sexta-feira, 31 de julho de 2015

Coisas que me transcendem #1

Chegar ao final do dia, ou ao fim-de-semana, estoirada e portanto mais calada que o normal - eu sei, é raro, mas acontece. Estarmos com amigos ou conhecidos e alguém dizer: "Estás com um ar cansado. Estás muito cansada?"

"Estou exausta. A Grécia não me tem deixado dormir muito", respondo, enquanto tento não pensar sobre todos os assuntos em que estive a trabalhar nesse dia ou nessa semana.

"Pois...então e a Grécia, achas que aquilo se safa?"

Pessoas queridas do meu coração, microalgas deste sistema solar: se eu acabei de responder que estou exausta, que passei o dia / a semana a escrever sobre a crise grega, o que vos faz acreditar que o que me apetece, em pleno período de descanso - que já não é longo - falar precisamente sobre trabalho? A sério!

[Eu percebo que gostem de perguntar. Mas respeitem quando um jornalista às vezes quer só ver os bonecos das revistar cor-de-rosa por não ter capacidade para mais].

Grata.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Procurar não ser infeliz

Depressões. Esgotamentos. Baixas. Demissões. Depressões. Esgotamentos. Baixas. Demissões.
Depressões. Esgotamentos. Baixas. Demissões. Depressões. Esgotamentos. Baixas. Demissões.

Sou só eu que tenho conhecimento de imensas pessoas que estão com esgotamentos, com depressões, que se demitem sem terem outro trabalho, que metem baixa porque não estão a aguentar mais o emprego que têm?

Sem me esforçar muito lembro-me da R., que se demitiu porque andava há meses a trabalhar com gente que a desrespeitava, a odiar o trabalho, a sentir que o que estava a fazer deixara de fazer sentido, porque não a preenchia. E que quando entregou a carta de demissão, ainda se fizeram ofendidos porque a consideraram uma mal agradecida. Depois, a M., que trabalhava há vários anos numa empresa [alegadamente] incrível, mas em cujos valores não se revia, que acumulou episódios dignos de uma investigação criminal e que decidiu que a sua sanidade mental valia mais do que aquilo.

A F., que já está de baixa porque a três meses do fim da gravidez continuavam a mandá-la trabalhar em modo maratona, a fazer viagens absolutamente inacreditáveis para o estado em que se encontrava e cujo bebé deixou de crescer à conta do stress. A F., que esteve de baixa um mês – e que agora vai estar outro – porque não conseguia continuar a ir para um lugar onde tinha ataques de pânico, onde o respeito pelas pessoas era absolutamente esquecido e cujo acompanhamento dos responsáveis é preocupação que não consta das folhas de serviço.

No início do ano a M. demitiu-se, também porque já não conseguia trabalhar com pessoas que exigiam imenso e davam muito pouco. Sem ter um plano B, sofreu um bocadinho mas agora é uma pessoa muito mais feliz com um trabalho onde é valorizada, onde o respeito é uma constante e onde não sente que vá explodir a cada dia que passa.

É rara a pessoa com quem falo que me diga que se sente verdadeiramente feliz com o trabalho. E não é uma questão de ter problemas, que isso há em todos os lugares, em todos os empregos. É estrutural. A pessoa não está feliz em nenhum momento do dia, está sempre de trombas, sente-se triste, não acorda com vontade de trabalhar, sente que “é só um trabalho”.

Como diz o Hugo no vídeo que partilhei aí em baixo –e que pôs a pensar nisto – os melhores profissionais são aqueles que acordam todos os dias para trabalhar com a mesma sensação de paixão que têm pela pessoa de quem gostam: entusiasmados, felizes, com força e vontade de ir mesmo que o cansaço acumule. Que movem montanhas para ser melhores profissionais, que relativizam os problemas mesmo quando há muitos – que há. 
Sempre.

Se actualmente temos tanta gente de baixa, com depressões, com esgotamentos, com doenças várias que têm como única causa o stress, o medo de ir trabalhar, o desalento com o que fazem durante mais de 8 horas por dia, não está aqui algo muito errado? I mean, muito muito errado? Que raio de sociedade, de mundo é este que faz com que andemos todos atrás de algo que não sabemos exactamente o que é mas que nos deixa infelizes?

E por que falha a coragem para fazer diferente, para arriscar, para fazer valer aquilo que achamos que é o correcto? Porque perdemos dinheiro? Porque agora é mais importante ter o último iPhone do que ter a cabeça descansada, a consciência tranquila? Por que raio nos rebaixamos ao que os outros, ao que o mundo diz que é o que deve ser, em vez de procurarmos, simplesmente, não ser infelizes? Nem estou a falar de sermos felizes – sei lá eu o que é a felicidade – mas de não sermos infelizes. De não nos andarmos a encher de anti-depressivos, de calmantes, de ideias feitas que, afinal, não parecem ser assim tão boas se nos deixam tão miseráveis enquanto ser humano.


