terça-feira, 8 de março de 2016

O bairro do amor

No meu bairro, o pão "da Malveira - parecido com o de Mafra mas ainda mais fechadinho", é vendido a menos de um euro, e entregue embrulhado em papel pardo. Compra-se numa padaria com balcão de mármore e prateleiras de madeira, como as da minha infância.

No meu bairro, o senhor da mercearia trata-me por tu, às vezes por você, e pergunta se a criança continua com desejo de comer tomate, que muda de preço todos os dias.

No meu bairro, os legumes estão à vista na rua, p
ara lhes podermos mexer, cheirar e se quisermos, colocar no saco à vista de toda a gente. As cebolas vêm quase sempre de Espanha mas as batatas são nacionais, tal como os alhos, as cenouras e as laranjas, que são do Algarve.

Na nossa casa, no meu bairro, ninguém sai sem tomar o pequeno-almoço :)

No meu bairro posso comprar colheres de pau sem que alguém diga que "isso já não se usa", cafeteiras italianas, alguidares, taças de sobremesa, cortadores de legumes, tábuas de engomar e formas de bolos tudo na mesma loja. E gastar menos do que no estacionamento de um centro comercial, quase.

No meu bairro as pessoas refilam muito umas com as outras, abundam os velhotes e é fácil encontrar gatos na rua que na verdade são tratados por alguém que mora num dos prédios da rua. "Atenção, os gatos têm estado a fazer tratamento no veterinário", lê-se às vezes em papéis colados nas portas dos prédios. "Não lhes tirem a casinha que fiz".

O meu bairro não é da moda, não aparece nas revistas como sendo dos mais 'trendy' de Lisboa, não é no centro da cidade, não desperta a curiosidade de ninguém. Mas o meu bairro é o melhor, porque é o meu. Porque as pessoas se preocupam, cuidam, guardam as nossas chaves de casa - e quase não no-las devolvem por não terem a certeza de que nós somos nós - e não raras vezes decoram-nos o nome e os gostos.  Porque ao longo dos anos as famílias não saem daqui, sendo fácil encontrar avós, país, filhos e netos a viver apenas a algumas ruas de distância, o que faz do meu bairro um bairro familiar, pouco volátil às constantes alterações da capital.

Não é o bairro mais bonito. Também não é o mais chique. Mas é dos mais genuínos. E para alguém que vem do campo, como eu, poder falar com a senhora da praça sobre as couves do Caldo Verde é algo particularmente relevante, ao Sábado de manhã! :)


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