domingo, 16 de agosto de 2015

De mim para mim

O David tem imensos conselhos sábios para o seu futuro ele. Eu tenho um, apenas, para o meu futuro eu e espero que não me saia da memória: futuro eu, tens mesmo que arranjar mais tempo para ti. Ou para mim, no caso. Afinal, parece que és tão importante quanto qualquer uma das pessoas que te rodeia. Lembra-te disto. Obrigada.



 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A vida que o não é

Alguém escrevia, no outro dia, numa das redes sociais, que o maior privilégio, actualmente, é viver coisas sem as mostrar. No recato das memórias que não passam pelas redes sociais. É um facto que me tem sido mais querido com o passar do tempo - e sim, até publico várias coisas nas redes sociais - e que comprovadamente faz mal às pessoas.

A felicidade mostrada nas fotografias, em textos incríveis, em devaneios vários, são tantas vezes mais espelho do que queríamos ter ou ser do que o que realmente somos. Cada vez mais dou por mim a olhar uma paisagem e não querer fotografá-la. A estar com amigos e a nem me lembrar de que o telefone com câmara existe. A estar. Só isso. E essas memórias, que não são partilhadas, transformam-se em coisas tão boas, tão maiores do que os efémeros frames que gostamos de partilhar com o mundo para mostrar a nossa vida absolutamente incrível. que limpamos de qualquer resquício de tristeza ou dificuldade.

No outro dia, no concerto de Caetano e Gilberto Gil, um dos mais bonitos a que assisti, ao olhar para a plateia, só se viam telefones. Telefones a gravar, a tirar fotografias, a fazer vídeos. Eu também fiz um vídeo, é certo. 30 segundos de imagens que gravei no telefone para enviar para a minha amiga-irmã quando os meus olhos se marejaram de lágrimas ao ouvi-los cantar uma música que nos diz tanto, a ambas. À nossa volta, várias pessoas não estiveram naquele concerto. Estavam lá, em  corpo, mas estavam nas redes sociais: a publicar fotos, a publicar vídeos, a tentar encontrar os amigos que também estavam no concerto.

E eu, enquanto olhava para elas, pensava no tempo que desperdiçamos sempre que não estamos num lugar. Estar, verdadeiramente. De tudo o que empenhamos em prol de mais uma fotografia que mostra como é incrível a nossa vida, o que podemos ter e o que podemos fazer.

Quem é que tira fotografias quando os canos dão problemas em casa? Ou quando estamos a tirar ervas daninhas do jardim? Ou quando o forno se avaria, a máquina não funciona e o frigorífico está vazio? Quando, sem glamour nenhum, limpamos a casa ou furamos paredes para a embelezar? Quando chegamos a casa num caco, nos enrolamos no sofá e queremos só que as lágrimas finalmente saltem para nos fazerem sentir melhor? Quem é que publica as tristezas e as dificuldades de uma vida que só é boa porque também tem coisas menos boas? Ninguém.

E isso torna-nos tontos. Torna-nos ignorantes, egoístas, sonhadores de uma realidade que nunca vai existir porque não é possível. E ao mesmo tempo torna-nos insatisfeitos, porque a nossa vida tem problemas de que ninguém sabe, porque a vida perfeita não tem problemas e logo não os podemos partilhar. E no limite, torna-nos infelizes, porque nunca conseguiremos atingir algo que é, por definição, inatingível...

A UniCamp, uma universidade brasileira, publicou recentemente uma infografia incrível sobre os problemas da geração em que me incluo - não me revejo em várias coisas, mas isso é mérito dos meus pais e de uma educação que, agora vejo, foi a melhor arma que me deram. Deixo-o aí em baixo para analisarem e para pensarem sobre o assunto. Se vos apetecer. A mim cada vez me apetece mais: pensar, ao invés de fazer. Ver, ao invés de registar. Estar, ao invés de mostrar.

https://demografiaunicamp.wordpress.com/2013/10/30/porque-os-jovens-profissionais-da-geracao-y-estao-infelizes/

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