quinta-feira, 8 de maio de 2014

Frente e Verso | Comprar ou Arrendar?



A Lénia quer casas compradas.
Lembro-me perfeitamente de ser miúda e de pensar: "um dia quero viver sozinha". Esta ideia foi crescendo comigo. Estudei, acabei o curso, comecei a trabalhar e toca de pensar a sério nisto de viver sozinha. Tinha 24 anos. 

Na altura, o meu pensamento andou entre comprar versus arrendar casa. Das duas, uma: ou comprava nos arredores de Lisboa, ou alugava na cidade. Ora eu nunca quis morar em Lisboa. Que me desculpe quem tem milhões de argumentos pro-Lisboa, mas eu não tenho. A ideia de morar, trabalhar e estar sempre no mesmo sítio não me agrada. Eu sei que isto não é assim tão linear, mas sempre achei que se morasse e trabalhasse em Lisboa, raramente haveria de sair dali para ver/sentir/conhecer outros sítios. Porque, parecendo que não, há ali tudo o que é preciso e não há necessidade nenhuma de atravessar os limites da cidade.

Restavam-me os arrabaldes. Reparem: eu sou suburbana. Com orgulho. Nasci em Lisboa, mas fui criada na periferia e não tenho rigorosamente nada contra isso. Pode ser provinciano, pode ser o que quiserem. Eu gosto disto de estar afastada do centro nevrálgico da cidade que mais amo. Contraditório? Talvez. Mas permite-me reapaixonar-me por Lisboa cada vez que lá vou - e desde que deixei de trabalhar a tempo inteiro que vou cada vez menos.

Bom, voltemos ao foco: arrendar VS comprar. Quando decidi comprar casa, o factor que pesou mais foi este: pagar por pagar, pago uma coisa que vai ser minha um dia. A ideia de largar todos os meses 500 euros ou coisa que o valha por uma coisa que nunca será minha não me atrai. É que eu, ao contrário da Margarida, parece que tenho raízes e ODEIO mudar de casa. Aliás, só mudei uma vez, precisamente quando saí de casa dos meus pais para esta, que comprei nos arredores de Lisboa (e perto dos meus pais, bem entendido). Comprei uma casa pequena (um T2) que, para mim, dava perfeitamente. Eu ia viver sozinha, não precisava de mais do que dois quartos e uma sala. Só que entretanto a família cresceu e isto que começou como um palácio para uma já se transformou num ovo para quatro. Os meus filhos partilham o aposento e, pelo rumo que as coisas levam, vão continuar a coabitar por muitos e longos anos. É que, à mesma velocidade a que a família cresceu, a carteira diminuiu e não há como mudar de casa agora. Já sei: mais uma razão para arrendar em vez de comprar. Talvez. Mas isso é hoje, à luz da crise. Em 2003, quando assinei a escritura, a única crise que eu antevia era a de meia-idade e essa estava muito longe ainda. Claro que, se eu soubesse o que sei hoje, se calhar não me tinha metido nisto de ser proprietária de um apartamento (ou, melhor dizendo, nisto de me tornar devedora ao banco). Mas não me arrependo. Falta-me pagar 19 anos de prestações. Já faltou mais. E daqui a 19 anos tenho uma casa. Velha. Mas minha. Ah, e acredito piamente que vou sair daqui antes disso e que um dia vamos mesmo conseguir a vivenda dos nossos sonhos. Comprada, obviamente.
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