quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Frente e Verso | Aborto



Frente | A opinião da Lénia
O referendo do aborto calhou num dia especial para mim: era o meu aniversário. Foi a vez em que me foi mais fácil votar. Não tive que pensar (ali, em frente ao papel), tive apenas que procurar o quadradinho correspondente ao SIM.

Sou a favor do aborto. Não como método contraceptivo, obviamente. Mas sou a favor da liberdade de escolha, sempre. Sou a favor de cada uma de nós poder decidir (apoiada por namorados/maridos/whatever, ou a solo, caso os anteriores se tenham descartado de responsabilidades) o que fazer perante uma gravidez não desejada/planeada.
Não acredito que só engravida quem quer. Eu engravidei a tomar a pílula direitinho, sem antibióticos, sem nenhuma daquelas coisas que podem cortar o efeito da pílula. A pílula não é 100% segura e a mim calhou-me uma filha que é prova disso. Decidi tê-la, mas podia ter decidido abortar.
Não me faz sentido que se criminalize o aborto, mas também não me faz sentido que se dê a quem aborta os mesmos direitos/regalias que se dá a quem pare um filho e tem que cuidar dele (e nisto estou 100% com a Margarida).
Sou a favor do aborto em mais situações do que a Margarida é. Violações, risco de vida para a mãe, malformações do feto. E se uma grávida não se sente capaz de ser mãe? Nasce a criança e depois é deixada algures, entregue a uma instituição, abandonada, mal tratada? E se uma grávida não tem condições para tratar da criança, para lhe dar o mínimo dos mínimos? Que vida é que terá uma criança que vive assim?
Não generalizando, acho que não é o reino do vale-tudo. Não vale. Há situações em que não concordo. Mas concordo com o princípio: deve poder ser a mãe (de preferência em conjunto com o pai, mas a solo se tiver de ser) a decidir o que fazer perante uma gravidez. E não deve ser o Estado (nem a sociedade, já agora) a punir as pessoas que, no caso das razões "válidas", optam por não prosseguir com a gravidez. Concordo, contudo, com o "prazo" que está em vigência: 10 semanas. Mais do que isso e a coisa assume outros contornos (mas, tal como a Margarida, não vou aqui entrar na discussão bebé/monte de células, que não é o que está em causa).
Gostava, acima de tudo, que o Estado pudesse dar às mães uma rede de apoio que tornasse a lei do aborto desnecessária. Às tais mães que não se sentem capazes de ser mães e as outras que não têm condições para criar os filhos deviam ser dadas ferramentas para que elas não precisassem de recorrer ao aborto e para que todas as crianças pudessem nascer. Mas isto não é o país das maravilhas e estamos tão longe dessa realidade que me parece utópico pensar que um dia vamos ter uma sociedade onde não há necessidade nenhuma de se fazer um aborto (a não ser nas tais situações que já antes estavam regulamentadas: violações, risco de vida para a mãe, malformações do feto).

[A minha opinião está, como de costume, no blogue da Lénia]

4 comentários:

  1. Boa noite

    Este assunto dói-me. Doí-me profundamente.

    Dói sentir que nessas situações tão dramáticas se fique quase só pela compaixão e não pela paixão: só por "anda fazer um aborto ou vais estragar a tua vida" e não por "gostamos muito de ti, não estás só e vamos fazer o melhor para ti e para o bébé".

    O estado devia ajudar mais? Absolutamente! Mas só? Não, toda uma mentalidade que não quer e não suporta a contrariedade, que não vê mais além.

    Sei do que falo. Passei também por uma situação bem dramática. Tudo me custou horrores. Já lá vão 11 anos. Mas, durmo descansada e feliz, sem remorços, porque não fiz mal ao meu bébé. Não o abortei(matei) como tanto e tanto me pressionaram.

    E, um dia, vamo-nos encontrar. Acredito que há mais do que a nossa vista vê.

    Muito obrigada por este bocadinho.











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  2. A Associação Família e Sociedade promove cursos de MÉTODOS NATURAIS de Planeamento Familiar. Bem melhor que todo o negócio que gira em torno da sexualide: pilulas etc.


    Pode espreitar em http://www.familiaesociedade.org

    Cumprimentos
    Teresa

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  3. Ora bem, eu sou contra o aborto e muito a favor da despenalização do mesmo, votei sim e continuaria a votar. Suspeito que quando aparece uma mulher que fez 4/5/6 abortos é uma mulher pobre e com pobreza não só em dinheiro como em educação, em recursos e apoios sociais que lhe permitam escolher melhor.
    Quanto ao valor que o estado gasta com os abortos dos outros.. gostaria que não fosse gasto mas eu também não gosto do dinheiro que é gasto com alcoólicos, com toxicodependentes, com estádios de futebol com muita coisa! E o dinheiro para o aborto cai, para mim, na mesma categoria do dinheiro para alcoólicos e toxicodependentes: preferia não ter de o gastar mas acima de tudo são pessoas que precisam de apoios médicos e sociais e tem de ser gasto.

    O aborto sempre foi feito e infelizmente será sempre uma realidade se antes era em Espanha ou vão de escada agora é feito num centro de saúde, se antigamente as mulheres pobres (sempre as maiores vitimas) corriam o perigo de risco e as que podiam iam uns dias a Espanha agora temos acesso a cuidados médicos e isso é o mais importante.

    Quanto ao bebé ou células, não pesa muito quando penso no aborto (até as 10/12 semanas, não falo de uma gravidez de 5 meses) porque penso nas vidas que já existem, nas condições que a criança vai encontrar porque uma criança mal tratada me custa mais do que um aborto, um adolescente que cresceu com carências, um adulto traumatizado custa-me mais do que um aborto..

    Outra questão.. quando se fala que o pai também pode opinar.. da realidade que eu conheço se o casal não está junto e não foi uma gravidez planeada o homem esfumou-se.. ou volta e meia vai ver o rebento mas não é pai em nenhuma situação, se a mulher pensa em abortar algo me diz que o pai não será um grande apoio para começar quanto mais quando vierem as fraldas e as noites em claro, mas pode sempre dizer "força, vamos ter um bebé" para depois desaparecer..

    Resta-me dizer que tenho 7 tios do lado do pai e nenhum da mãe, sou neta de uma mulher que perdeu a conta aos abortos vão de escada que fez quando a outra escolha era passar fome.. talvez isso explique a minha posição..
    Sempre fiz de tudo para evitar uma gravidez porque não me imagino a matar um pedaço de mim.. mas quero essa escolha! e quero que todas as mulheres sejam livres de fazer essa escolha.

    Desculpe o texto longo.........

    Maria Santos

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  4. Pois. Percebo o que a leva a ter a sua posição. Mas, nós mães merecemos mais!

    Enquanto o aborto se apresentar como alternativa às gravidezes dramáticas, nem o estado nem muita gente fará o esforço para minimizar o sofrimento alheio, por dar melhores condições a quem deveras precisa e acabar com tanto sofrimento escondido - o dos bébés mortos e das mães. Tanto sofrimento!

    Faz falta a revolução do amor! E essa revolução começa precisamente em cada um de nós.

    Muito obrigada por mais um bocadinho!






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