terça-feira, 28 de julho de 2015

Procurar não ser infeliz

Depressões. Esgotamentos. Baixas. Demissões. Depressões. Esgotamentos. Baixas. Demissões.
Depressões. Esgotamentos. Baixas. Demissões. Depressões. Esgotamentos. Baixas. Demissões.

Sou só eu que tenho conhecimento de imensas pessoas que estão com esgotamentos, com depressões, que se demitem sem terem outro trabalho, que metem baixa porque não estão a aguentar mais o emprego que têm?

Sem me esforçar muito lembro-me da R., que se demitiu porque andava há meses a trabalhar com gente que a desrespeitava, a odiar o trabalho, a sentir que o que estava a fazer deixara de fazer sentido, porque não a preenchia. E que quando entregou a carta de demissão, ainda se fizeram ofendidos porque a consideraram uma mal agradecida. Depois, a M., que trabalhava há vários anos numa empresa [alegadamente] incrível, mas em cujos valores não se revia, que acumulou episódios dignos de uma investigação criminal e que decidiu que a sua sanidade mental valia mais do que aquilo.

A F., que já está de baixa porque a três meses do fim da gravidez continuavam a mandá-la trabalhar em modo maratona, a fazer viagens absolutamente inacreditáveis para o estado em que se encontrava e cujo bebé deixou de crescer à conta do stress. A F., que esteve de baixa um mês – e que agora vai estar outro – porque não conseguia continuar a ir para um lugar onde tinha ataques de pânico, onde o respeito pelas pessoas era absolutamente esquecido e cujo acompanhamento dos responsáveis é preocupação que não consta das folhas de serviço.

No início do ano a M. demitiu-se, também porque já não conseguia trabalhar com pessoas que exigiam imenso e davam muito pouco. Sem ter um plano B, sofreu um bocadinho mas agora é uma pessoa muito mais feliz com um trabalho onde é valorizada, onde o respeito é uma constante e onde não sente que vá explodir a cada dia que passa.

É rara a pessoa com quem falo que me diga que se sente verdadeiramente feliz com o trabalho. E não é uma questão de ter problemas, que isso há em todos os lugares, em todos os empregos. É estrutural. A pessoa não está feliz em nenhum momento do dia, está sempre de trombas, sente-se triste, não acorda com vontade de trabalhar, sente que “é só um trabalho”.

Como diz o Hugo no vídeo que partilhei aí em baixo –e que pôs a pensar nisto – os melhores profissionais são aqueles que acordam todos os dias para trabalhar com a mesma sensação de paixão que têm pela pessoa de quem gostam: entusiasmados, felizes, com força e vontade de ir mesmo que o cansaço acumule. Que movem montanhas para ser melhores profissionais, que relativizam os problemas mesmo quando há muitos – que há. 
Sempre.

Se actualmente temos tanta gente de baixa, com depressões, com esgotamentos, com doenças várias que têm como única causa o stress, o medo de ir trabalhar, o desalento com o que fazem durante mais de 8 horas por dia, não está aqui algo muito errado? I mean, muito muito errado? Que raio de sociedade, de mundo é este que faz com que andemos todos atrás de algo que não sabemos exactamente o que é mas que nos deixa infelizes?

E por que falha a coragem para fazer diferente, para arriscar, para fazer valer aquilo que achamos que é o correcto? Porque perdemos dinheiro? Porque agora é mais importante ter o último iPhone do que ter a cabeça descansada, a consciência tranquila? Por que raio nos rebaixamos ao que os outros, ao que o mundo diz que é o que deve ser, em vez de procurarmos, simplesmente, não ser infelizes? Nem estou a falar de sermos felizes – sei lá eu o que é a felicidade – mas de não sermos infelizes. De não nos andarmos a encher de anti-depressivos, de calmantes, de ideias feitas que, afinal, não parecem ser assim tão boas se nos deixam tão miseráveis enquanto ser humano.


De que andamos nós à procura? Que mundo, que pessoas somos nós, infelizes, abatidas, deprimidas, desmotivadas com a vida? De que futuro infeliz andamos à procura? Alguém me diga, por favor. Porque a mim não me parece normal. Parece-me, aliás, totalmente insano e desprovido da inteligência que todos apregoamos ter.

2 comentários:

  1. Meu ponto de vista: sinto o contrário. Quando digo que gosto do meu trabalho, em geral as pessoas sentem que estou a mentir / ou a viver um conto de fadas e não ser objectiva / que durmo com o chefe (ha ha ha!) / colocam-me de lado pois sentem que não se revêm em mim. Acho que é mais frequente criticarmos o nosso trabalho, até porque fica bem. Se gostas muito, colocam-te a etiqueta de workaholic.
    (Mas agora que escrevo isto, tenho a certeza que é a mesma coisa com casamentos e relações, filhos, afiliações desportivas...).

    Vá bisou!!!! ***

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    1. Mas repara, eu também critico o meu trabalho, às vezes. É inevitável, não é? Há sempre coisas a melhorar. Mas eu também critico os meus amigos. Aquilo que me incomoda é as pessoas não gostarem do que fazem. Mesmo. Não gostarem sequer das partes boas..

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