quinta-feira, 24 de abril de 2014

Frente e Verso | Beleza vs Competência



Frente: A Lénia discorda totalmente de que se use a beleza para obter resultados.

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Notas prévias antes de avançar para a minha opinião propriamente dita: nunca um Frente & Verso me custou tanto escrever como este. Nunca discordei tanto (tão profundamente) da Margarida como no que respeita a este tema. Não soube muito bem como abordar a coisa, pelo que fiquei muito feliz por ter sido ela a escrever primeiro - fazemos sempre assim, uma escreve, manda à outra, que escreve de volta. Dito isto, cá vai.

Duas coisas muito diferentes: ser-se bonita e competente; fazer-se uso de truques de sedução/características físicas para conseguir resultados, sejam eles quais forem.

No que toca ao primeiro ponto, nada a objectar. Ainda bem que há mulheres lindas e competentes, inteligentes e que sabem trabalhar. Infelizmente, terão que se esforçar em dobro ou em triplo para provar o seu valor porque a sociedade ainda vive presa ao estereótipo que diz que beleza é igual a burrice. Mas acho que, no fundo, grande parte da culpa até é das mulheres (já explico).
Digo muitas vezes que tenho uma sorte do caraças em ser mais inteligente do que bonita. Não que me ache feia - não acho - mas sei que a minha inteligência é muito superior à minha beleza e isso é um ponto a meu favor (porque me poupa tempo a ter que me esforçar em dobro ou em triplo para provar as minhas capacidades). Eu sei que tenho um ar exótico, que já deu azo a muitas conversas que nada tinham que ver com trabalho, conversas essas que eu cortei rapidamente, por não querer meter-me por caminhos estreitos.

Nunca me passaria pela cabeça usar truques de sedução (para mim, sorrisos, olhares mais demorados e ajeitares de cabelo, cruzares de perna e afins, são truques de sedução) para fechar negócios. Trabalhei muitos anos na área comercial e o meu objectivo era vender (ideias, ainda por cima, que é coisa difícil de vender como o raio!). Nunca fiz uso de nada que não fossem as minhas ferramentas de trabalho para conseguir negócios. É óbvio que quando ia para reuniões tinha o cuidado de não ir de havaianas (sim, eu podia trabalhar de havaianas!), é óbvio que quando estava em ambiente de trabalho tinha que ser simpática e mostrar um sorriso (ainda que estivesse num dia "não" e me apetece correr tudo a vernáculo). Mas a fronteira é esta: ser simpática sem usar armas físicas. Porque o risco de ser mal interpretada é enorme. A linha que separa a simpatia do flirt não é assim tão demarcada, se usarmos os tais sorrisos e os tais olhares demorados. E eu nunca estive disposta a entrar por aí.

É por isso que acho que falarmos de beleza e competência não tem necessariamente que ser o mesmo que falar de usar a nossa beleza a nosso favor. Quando fazemos isto estamos por nossa conta e risco. E nunca saberemos se fechámos o tal negócio porque trabalhámos bem ou porque aquele sorriso pareceu ao outro uma porta aberta para sabe-se lá o quê. 
Entrevistas de emprego: é certo que convém ir bem apresentado porque isso diz muito sobre nós. Mostra esmero, cuidado e vontade de ficar com o emprego. Eu não quereria ficar com um emprego para o qual fosse contratada porque ajeitei o cabelo atrás da orelha ou porque sorri e mostrei os 32 dentes que tenho (em óptimo estado, diga-se!). Para mim, é meio caminho andado para interpretações enviesadas e, no limite, chatices. Não, obrigada!

Foi a Margarida que usou a palavra, por isso sinto-me à vontade para a trazer para aqui: para mim, utilizar características físicas a nosso favor, em ambiente laboral, é uma forma de "prostituição". Neste sentido: estamos a vender, não o que fazemos, mas o que somos. Estamos a dar algo de nós que ninguém nos paga para dar. Não se trata de trabalho, trata-se de vida pessoal, de âmbito pessoal. E é por isto que, voltando ao início, acho que grande parte da culpa por ainda hoje as mulheres bonitas terem que se esfalfar em dobro ou em triplo para mostrar o que valem é... das mulheres. Que se objectificaram. Que permitem que sejam vistas como adereços, coisas bonitas que são para ser apreciadas. Isto, parece-me, não tem nada que ver com competência. E lixa um bocado quem é realmente competente e não tem que se valer de truques de alcova para chegar onde pretende.

[A minha opinião, diametralmente oposta, está aqui]

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