De que andamos nós à procura? Que mundo, que pessoas somos nós, infelizes, abatidas, deprimidas, desmotivadas com a vida? De que futuro infeliz andamos à procura? Alguém me diga, por favor. Porque a mim não me parece normal. Parece-me, aliás, totalmente insano e desprovido da inteligência que todos apregoamos ter.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Humans will prevail :)

Em Maio passado o Hugo veio ao Porto. O querido Hugo, de quem tenho a honra de ser amiga, é uma verdadeira inspiração para mim, e para um monte de gente por esse mundo fora. Só na semana passada tive oportunidade de ouvir a palestra que ele deu no TEDx Porto, naquele sotaque paulistanó-portuense que só ele tem e que já ninguém lhe tira.

Em bom português - sim, com direito a palavrões e tudo - o Hugo explica a diferença entre ser apaixonado pelo que se faz e trabalhar porque sim. E mostra como isso se reflecte no resultado final. São 15 minutos que valem a pena. Eu, se fosse a vós, punha os fones e desligava o telefone por um bocadinho.

 

terça-feira, 21 de julho de 2015

Do que mais me custa

O que me custa mais, quando chega o Verão, não é esperar até às férias. Não é, sequer, os finais de semana em que fico a trabalhar ao invés de ir para a praia como 90% das pessoas deste país, e terminar os Domingos a ver o por-do-sol - perdão, sunset - numa esplanada com vista para o mar e direito a centenas de fotos.

O que me custa mais, quando chega o Verão e o trabalho não abranda - a silly season já era, mesmo que haja quem ache o contrário - é sair tarde. Tarde já de noite, e olhem que a noite chega tarde no Verão. O que me custa é sair tarde já de noite e falhar todos os copos de final de dia com os amigos, numa qualquer esplanada lisboeta, a ver a luz que só esta cidade nos dá.

O que me custa é não ter tempo para chegar a casa e ter vontade (sim, isso mesmo: não tenho tempo para ter vontade) de beber um copo de vinho branco enquanto faço o jantar, ou de partilharmos um gin e as história do dia com o calorzinho do final de dia. Mesmo que fiquemos sem jantar.

O que me custa é falhar consecutivamente jantares e almoços, quando toda a gente faz questão de mostrar - ainda por cima - incríveis refeições e cocktails em todas as redes sociais. Custa-me a falta que me faz estar com as pessoas. Custa-me não ter tempo para pensar, para parar, para estar, para ser mais do que tenho sido.

Por outro lado, há coisas maravilhosas que vão acontecendo durante esses minutos que correm, voam enquanto eu mal respiro. E essas coisas boas fazem esquecer as que me custam mais. E agarro-me a elas como se fossem tudo o que interessa para ver se, no final do dia, "mi sonrisa es mas fuerte que mi dolor".

Ps. Foi isso que fiz, por exemplo, durante os minutos em que vim aqui escrever isto, enquanto esperava que me editassem. Minutos que roubei a horas loucas de trabalho e de coisas. E que bons foram eles.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Peregrino(s)

"Passo a passo, no caminho
passo a passo, no caminho
Fundem-se no espaço, o cansaço e o peregrino"

[repetido, baixinho, com a melodia de há tantos anos. Uma ajuda preciosa nos dias que parecem nunca ter fim e que se vão repetindo até ao infinito]

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Traição

É hora de assumir: nas últimas semanas ando a trair toda a gente com as mesmas duas - ou dez - pessoas. Alexis Tsipras, aquele pedaço de mau caminho, e Yanis Varoufakis, o galã da Burberrys (not) têm-me tirado horas de sono, horas de casa, horas de amigos.

Passei vários dias seguidos sem jantar com o João porque tive que jantar com eles - na verdade, passei a hora do jantar com eles, mas não me lembro de haver uma refeição. Houve reuniões. Declarações. Decisões. Referendos. Dramas. Picardias. Mais reuniões. Mais textos. Mais dramas.

Hoje calhou-me a mim acordar de madrugada para ver se os mercados acordavam a dizer OXI à Grécia. Eu preciso de pelo menos 10 minutos para acordar. E mesmo assim, sendo madrugada, sabemos que pode demorar mais. Assim que acordei vi que o Varoufakis se tinha demitido. Nem tive tempo para me espreguiçar. Passaram duas horas. Estou finalmente a beber um leite com café, e a escrever este texto. Enquanto os líderes reúnem em Atenas, a Merkel arranca cabelos em Berlim e o Eurogrupo ainda não acordou.

Temo continuar a trair as pessoas durante os próximos dias. Passei a ser menos judgmental. Afinal, toda a gente trai. Raios.
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