quinta-feira, 19 de março de 2015

Counting down -9

Lembro-me, aperta-se-me o coração como se fosse hoje. Lembro-me perfeitamente de parar, mochila às costas, duas malas nas mãos, olhar perdido, um calor de morte. E de pensar: O que raio estou eu a fazer aqui, só com um bilhete de regresso daqui a seis meses? A resposta veio nos meses seguintes. As pessoas que me apareceram ao caminho não podiam ser mais incríveis. Os seis meses rolaram para um ano. Para mais, tivesse a vida querido que assim fosse.
O Brasil entranhou-se-me na pele como se fosse meu. Às vezes sinto-o mais meu que Portugal. É o que é. A ele devo muito do que sou hoje. Foi um ano que valeram por dois ou três. O Brasil trouxe-me pessoas incríveis sem as quais não saberia hoje como viver. Amigos. Mentores. Fontes. Contatos.

Regressei a Lisboa decidida a voltar a São Paulo. Arranjei trabalho e fiquei. De repente, aos 25 anos, escrevia num dos melhores jornais do país sem saber muito bem porquê. O Brasil foi-me ajudando. Tantas histórias foi possível escrever com ele como pano de fundo. E continuar a escrever em sotaque de além-mar, em jornais tão bons. Fiz amigos, colegas incríveis, cresci tanto. Tive o melhor editor, e isso permitiu-me abrir asas e voar.

Reencontrei o João – o Juanito – e apaixonámo-nos. Seriamente. Tão seriamente que percebemos [eu percebi] que não podíamos viver um sem o outro. Não fazia sentido. Não poderia fazer sentido. Vivemos o dia mais maravilhoso da nossa vida com as pessoas que nos são tanto. Poucas, certas. Não foi um casamento de princesa. Não esteve tudo perfeito. "Foi a vossa cara", disse-me a Carolina. Acredito nela. Foi atabalhoado, simples, descontraído, sem grande beleza romântica. Foi o nosso dia e nós adorámo-lo. Fomos absolutamente egoístas nesse ponto: queremos que seja o dia em que nos divertimos absurdamente. E foi.

Fizemos uma das viagens das nossas vidas – vamos voltar, vamos?? :)

Comecei a pensei em sair do jornal, por razões várias. Um dia o meu telefone tocou. "Estarias interessada em...?". Duas propostas numa semana e eu só tinha pensado em sair, não tinha feito mais nada para além de pensar. Os sinais não podem ser ignorados, nunca. Saí. Abracei um novo projeto que, na verdade, nunca senti como meu. Mas nunca esquecerei a honra que foi partilhar o mesmo espaço com algumas daquelas pessoas, nunca poderei esquecer o que aprendi, o que soube, e também as provas por que passei. E nunca poderei esquecer de que fiz parte dele, o que me orgulha e honra profundamente. Fiquei com amigos, lá, também. Tenho a certeza. Mas ao fim de uns meses, fui-me abaixo, novamente. Aquele projeto não era meu, não era eu e eu não sou talhada para algumas coisas.
Uma amiga, no outro dia, enviou-me uma imagem que dizia: "I got out of corporate world. I couldn't keep my mouth shut". És tu, disse ela. That's me, confirmei eu. Muitas lágrimas, muitos remédios, muitas noites sem dormir, muitos dias grogue. A minha amiga Teresa recebeu-me de olhos inchados e coração partido. Enxugou-me as lágrimas e a seguir deu-me uma desanda. Ou várias. Das boas. Daquelas que permitem ter a outra mão livre para continuar a secar as lágrimas.

Veio a Páscoa e eu decidi sair, depois de meses de luta contra o que o João me dizia para fazer. Fizemos as malas e fomos viajar. Fui mostrar-lhe o meu país de coração, onde o meu sorriso se abre e a minha alma expande. "Tinha saudades de te ver sorrir", disse-me ele. Melhorei instantaneamente. "E agora?", perguntavam-me. "Agora? Vou aproveitar o Verão, ler muito, descansar muito e depois logo se vê".

Nos nossos planos seriam, no máximo, seis meses. Foram três. Nunca, nunca poderei esquecer aquele almoço em que ouvi: "gostava muito que trabalhasses connosco". Estava fora há um ano, a fazer zero na área. Nunca vou conseguir agradecer o suficiente a quem de direito a oportunidade que me deu de voltar ao que me faz tão feliz. Mesmo quando estou exausta. Mesmo quando estou furiosa. Mesmo quando tudo parece correr mal. Ter alguém que nos espicaça, que nos provoca, que confia, que pede, que nos faz suar, é meio caminho andado para sermos melhores todos os dias. E para termos que o agradecer. Todos os dias.

Os meus 29 anos têm sido cheios de coisas maravilhosas. Para a qual contribuiu, decisivamente, a minha família – ainda hoje não sei como foram os meus pais capazes de fazer tanto por nós, tendo tão pouco. Acho que é porque sempre tivemos o essencial: as pessoas. Os meus amigos – os que foram chegando, os que foram partindo e mesmo aqueles que ficaram durante pouco tempo.

E a certeza de que se formos bons, se procurarmos o bem, se fizermos o que acreditamos estar correcto, seremos recompensados. Muitas vezes é mais duro. Demasiadas vezes é menos atrativo do que ser igual a tantos outros. Muitas vezes parece não trazer nada de bom. Mas ser bom, fazer o bem, procurar o bem em tudo, é sermos mais plenos. E é conseguirmos ver a beleza de tudo mesmo quando as coisas parecem correr pior que mal. E sermos capazes de reter só a maravilha da vida, e deixarmos o menos bom seguir caminho.

Os meus 29 anos têm sido maravilhosos porque as pessoas certas têm estado comigo. Para o bem e para o mal. Passando a mão na cabeça, sendo cruéis, fazendo comigo este caminho que nunca foi feito só de coisas boas. Mas por isso é tão bonito: porque é feito de um monte de obstáculos ultrapassados. E de vontade de ultrapassar mais. Todos os dias.

Se dissessem àquela menina da vila que antes dos 30 teria a vida que tem hoje, que teria passado por tudo o que passou e que seria tremendamente grata pelo seu caminho, não creio que ela acreditasse. Às vezes ainda hoje não acredita. Mas acredita no amor, no carinho dos que são próximos e na vontade de fazer sempre melhor. De ser sempre mais. E acredita que os 30 poderão ser ainda melhores que os 29 passados. Para além de ter um coração a rebentar de gratidão. A rebentar.

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