quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Dia de Ação de Graças

Eu, o computador no colo, o gato aconchegado na manta que nos aquece a ambos. No frigorífico há comida. Nos armários, também. Há cobertores, aquecedores, lençois quentinhos, água escaldante, toalhas fofas. Há botas quentes para calçar, casacos que nos permitem ficar secos, camisolas que nos mantêm quentes. Hoje, com o temporal que cai lá fora, parece que se adensa e se aprofunda este sentimento. De gratidão. Eu não sou muito de adotar feriados e festividades de outros países. Mas sempre gostei do Dia de Ação de Graças americano. Porque gosto que sejamos gratos. Sou muito muito grata por tudo o que tenho, pelas armas que me foram - que me são - dadas para lutar por tudo o que acho que faz sentido.

Sou grata pela família que tenho, com todas as suas particularidades. A que vem de há trinta anos e a que comecei a criar há quase dois. Sou grata pelos amigos, os mais e menos presentes, os que me ensinam tanto, todos os dias. Sou grata pelo meu trabalho, pelas oportunidades que me têm sido dadas. Pelas pessoas que têm passado pelo meu caminho ao longo da vida. Por todas elas: as que permaneceram e as que nos entretantos decidiram seguir outros rumos. Porque com todas aprendi algo. Cresci. Fiz-me quem sou.

Sou grata pelo que tenho. E tento lembrar-me disso sempre que quero mais, para não perder a noção de que ter mais não é sinónimo de ser mais. Sou grata pelos erros que cometi e pelas falhas que tenho e nas quais tento trabalhar todos dias.

Sou muito grata pela sorte que a vida me tem dado. De coração. E ao longo dos tempos fui tendo a certeza de que quanto mais grata sou, mais motivos a vida me dá para que esteja grata. Ou talvez seja o facto de me sentir tão grata que me mostra tantas coisas pelas quais agradecer.

Não sei. Sei que hoje é dia de agradecer por tudo o que temos - aliás, todos os dias são. E não de pensar em tudo o que não temos. Porque há-de haver sempre algo que não temos. Há-de haver sempre coisas que nos faltam, de que gostamos, que queremos. Sempre. Mas é tanto mais o que temos, que não há motivos para não estarmos sempre gratos.  Nem que seja pela nossa vida. Por acordarmos. Por termos pessoas quem gostam de nós. Por termos pessoas de quem gostamos. Por termos um teto sob o qual nos abrigarmos. Por termos o que comer. O que vestir. Por sermos. Todos os dias. 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Infinitamente feliz

Cinco dias. 49 horas. Três dias. 24 horas. Milhares - literalmente, milhares e milhares e milhares - de caracteres escritos. Uma tendinite que não passa.  Esta semana não será, nem de longe, parecida com a semana passada, mas o esforço redobra-se por acumulação do cansaço. Pede-se à cabeça que pare, mas o trabalho acumula-no fatídico caderno onde vamos escrevendo as ideias que quase queremos não ter. Estás bem? Estou espetacular. Mais ou menos. Quase espetacular. Um sorriso e um suspiro. A semana começou, também, com uma quase paragem de digestão - sabem?Quando a digestão não pára mas demora mais de 12 horas a ficar concluída?

Espetacular. Porque alguém tem que mostrar que há motivos para sorrir. Aconteceu isto, ouve-se no primeiro telefonema do dia. E mais isto, no quarto. Sucedem-se os acontecimentos, os problemas para resolver, as coisas para fazer enquanto se escoa por entre os dedos o tempo que teima em não aumentar. Não temos já cabeça ou memória para assimilar o que nos dizem. Não é por mal. É por incapacidade. É por falta de sinapses que o permitam. Ah, e não vais fazer A e B e C? Não. Quando a semana acabar - e hoje acordei com a profunda convicção de que era quinta-feira - só quero dormir. E não o vou poder fazer. Pelo menos não poderei fazer SOMENTE isso. Portanto, sofro por antecipação. E sofrer por antecipação cansa.

Estou feliz. Infinitamente feliz. Mas se pudesse encostar-me só um bocadinho e dormir por mais de sete horas seguidas, duas noites, seria muito feliz. Enquanto não o faço, desligo o telefono, esqueço-me de mensagens, de emails, e tento esquecer-me também de que o mundo continua a rodar. Infinitamente feliz implica sacrifícios. Esquecer o mundo, às vezes, é um deles.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Letras & Magnólias | Como reagimos quando desiludimos alguém?


