quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

ser portuguesinho. assim. pequenino

Os meus pais são emigrantes. A sério. Há cinco anos, mais coisa menos coisa, o meu pai começou a trabalhar em África. Já vai no terceiro País e se bem o conheço está com muito pouca vontade de regressar. A minha mãe juntou-se-lhe pouco tempo depois e geralmente passa o tempo que está cá a dizer "ai, que saudades que eu tenho de (inserir país da altura)".

Os meus pais, emigrantes, deixaram cá as filhas e os netos. Uma casa. E uma vida de mais de quarenta anos. Deixaram cá tudo de sorriso nos lábios e olhos postos no futuro. E quando alguém fala do 'drama que é sair do país' a minha mãe encolhe os ombros e responde: "Oh, mas agora as viagens são um instante. E no Skype podemos ver-nos todos os dias" - dúvidas houvesse, foi dela que herdei o sentido prático.

Os meus pais, emigrantes, viveram um ano num lugar em que não havia coisa alguma. Quando queriam doces a minha mãe fazia rebuçados de ananás, e quando havia visitas fazia ela o pão que era longe para burro ir comprar. Os meus pais, emigrantes, regressam sempre com bugigangas em jeito de presente e montes de saudades no coração. E sorrisos e abraços. E vontade de voltar.


Os meus pais trabalharam uma vida toda,fizeram sacrifícios, criaram três filhas, deram-nos cursos superiores..enfim. Conseguiram isto tudo sem um queixume, que os meus pais não são pessoas de fazer queixas e de sofrimentos dramáticos, porque acham sempre que a vida é uma coisa maravilhos e há que olhar para tudo o que há de bom em vez de perder tempo com tudo o que há de mau.

O meu cunhado é emigrante. Tem uma filha pequena e uma mulher com quem casou há pouco tempo. É certo que está aqui na Europa, mas perder as palavras da Mary, os primeiros passos e as primeiras querdas não é fácil. Estar longe da família, dos amigos...o meu cunhado não se queixa e está sempre de sorrisos nos lábios e a enviar mensagens porque os smartphones têm essa coisa boa chamada 'internet de graça' que tudo permite.

Isto tudo para dizer que apesar de algumas pessoas acharem, quem acha mal - tipo, eu - o drama todo à volta de histórias como a do Tordo, quem se revolta com as lamechices de quem está longe (quem me dera a mim estar fora de Portugal) e quem não se enternece com as capas de revistas dos 'emigrantes forçados' não têm que ser pessoas privilegiadas. A sério.

Quer dizer, eu sou privilegiada. Mas não porque a vida tenha sido sempre um mar de rosas. Ou porque a minha família não emigre. Ou porque eu não saiba o que é estar longe e ter pessoas longe. O que não tenho é pachorra para dramazecos de tanga quando há problemas a sério para resolver. A emigração não é um deles.

A mentalidade portuguesinha (assim mesmo, com diminutivo) dá cabo de mim. De verdade.



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