coisas que achamos correctas é mais do que meio caminho andado para estar em paz com a sua consciência. Se vocês não esyão juntos é porque não tinham que estar. Acredite que o tempo tudo resolve e tente seguir em frente. Não é fácil, vai demorar muito tempo, eventualmente, mas olhe à sua volta e veja tudo o que tem de bom. Peça ajuda. Fale com as suas amigas. E lembre-se: ninguém merece as suas lágrimas, muito menos que desperdice a sua vida! Acredite nisso com todas as suas forças e vai ver que vai conseguir, passo a passo, avançar na sua vida :)

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  2. Margarida, obrigada por partilhares a tua experiência, muito muito obrigada. Já trabalhámos no mesmo local de trabalho, devemos ter trocado uma dúzia de palavras, não mais do que isso, mas ultimamente ler-te tem sido um verdadeiro escape. Confesso que nunca pensei que pudesses ter passado por uma experiência semelhante, talvez por sempre te mostrares cheia de vida, de amor, de alegria. Estou neste momento a passar por momentos muito complicados, estou com uma pessoa que acabou uma relação com mais de uma década para estar comigo. Tudo muito bonito não fossem, claro, ter chegado as dúvidas. Tantas dúvidas. E tenho um fantasma sempre comigo, o fantasma da incerteza, da insegurança, de achar que posso não ser boa o suficiente. E as lágrimas correm com uma força que me assusta, mas que eu não consigo contrariar. Quero acreditar que tudo vai passar, que estou a passar por tudo isto por um qualquer motivo e que, como tu bem dizes, só me foi dado este fardo porque eu consigo suportar. Tenho a certeza que virei muitas vezes reler este post. Nem que seja para voltar sempre a acreditar e tentar nunca desistir. Obrigada.

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    1. Olá Anónima :)

      Houve varias coisas que aprendi com as depressões (e com a vida): nunca teremos a certeza absoluta de coisa alguma na vida. Mas temos que deixar essa vida acontecer ou estaremos eternamente com medo.
      Não sei o que é estar numa relação com alguém que terminou uma relação para ficar comigo. Percebo que isso cause medo. Receios imensos. No entanto, pensa comigo (posso tratar-te por tu, visto que pelos vistos nos conhecemos?:): se a decisão foi serena, ela estará correcta. Essa pessoa está contigo porque quer estar. Isso significa que já foste 'boa o suficiente'. Agora tens que ser tu. Nenhuma relação sobrevive ao medo, à vontade de ser melhor, ao sermos algo que não somos. Vive durante os primeiros tempos mas depois acaba. Porque uma boa relação é aquela em que podemos, precisamente, ser nós. Não é tua toda a responsabilidade de uma relação a dois. É de ambos. As lágrimas e as inseguranças são naturais mas não podem reger a tua vida. Podem de vez em quando assombrar (e isso é normal). Se se tornar recorrente, tens que te preocupar. Falar com pessoas :) Mas olha para a tua relação, primeiro, e vê se não tens muito mais de que dar graças do que recear :) Aposto que vais dar por ti a agradecer e a adorar tudo o que tens. E a não te assustares mais. :) E depois, as lagrimas transformam-se em sorrisos, que é para isso que as relações existem. ;) [e se precisares de algo, let me know*]

