quinta-feira, 19 de junho de 2014

"Não terei filhos!"



Ontem, quando vi a notícia, petrifiquei. Depois li novamente. Depois fiquei chocada, irritada e apetecia-me bater em pessoas. Depois comecei a ler as várias opiniões que começaram a correr as redes sociais e fiquei enojada. Verdadeiramente.

Eis o que me choca: num país que se diz de primeiro mundo, descobrir que é prática em alguns lugares assinar um contrato que diz que “nos próximos cinco anos não vou engravidar” como se fosse natural. Pior, haver quem ache que isso é natural, mesmo fora desse esquema. Como é que se pode achar natural que seja a entidade patronal a decidir algo tão pessoal quanto ter um filho?

Como se pode achar natural e “melhor do que depois tratar mal a pessoa porque engravidou” que alguém que não os pais da criança decidam quando ela nasce ou não? E escrevam isso e obriguem as mulheres – os pais não são obrigados, verdade – a assinar um contrato que é absolutamente ilegal por uma questão pura e simplesmente material?

Como é que o mesmo país que defende que “o corpo é das mulheres e elas devem poder decidir se querem abortar” acha natural que essa mesma mulher, afinal, não possa decidir quando quer ter filhos? Como é que deixamos que isto aconteça em pleno século XXI alegando que “as empresas devem saber com o que contam”? Como é que nos sujeitamos a ficar sem País daqui a 50 anos porque os interesses económicos definem tudo, inclusivamente a nossa vida pessoal e familiar?

E o que acontece nestes casos se, por acaso, a mulher [idiota] que assinou o contrato engravidar por acidente? Qual é o procedimento? É despedida por justa causa? Tem que abortar? Como é?

Que país é este? Que pessoas somos nós que somos coniventes com estas coisas? Que sociedade é esta em que vivemos? Que mundo é este que nos obriga a escolher entre uma carreira e a maternidade como se não fossem possíveis de coexistir – olhem para os nórdicos, pessoas, e aprendam!

Isto é muito sério e preocupa-me. Verdadeiramente. E preocupa-me mais ainda que haja pessoas alegadamente inteligentes, bem formadas [e até de esquerda, só para ser mais irónico] que concordem com isto e façam discursos sobre como isto até “é menos mau”.

É tão preocupante. Tão triste. Tão asqueroso.

7 comentários:

  1. Conheço quem tivesse uma cláusula dessas no contrato e quando quis engravidar demitiu-se. Claro que o miúdo tem agora uns 18 anos, portanto eram outros tempos em que era mais fácil arranjar um trabalho depois...
    Isto para dizer que por mais chocante q seja, não é novo. Pensei que tivesse sido proibido e acho q foi, em tempos. Pelos vistos voltou.

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    1. Não voltou e é ilegal. Tal como o é, até, perguntares a alguém se pensa ter filhos numa entrevista de emprego. E o meu choque nem é tanto por ser novo. É por haver quem seja conivente com isto. É por haver quem assine e ache natural. Isso é que me choca mais, até.

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  2. É triste mesmo mas acho que infelizmente quem assina está tão desesperada por um trabalho que não mede bem as consequências da sua assinatura! Podia dizer só neste país...mas acho que a falta de escrúpulos é um mal geral...global!

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  3. Triste. Triste e medonho.
    Obrigada pelas palavras que me deixaste Meg. beijinho

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  4. Verdadeiramente preocupante e medonho!

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  5. Vamos ver isto com outro prisma e sem esse deadline maluco de 5 anos: imagina que és contratada numa empresa e o teu cargo pede 6 meses de formação. Só a partir do 7º mês, quando ja tiveres feito o dito training, é que poderás exercer a tua função, entretanto a empresa ja te pagou 6 salarios e ja tomou o seu tempo para te formar. E imagina que ao 7º mes, quando ias finalmente começar (ou mesmo escassos meses depois) digas que estás grávida, entao terão de formar de novo uma nova pessoa para te substituir por 6 a 12 meses. A empresa gastara mais recursos para ter 2 pessoas numa só posicao. Certo? Então,neste caso, a empresa pode perguntar se pode contar com o engagement da pessoa que quer contratar por um tempo determinado ou nao? Porque por nao poderem pedir isso, vao preferir contratar um homem que terá uma licença paternidade muito mais curta que de uma colaboradora. Bjbj! J.

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    1. Elite, pensei, antes de escrever este texto, em tudo o que me dizes na tua mensagem. Vou responder-te por pontos, para ser mais simples ;)

      1. "E imagina que ao 7º mes, quando ias finalmente começar (ou mesmo escassos meses depois) digas que estás grávida, entao terão de formar de novo uma nova pessoa para te substituir por 6 a 12 meses." O bom senso dos trabalhadores deve imperar sempre. Não me passaria pela cabeça [não deverá passar pela cabeça de ninguém com juízo] engravidar no primeiro ano de um contrato. No entanto, não me choca que o meu empregador me pergunte (e obviamente com tato), quais são os meus planos relativamente a filhos. Acho perfeitamente normal que o façam, precisamente por uma questão de logística. Mas de 'o que está a pensar' até 'não pode ter filhos' vai uma distância do tamanho do mundo.

      2. "Então,neste caso, a empresa pode perguntar se pode contar com o engagement da pessoa que quer contratar por um tempo determinado ou nao?" Sim, mas depende da forma como essa pergunta é feita. Eu percebo que me perguntem se estou a pensar engravidar durante o primeiro ano. Não percebo que me excluam de uma posição porque posso querer ficar grávida. Eu não perco competências por ter filhos. A empresa perde-me durante seis meses [no tempo de vida de uma empresa seis meses não é coisa alguma] mas quando eu voltar, regresso com vontade de compensar a empresa pelo tempo que estive fora. Quanto melhor me tratarem, melhor responderei. E eu não perco as qualidades pelas quais me querem contratar por querer ser mãe. Isso é que me incomoda.

      Porque o que não é correcto é decidirem por mim. É contratualizarem algo que para mim não é contratualizável. É olharem para mim como olham para um homem ("Porque por nao poderem pedir isso, vao preferir contratar um homem que terá uma licença paternidade muito mais curta que de uma colaboradora") como se eu, precisamente por ser mulher, nao tivesse também competências diferentes :) Entendes?

      Beijinhos

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