"E quando somos nós a desiludir os outros? E se somos nós a razão da tristeza, do desapontamento? E se esperam de nós mais do que conseguimos, podemos ou queremos dar?
Há dias, porque desapontei uma pessoa, fiquei a pensar nisto. Passei dias angustiada, a sentir-me péssima, a duvidar de mim, das minhas capacidades. Sentia-me estranha no meu próprio corpo, uma coisa violenta que não gostei de sentir. Não foi a primeira vez que aconteceu, claro. Nem sei por que me tocou tanto. Sei que me senti aquém, senti-me pequenina. E, repito, não gostei. O meu marido, percebendo-me assim e sabendo as razões, deu-me o veredicto dele: "ignora". Não fui capaz.
Pedi as desculpas que havia a pedir, tentei emendar a situação, compensar a pessoa pelo mal que lhe causei (que, avaliando bem e com alguns dias de distância, não foi nada de especial) e isso apaziguou o meu coração. Mas fiquei a sentir que falhei - e vou sempre lembrar-me desta falha.
É duro ver no olhar do outro a desilusão. Saber que somos motivo de mágoa é coisa que faz doer. Mas há que aprender a seguir em frente. Se pedimos desculpa, se assumimos os erros que cometemos, pouco mais há a fazer. É deixar o tempo seguir. E mostrar que não foi intencional, que não quisemos magoar nem desapontar ninguém.
Todos nos desiludimos com as pessoas. Há sempre um momento em que alguém não chega à fasquia que levantámos para essa pessoa. E todos estamos, de vez em quando, do outro lado da barricada. Só temos que perceber que o facto de desiludirmos alguém não faz de nós más pessoas. Faz de nós humanos que falham, como toda a gente. E isso não tem mal nenhum - pode, inclusive, servir de trampolim para crescermos: se percebermos o que fizemos mal, na próxima vez podemos evitar a repetição da asneira. Nem tudo é mau nisto de ficarmos atrás do que esperam de nós, não é?
Mas, e voltando ao que me fez querer escrever sobre isto, esta desilusão deixou-me marcas - talvez até mais fundas do que em quem desapontei (e digo isto apenas porque o inverso também já me aconteceu: desiludir-me com alguém, esquecer o assunto, e sentir, passado muito tempo, a pessoa ainda melindrada e eu já sem saber porquê!). Não quero repetir a dose, mas sei que  é inevitável que aconteça. Talvez com o tempo passe a falhar menos. Ou talvez passe apenas a aceitar melhor as minhas falhas. Ambas as coisas são melhores do que o buraquinho escuro onde caí aqui há uns dias!"
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 Esta magnólia é da Lénia. Eu deixei as minhas letras no blogue dela.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Dieta

Esta semana estamos de dieta. A semana toda. o Porto deu cabo de mim. - mas tenho mil coisas para vos sugerir =)

Pedro Limão
Stash
Galerias Lumiére
Guerilla Dinner by Silverspoon
Book

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Letras & Magnólias | Casa



Largámos o 'Frente&Verso' porque percebemos, ao fim de quase dois anos, que temos muito menos coisas sobre as quais discordamos do que coisas sobre as quais pensamos da mesma forma. Mas adoramos escrever juntas. Desafiamo-nos. Melhoramos. Crescemos, quando o fazemos E por isso, decidimos trocar o 'Frente&Verso', onde tudo começou, pelo 'Letras& Magnólias'. Um espaço nosso, a quatro mãos, que vai versar sobre o que quisermos. Quando quisermos. As letras são minhas. As magnólias são dela. Ambas adoramos as duas coisas.


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"Em Janeiro de 2011 fui mãe pela segunda vez. Nessa altura, já andava a viver no limbo. Trabalhava a tempo inteiro, mas recebia quando calhava. Às vezes meio ordenado no fim do mês e o restante quando houvesse dinheiro. Às vezes, o fim do mês acontecia quase a meio do mês seguinte. Fiquei cinco meses de licença de maternidade, mas sempre a pensar nisto de estar numa situação incerta. Quando regressei ao trabalho, em pleno Verão, as coisas continuavam na mesma - para não dizer que estavam piores. Comecei a procurar outro trabalho porque não dava para continuar assim, sem saber quando recebia, quanto recebia, e a ter as mesmas despesas que tinha quando tudo era certo e não havia improvisos. Nessa altura, ir trabalhar era uma despesa que o meu trabalho não conseguia suportar - havia alturas que não sabia como ia conseguir comprar o passe para ir para o trabalho, o que é, no mínimo, ridículo.

Encontrei trabalho com relativa rapidez. Mudei. Foi a pior coisa que fiz na vida. Fui para uma empresa onde se praticava uma espécie de bullying laboral. Fui maltratada e desrespeitada. Passei duas semanas a chorar - começava assim que acordava, durava o caminho todo para o trabalho; no escritório, obviamente, controlava-me, mas as lágrimas regressavam assim que punha o pé no elevador, à noite, à hora de regressar a casa. Não aguentei. Ao fim de quinze dias demiti-me. Renegociei a minha situação na empresa anterior e passei a trabalhar a partir de casa, num regime de avença, a receber muito menos do que recebia a tempo inteiro. Continuo assim. Passaram três anos.
Isto de estar em casa tem vantagens óbvias: tenho tempo. Levo os meus filhos à escola às nove, não preciso de os deixar num ATL às sete da manhã ou coisa que o valha. Vou buscá-los às 17h30. Levo a miúda à natação quando ainda é de dia. Por norma, antes das 19h já estou de volta a casa. 

Mas eu não sou pessoa para estar em casa a vida toda. Preciso de mais. Preciso de produzir, de ser necessária, de fazer coisas acontecer. E, verdade seja dita, preciso de dinheiro, preciso de voltar a ter um ordenado normal e não um ordenado de micro-part-time. Tenho quase 36 anos. Não me arrependo destes três anos passados aqui, em casa, a trabalhar para a empresa, a trabalhar para mim, a trabalhar para nós. Mas é tempo de largar o ninho e de ir à procura do meu lugar. O ideal? Um trabalho que envolva escrever. A procura já começou... agora é aguardar. E rezar para que coisas boas aconteçam!"

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Esta magnólia foi escrita pela Lénia. As usual! E que saudades eu tinha. As minhas letras estão no blogue dela. Como também já era hábito.



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