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  3. Antes de tudo parabéns pelo seu blog. Gosto de a ler, da forma como escreve e dos temas que aborda!
    Este tema em particular é um tema que dói... sou mãe! A minha filha deve ter quase a sua idade e passou por uma depressão que não a larga desde 2009! Eu não consegui ver, como a sua mãe, que algo se passava e até hoje sinto uma culpa enorme! Não vi! E ela, boa actriz, não deixou que víssemos! Só quando já estava há seis meses sem dormir e com um esgotamento... de repente tudo se revelou. O namorado, um jovem na altura com 23 anos, não ajudou nada... pôs-lhe o pé em cima... não aguentou, achou que era uma mania qualquer! Namoravam há 5 anos!!! E como um trapo velho acabou o namoro! Veio a depressão. O esgotamento curado, mas a depressão é lenta! Quando a menina melhorou ele veio de mansinho! Reataram o namoro nesse mesmo ano... A pressão da faculdade, a pressão do namorado para morarem juntos ou casar... a depressão não desaparecia! Altos e baixos, muita paciência e amor dos pais mas muito pouco amparo deste namorado, que se limitava a dizer "babe vai tudo ficar bem"! Em 2013, dez anos de namoro, uma vida pronta para viver a dois... faltava tão pouco! Num dia em que a nossa menina não estava bem, e quinze dias depois de ele lhe ter proposto união de facto, este rapaz com 27 anos, pelo telefone acaba o namoro! No dia seguinte pede-lhe um tempo... quinze dias depois passeava com outra num fim de semana romântico, enquanto dava um tempo. Garantiu que não tinha ninguém e negou até à última. Na verdade ninguém manda nos sentimentos, mas ele não teve a dignidade e o respeito que dez anos impunham! Mas como neste mundo todos conhecem todo o mundo alguém o viu com a outra, num local onde ele não suponha! Longe de Lisboa! Confrontado com isto negou tudo até não puder mais... atirou a minha filha para o hospital, para psiquiatria... Hoje a minha filha é muito mais serena, mais dona de si própria, a depressão ainda cá mora, mas nada acontece por acaso. Esta foi a maneira que os entes superiores usaram para mostrar que aquela relação não tinha futuro. Por muito que houvesse amor de uma das partes... A nossa menina anda muito mais feliz, o rapaz... de certeza foi quem mais perdeu... não soube com serenidade sair de um relacionamento e partiu para outro sem dar o tempo sequer de pensar, ou conhecer a outra rapariga... Em menos de um ano foi morar com a outra e está de casamento marcado! Este desabafo para dizer que homem nenhum vale as lágrimas de uma mulher. Ninguém merece sofrer desta forma! Nem por amor nem por nada! E quem me estiver a ler, IMPLORO-VOS, não deixem passar as coisas em branco, peçam apoio, procurem os amigos, acreditem em vocês. Só vocês se podem ajudar! À dona deste blog, que me parece ter a seu lado a sua alma gémea, muitas felicidades e desculpe este desabafo!

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  4. Olá Anonima (tanto anonimo, começo a ter que usar números ;)!,

    antes de mais, não peça desculpa. Eu é que agradeço pela confiança do seu desabafo. Sei que não deve ser fácil para si ver a sua filha passar por tudo isso. Sei que não deve ser fácil estar do lado de quem se sente impotente para ajudar, mas a verdade é que pode fazer imenso por ela, ainda.

    Fale com os amigos [os a sério] da sua filha e peça-lhes ajuda. Peça-lhes que estejam mais atentos, mais presentes e que sejam mais iterventivos em caso de quebra.

    E, aquilo que me parece mais importante: ajude-a a esquecer esse rapaz! E convençam-se, ambas, de que a culpa não é dele :) Porque esse é o primeiro passo para se poder curar a sério.
    A sua filha começou a namorar cedo, pelo que percebo do seu texto. Dez anos de namoro com a mesma pessoa - calculo que ela tenha uns 25? Menos, talvez - numa altura em que toda a sua personalidade adulta ainda se está a formar é coisa para arrasar qualquer pessoa. E é aí que está o segredo - creio euque, que não sou psicóloga :) Não se deixar ficar presa a um rapaz que não importa.

    Repare que o seu texto diz que "o rapaz foi quem mais perdeu"; "Em menos de um ano foi morar com a outra e está de casamento marcado"...como se o culpasse por isto, e como se, de alguma forma, achasse que ele não merece ser feliz.

    Na verdade, Anónima, talvez eles realmente não fossem felizes juntos. Talvez ele não quisesse essa relação, mas saiba que quer esta que tem agora [eu também namorei apenas pouco mais de um ano antes de me casar ;)]. Isso significa, apenas, que ele fez a sua escolha, e que acredita ser mais feliz assim. E sabe, melhor que eu, que se não estivermos felizes com as nossas decisões, não faremos ninguém feliz.

