segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Saber agradecer, aproveitar, deixar ir

Deixámos de contar quando passou os dois dígitos. Deixámos de contar porque a amizade não se quantifica e vive-se, só, na alegria de termos ao nosso lado as pessoas que sabemos serem a família que escolhemos. A nossa 'chosen family', porque adoramos estrangeirismos e fica muito melhor dizer assim.

Deixámos de contar os anos, as brigas, as lágrimas e as aventuras. Houve meses de amuos, houve discussões de meia noite, houve lágrimas de mágoa, houve tristeza profunda por palavras que se ouviram, que se disseram, por coisas que se fizeram. Mas houve tantas alegrias, tantas aventuras, tantas certezas e, acima de tudo, tanta presença. Elas são assim, as amizades-de-há-mais tempo. Sabemos que "estão sempre lá". Fazemos com elas, às vezes, o que fazemos com os pais e os irmãos: desleixamo-nos, descuramos, esquecemos, porque sabemos que 'in case needed', vão aparecer aos pinotes e vão revolver o mundo por nós.

Entramos na casa delas como se fosse a nossa, sabemos onde está a loiça, podemos abrir o frigorífico, pôr a mesa, aquecer o jantar. Arrumamos a loiça suja, carregamos caixotes, dobramos roupa. As amizades-de-há-mais-tempo são o nosso porto seguro, o nosso abrigo, a nossa rede de segurança.

Quando ninguém pode aparecer nas nossas festas, quando ninguém quer ir ao cinema, quando ninguém tem tempo para ouvir o nosso problema agora que é a nossa vez, elas estão lá. Disponíveis, de pijama, de fato-treino, de pantufas. Com uma chávena de chocolate quente na mão ou uma festa temática para nos animar. Com tempo. No fundo, com tempo. Com disponibilidade. Com amor.

As amizades-de-há-mais-tempo já são coisas de há muito tempo. Não são melhores que as outras amizades. Não são 'mais', não são 'mais importantes'. São só diferentes, porque não nos lembramos da nossa vida antes delas. Não temos memória do que havia antes, mas temos a certeza de que foram elas, essas, as amizades-de-há-mais-tempo que nos ajudaram, hoje, a ter as amizades boas que temos.

Foram esses amigos que nos ajudaram no que somos hoje. Que cresceram connosco, que passaram modas, que nos recordam o tempo do colégio, das tardes à lareira, da vida com tempo. Foram eles que nos ajudaram a ser melhores pessoas, e foram eles que nos fizeram ser melhores amigos de odos os que chegaram depois e conquistaram um lugar igual no nosso coração. Os nossos amigos-de-há-mais-tempo não se acomodaram e não se enciumaram. Mantiveram-se ali, firmes, a mostrar que adoram que tenhamos mais amigos, igualmente importantes, mas que continuarão firmes no propósito de continuar nas nossas vidas.

Ser grato por isto, nas nossas vidas, é das coisas mais simples e úteis que podemos fazer. Sempre. Porque os amigos são tudo no nosso caminho. Sem eles, os de-há-mais-tempo e os de-há-menos, a minha vida seria tremendamente mais vazia. E arrisco-me a dizer, profundamente infeliz. Agradecer sempre a graça de termos pessoas que nos querem bem na nossa vida. Agradecer sempre e pedir para termos o coração aberto para quem quer entrar, ficar ou sair na nossa vida. Agradecer, aproveitar, retribuir. Sempre. Sempre. Sempre.








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