segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Borgen. Ou a [minha] vontade de mudar o mundo

Acabou na semana passada uma série que vi por acaso. Por acaso e porque o meu editor não parou de dizer para eu a ver enquanto eu, efetivamente, não me sentei à frente da TV para tentar perceber o que tanto encantava gente tão diferente daquela redação.

No Sábado em que decidi ver Borgen acho que me atirei a uns quatro ou cinco episódios seguidos - não seria nada de transcendente se cada um não tivesse mais de uma hora. Uma série dinamarquesa que me consegue prender assim...

Birgitte Nyborg [interpretada por Sidse Babett Knudsen]

 A política, o poder, os media, o norte da Europa, os dramas familiares, pessoais, profissionais de uma forma simples, com diálogos que faziam sentido e com tudo o que é natural acontecer nas vidas reais. Uma série absolutamente brilhante - a melhor que vi nos últimos tempos - sem ser norte-americana e sem ter UM ator conhecido. [Naturalmente, uma vez que são todos dinamarqueses, e digamos que eu não acompanho lá muito a coisa.. :P]


Adiante. Borgen acabou na semana passada. Como obviamente eu não consegui acompanhar diariamente, no Sábado à tarde, enquanto chovia lá fora, nós acendemos o aquecedor, trouxemos a manta e a roupa confortável, e vimos os quatro episódios que nos faltavam.

E foi horrível. Foi horrível porque eu não queria que a série acabasse, em primeiro lugar. E depois foi horrível porque me atirou para uma imensa crise existencial, em que de repente comecei a duvidar de toda a validade do que faço todos os dias.

um amor.

A protagonista - Birgitte, uma mãe de dois filhos, lindíssima sem ser uma Giselle Bündchen, portanto, uma pessoa normal - conseguiu ser tudo aquilo que eu um dia gostava de ser quando for crescida: fiel ao seus princípios, séria, com o coração no lugar, com falhas, com erros, ambiciosa, serena, com problemas reais (cancros, filhos adolescentes com problemas, divórcios, problemas profissionais)  e com objectivos, com sucessos. É certo que é uma série e que aí é tudo maravilhoso (mas ela nem sequer teve um crescimento previsível [aplausos para os produtores!]) mas fez-me realmente pensar: o que é que eu mudo, todos os dias? Que diferença faço, todos os dias?

Quando num dos últimos episódios ela explode porque de repente está cansada de tudo - a caminho do hospital - percebi perfeitamente o que ela queria dizer: às vezes ficamos cansados de fazer tudo o que achamos correcto, tudo o que parece ser o bem, tudo o que sabemos estar certo, corresponder à verdade e aos nossos princípios; tudo o que não faz mal a outros, tudo o que não vai contra as regras e contra as leis. Porque fazemos isso tudo e parece que nunca chega o reconhecimento, o mérito, os frutos a colher. Parece. No fundo, sabemos que um dia tudo isso nos chegará. Sabemos que fazer o que é bem traz coisas boas. Sabemos que não deixarmos de ser fiéis a nós próprios em busca de outras coisas será, no final, o que nos fará ser melhores. E sabemos que não podemos desistir disso. Mas cansa.



Porque há momentos em que a luta contra o mal - sim, ele existe. E nas sábias palavras da T., os nossos dias, a nossa vida são, efetivamente, uma constante luta do bem contra o mal - parece que não dá frutos. Que são sempre os que fazem menos bem a colher louros.

No final de Borgen, quando Birgitte chega novamente ao Christianborg - "a minha segunda casa" -  foi recompensada. Por tudo o que fez de bem. Por tudo o que recusou fazer e ser. E eu descobri que quero mesmo é ser como ela [sim, ainda temos idade para ter exemplos e para nos encantarmos com a fantasia. Ainda temos idade para querer mudar o mundo]. Mesmo que me pareça, às vezes, que o caminho é demasiado tortuoso.




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