quinta-feira, 23 de abril de 2015

Eu acredito. Verdadeiramente.



Há muito tempo – desde que comecei nesta vida – que me apercebo de uma coisa que sempre esperei que passasse: a displicência, o desprezo com que os jornalistas olham para a profissão.
Por norma, está tudo errado: os piores horários, o pior salário, o pior ritmo de vida, os elevados níveis de stress, a falta de estabilidade… Ainda esta semana saiu uma notícia sobre o facto de um jornalista norte-americano, galardoado com um Pulitzer, ter abandonado as redacções porque não tinha dinheiro para pagar a renda da casa. Toda a gente veio gritar: o jornalismo é mesmo assim.

Ontem, num grupo para jornalistas que existe no Facebook, uma recém-licenciada perguntou como poderia arranjar um estágio remunerado.
“Nunca vais conseguir, a menos que seja gratuito”.
“Não sejas jornalista”
“Se falas duas línguas põe-te a andar de Portugal”
“Para que é que tiraste esse curso? Ser jornalista é uma m*rda”

As respostas não foram exactamente estas, mas era precisamente isto que cada uma queria dizer. E eu fiquei a olhar para aquilo, enojada, a pensar: porquê? A sério, porquê? Quando entrei para jornalismo – depois de ter deixado para trás a minha linda ideia de ser actriz – o meu pai também estava preocupado. Contava com uma filha médica ou engenheira. Algo que desse dinheiro, estabilidade e algum estatuto. Mas disse-me: “se te faz feliz, faz-te à vida”.´

E eu fiz. Só que desde que aqui cheguei – sobretudo em Portugal – todos os que estão à minha volta parecem não gostar do que fazem. Contam-se pelos dedos das mãos as pessoas que conheço que realmente gostam disto e que têm os queixumes normais de um trabalhador (a falta de tempo, o salário, o cansaço, os chefes).

Porque é que as pessoas teimam em achar sempre que a nossa classe é a pior? Que toda a gente nos odeia? Que o nosso salário é o pior, que a nossa vida é mais horrível. Que o que fazemos é ridículo? Que não faz sentido? Que não vale a pena ser jornalista. Aliás, porque desencorajamos nós pessoas a seguir este caminho se ele é o nosso? E se o odeiam assim tanto, porque não o deixam e dão lugar a outros que ainda acreditem? Quando é que o jornalismo deixou de ser importante, relevante e a classe se tornou um monte de gente mal disposta, azeda, de mal com a vida e o mundo?

Um conhecido e respeitado pensador da nossa praça, com quem tive a honra e o prazer de trabalhar, disse-me uma vez: “a sua profissão é a mais bonita do mundo. Vá fazer o que a faz feliz”.

Eu, na minha ingenuidade infantil, acredito mesmo nisso. Que podemos mudar o mundo. Acredito quando leio uma notícia da Marta, através da qual conseguiu ajudar uma família a manter a casa que ia perder por causa das Finanças. Acredito quando leio uma notícia da Sílvia que fez com que uma miúda que foi violada recuperasse a dignidade com a ajuda de todos. Acredito quando leio os jornais do mundo inteiro a falar dos emigrantes que naufragam e obrigam a Europa a reuniões de emergência. Acredito quando vejo reportagens sobre urgências hospitalares que obrigam a acções. Acredito, até, quando recebo emails ou cartas de leitores a dizer que leram, que viram, que lhes tocou algum trabalho em particular.

Acredito que mesmo sendo passos muito pequenos, as pessoas que fazem o que fazemos, ajudam 
mesmo a mudar o mundo. Acredito no valor das notícias, na importância que temos na sociedade. Acredito e sinto-me absolutamente responsável por tantas coisas que acontecem e para as quais não nos dignamos a olhar. Acredito quando falhamos e quando acertamos.

E portanto não consigo embarcar na carneirada que diz que “ser jornalista não vale a pena”. Que é uma vida “de tanga”. Que “ninguém devia escolher ser jornalista”. Não consigo embarcar na carneirada que não é feliz a fazer algo que, humildemente, acredito ser verdadeiramente importante.
E tenho pena, mas uma pena que me aperta o coração, de que quem me rodeia não veja isto da mesma forma [talvez] ingénua e [talvez] infantil como eu vejo. Seríamos todos muito mais felizes e sobretudo, muito melhores jornalistas.

1 comentário:

  1. Pois eu acredito que o que falta são mais jornalistas como tu! Que acreditem que vale a pena e que façam o seu trabalho o melhor que sabem.

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