sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Da beleza da morte.

Ninguém gosta de pensar em morte. Ninguém. A morte é dolorosa - para quem fica - mesmo que seja anunciada. Não há preparação que nos ajude a suplantar a ausência de quem parte para sempre, porque não sabemos quanto tempo dura o para sempre. E isso dói. E mói. E custa. E faz sofrer.

Eu não tenho medo da morte. Acho que porque lá em casa a morte sempre foi encarada com naturalidade, não me assusto com ela, não me apavora a sua ideia. Tenho pena de pensar que posso morrer, mas não tenho medo. Tenho saudades de quem partiu da minha vida, mas sei-os - acredito nisso piamente - num lugar muito melhor. Sei que o sofrimento é meu e não de quem parte. E sei que estão a velar por mim. Isso conforta-me - ainda que não apague a sua ausência.

No outro dia conheci alguém que me revelou algo absolutamente espetacular: o David, apaixonado por flores, gosta de fazer coroas para funeral. Isso. O David gosta de as desenhar na sua cabeça, de olhar para as flores e pensá-las artisticamente para ajudarem a que um momento triste se transforme em algo bonito, também. O David podia só gostar de fazer arranjos para flores. Mas não. Ele gosta mesmo de se dedicar a transformar um momento de dor num momento com coisas bonitas. De usar as flores e a sua arte para prestar homenagem a quem parte e deixou tanto para que seja lembrado em vida.

Quando ele me falou disto, logo quando nos conhecemos, achei curioso. Depois, por circunstâncias da vida, foi preciso recorrer aos seus serviços. E de repente percebi o que ele queria dizer: ele consegue mesmo transmitir coisas. A coroa abaixo foi pedida por uma razão triste. Mas sempre que olho para ela sei o que ela diz. De verdade. Parece mórbido? Tonto? Talvez. Mas a verdade é que naquele momento exato ele conseguiu fazer passar a mensagem que se queria. E embora flores não valham grande coisa para quem morreu, quando morreu, elas ajudam-nos a pensar que a vida se renova. A nós, que ficamos. Que a vida pode ser bonita apesar dos momentos menos bons.

A coroa.

Bom. Isto tudo para dizer que, apesar de parecer estranho, o David quer mesmo dedicar-se a isto. Somente a isto. E eu acho espetacular que ele tente acabar com algumas barreiras e ideias pré concebidas de que todas as casas de flores têm que fazer o mesmo para terem sucesso e por isso deixo-vos aqui a página dele. Espero que demorem a precisar dos seus serviços. Mas espero que quando precisarem se lembrem dele. Porque, ao contrário da maior parte das pessoas que trabalha com flores, ele gosta realmente de fazer estas coroas. E isso faz toda a diferença no final.




3 comentários:

  1. eu não quero que isso me aconteça com tanto que tenho para viver, não tenho propriamente medo da morte, tenho medo que ela aconteça cedo demais para mim! mas tenho medo da dos outros, ainda não me faleceu ninguém de quem eu amasse, e estou à espera que os meus avós nunca cheguem a falecer (sou muito mas mesmo muito irrealista neste aspecto porque não vou aguentar quando isso acontecer).
    Como quase-psicóloga rejeito coisas que devia estar era a ajudar-me a superar, enfim :p

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    1. Diana, eu não sou psicóloga nem nada que se pareça. Mas sou pragmática. Muito. A morte acontece. Não há como evitar - no máximo podemos adiá-la - e não há como passar sem ela nas nossas vidas. Ela acontece. E quanto mais cedo tivermos consciência disso, melhor :) Porque o embate é sempre grande, mas menor quando sabemos como lidar com ele. Não fica mais fácil. Nós é que passamos a saber lidar melhor com a situação Faz sentido? :) Eu cá prefiro pensar na morte como algo bonito. Facilita-me o processo :D

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  2. Que palavras tão bonitas! O David e o seu trabalho são isto mesmo!

    Um beijinho

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