segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Já não temos doze anos.

Já não temos doze anos. Temos trinta. E isso - a idade adulta - obriga-nos a decisões ponderadas, a decisões sérias, a decisões aborrecidas. Já não termos doze anos significa que não nos podemos esconder debaixo das saias da nossa mãe, fazer queixinhas à irmã e esperar que alguém resolva. Já não temos doze anos. Quando alguém deixa de nos falar isso não significa apenas que deixamos de partilhar os nossos brinquedos e o lanche de meio da tarde. Quando alguém nos magoa não resolve ficar a chorar num canto enquanto os nossos colegas continuam a brincar ao macaquinho do chinês ou à recém-descoberta batalha naval.

Já não temos doze anos. Quando me desaparecem, quando as atitudes mudam, quando o mundo nos afasta, não chega já assobiar para o lado e esperar que no próximo ano a nova turma nos traga outros amigos. Não chega. Porque a amizade dá trabalho. As relações dão trabalho. Dão chatices. Dão tempos bons e maus. "A amizade é o maior dos compromissos". Isso implica que a amizade implica sempre, sempre a verdade. Mesmo quando ela dói, quando ela nos custa a partilhar, quando ela nos é violenta. É assim. A amizade tem que ser baseada no que somos. Sempre. Porque é ela que fica, mesmo que os anos passem por nós, nos maltratem ou nos elevem aos píncaros. É sempre nos braços dos nossos amigos, perdão, Amigos, que encontramos o conforto das horas más e a celebração das vitórias.

É com os nossos Amigos que bebemos bom vinho comprado no aeroporto em copos de plástico para celebrar o reencontro. São eles que nos dão colo quando a tristeza nos invade. Que nos perguntam se precisamos de ajuda para tomar banho, mesmo que a pergunta lhes seja tão incómoda quanto para nós a resposta. São eles que nos limpam as feridas do corpo e da alma e que se enchem de orgulho e nervosismo por tudo o que nos acontece. São eles que nos aplaudem na primeira fila. E nos criticam no camarim.

São eles que atendem o telefone a meio da noite, que largam o que seja que estão a fazer para nos acudir. Os Amigos não podem não saber o que fazer connosco porque eles são parte de nós. Têm que ser.

E nós, por não termos doze anos, precisamos de saber com o que contar. Precisamos de saber se podemos continuar a ser nós, de mão estendida e coração aberto, ou se está na hora de partir. Não o faremos enquanto não no-lo disserem. Mas vamos perguntar. E como não temos doze ano, não há espaço para "não sei". Quando queremos ter alguém na nossa vida isso é claro: ou queremos ou não queremos. E temos que fazer com que o outro o saiba. Para transformar isto em algo muito bom. Muito bonito. Muito duradouro.

Ou para deixar ir.
[já o fiz na vida. sei como fazer. não dói menos. nós é que estamos mais resistentes à dor.]

2 comentários:

  1. Como te compreendo.
    Já não temos 12 anos e percebemos que é hora de seguir em frente.

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