    Aquilo que tem que fazer, aquilo que tem que ajudar a sua filha a fazer, é simples: é olhar para todos os bons ensinamentos que esta experiência lhe deu; é lembrar-se de e mostrar-lhe que há coisas fantásticas no mundo que podem fazer-nos contentes (mesmo que nos não façam felizes); é pensar que 'se não aconteceu é porque não tinha que acontecer e porque algo de melhor está guardado'.

    Sei que isto parecem frases feitas, pequenas pedrinhas atiradas a uma dor maior - afinal, que sabemos nós das dores uns dos outros? Mas é mesmo assim...é um trabalho diário, este de todos os dias tentar ver o 'copo meio cheio'. De tentar encontrar nos amigos, no teatro, na música, na família, no trabalho, na faculdade, as coisas boas da vida.

    E fazer novas memórias que ajudem a apagar as antigas, porque essas, inevitavvemente, doem. E terão que passar. Com ou sem a nossa ajuda. Tranformar as memórias que doem em algo bonito custa, mas é o melhor bálsamo para uma alma doída: que ganhamos nós em colocar o dedo numa ferida que queremos fechada?

    Esse trabalho tem que ser nosso, querida Anónima. Esse trabalho de lember e tratar as nossas feridas tem que ser nosso. temos que o querer, com o que nos resta de forças e de vontade de ser felizes. Temos que o querer e temos que o fazer, mesmo quando é muito mais fácil sucumbir à dor!

    Libertem-se desse rapaz. Deixem-no ser feliz. Queiram vós ser felizes, também, que só assim tudo poderá começar a ser melhor! :) E desabafe, pergunte, 'grite' comigo sempre que quiser :) Se isso ajudar, faça-o todos os dias :)

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  5. Querida Meg,

    Obrigada pelo tempo que perdeu a responder ao meu desabafo :)

    Tem toda a razão em tudo o que diz.

    Só deixo uma nota: quero muito a felicidade da minha filha e do rapaz também... Aquilo que condeno é a falta de transparência, a mentira, a desonestidade. E, sobretudo, a falta de amizade! Não seria mais fácil dizer não estou feliz contigo, conheci outra e gosto dela?!" E nem tinha que pedir desculpa, tinha apenas que ser honesto, porque ninguém é de ninguém... O facto é que "pediu um tempo" para deixar a minha filha em "banho maria" e ver o que dava com a outra. Ainda bem que se descobriu... e quando confrontado negou e ainda disse que não estava apaixonado pela outra e que ainda gostava da minha! E com isto atirou a minha filha para o fundo de um grande poço!! Isto já não se desculpa! No fundo, ainda bem que tudo aconteceu, só não tinha que ser assim... E, como diz e concordo 'se não aconteceu é porque não tinha que acontecer e porque algo de melhor está guardado'.

    Quando digo que foi ele quem mais perdeu, o que quero dizer é que, de certeza, não tem a consciência tranquila, não pode ter! E faltou a tal serenidade, o saber colocar os pés na terra e pensar que a vida não se vive com mentiras! Mentiu à minha e mentiu à outra...

    E, sinceramente, queremos muito que seja feliz, a minha filha quer que ele seja feliz e nem o consegue odiar, gosta dele, já não o ama, e quer-lhe bem!

    Há uma coisa que eu acredito aliás duas ou três e penso nisso no dia a dia da minha vida: nada acontece por acaso; quanto mais se dá mais se recebe e a vida tem o tal efeito boomerang...

    Obrigada por este bocadinho, pela paciência e honestidade... pelas suas palavras tranquilas e serenas. Acredito que você é uma menina maravilhosa :)

    Grande beijinho

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  6. Entendo tudo o que diz, e imagino a mágoa que sente. Mas foque-se nesses princípios em que acredita: "nada acontece por acaso"! E eu acredito, do fundo do coração, que a sua filha tem algo muito maior e muito melhor reservado :)

    Não agradeça. Estes bocadinhos também me fazem bem a mim, porque me ajudam a analisar-me [e aos outros].

    Obrigada por me ler e por me levar em conta. isso sim, deixa-me feliz :) *

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