sexta-feira, 27 de maio de 2016

Que nojo!

Ontem, através das redes sociais, consegui ver uma notícia absolutamente escandalosa - mas nem assim com direito a muita exposição por parte dos media tradicionais: uma miúda de 16 anos foi violada por 30 (vou repetir: TRINTA) tipos num bairro do Ro de Janeiro, no Brasil. A cidade que se prepara para receber os Jogos Olímpicos daqui a uns dias, precisamente. 

Os mesmos homens que se acharam no direito de violentar esta miúda foram os mesmos que publicaram fotografias do seu corpo inerte e ferido, depois da violação em grupo, nas redes sociais. Trinta homens. Uma miúda. E poucos suspeitos identificados pelas autoridades, como sempre.

E é claro que os comentários absolutamente descabidos não se fizeram esperar: que ela era toxicodependente (so what?); que já tem um filho, portanto…(oi?); que a saia era demasiado curta, logo, estava a pedi-las (perdão?) e mais um conjunto de barbaridades que me escuso a mencionar aqui,

Trinta homens. Uma miúda. A primeira palavra que me ocorre é nojo. A segunda é vergonha. Creio que o nojo não carece de explicações. A vergonha também não devia carecer, mas se calhar teremos que falar sobre ela, já que esta notícia parece não ter relevância no panorama atual:

  1. Nenhuma mulher - repito, NENHUMA -, aliás, nenhuma pessoa merece, a não ser em caso de legítima defesa, ser vítima de violência. Não me parece que uma miúda de 16 anos fosse perigosa para um grupo de TRINTA homens;

2. Nenhuma sociedade dita evoluída pode, sequer, achar que uma mulher que é violada não seja sempre uma vítima. Qualquer acto sexual praticado contra a minha vontade é crime. CRIME.

3. A educação que damos aos nossos filhos em casa é, sim, o primeiro passo para uma sociedade melhor: o machismo, o rebaixamento da condição feminina, o chamar nomes a uma miúda que vista mini-saia, são coisas que não contribuem para uma sociedade justa e respeitadora. Somos todos tão acérrimos quando se trata de defender que muçulmanas não usam o Niqab e depois somos tão idiotamente cegos em relação ao que se passa em nossa casa;

4. Um país que, no novo governo, não tem UMA única mulher no governo - estamos a falar do Brasil, onde não posso acreditar que entre 200 milhões de habitantes não haja 10 mulheres qualificadas para pastas ministeriais  - é um escândalo. A sério. É que para começar, as mulheres são a maioria do eleitorado brasileiro. Depois, até no final da ditadura houve mulheres no governo. E mais: o governo ultra-direitista de Michel Temer (que tem uma mulher “bela, recatada e do lar” como devem ser todas as mulheres, segundo o presidente interino), acabou também com a Secretaria das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos. Isto num país que tem graves problemas relacionados com machismo, minorias étnicas e direitos humanos…saibamos ler nas entrelinhas;

5. Todos nós adoramos o Brasil. Eu também. Se pudesse, teria cidadania brasileira e viveria lá durante uns anos. Mas o facto de o Brasil quase parecer um país de primeiro mundo não nos pode fazer assobiar para o lado. Vamos a números relativos àquele país?

A cada 2 minutos, cinco mulheres são espancadas;

40% dos homicídios de mulheres são cometidos por parceiros íntimos;

A cada 11 minutos uma mulher é violada;

Chega para nos abrir os olhos e para exigirmos, do alto da nossa sobranceria, que seja feito algo? Ou a nossa indignação só chega para pedir a libertação de presos políticos em países para os quais não vamos passar férias? Ou a nossa indignação só chega para pedir a destituição da presidente Dilma sem sequer sabermos bem o que se passa na política brasileira?

Eu não acho que as mulheres tenham que ter tratamento diferenciado por serem mulheres - não concordo com a existência de quotas, de regras diferentes, nem com metade das coisas pelas quais lutam os movimentos feministas radicais. Mas lutarei sempre por uma sociedade onde as mulheres não valem menos; onde os homens (e mesmo as outras mulheres) não decidem se o tamanho da minha saia me faz “merecer ser violada”; por uma sociedade onde eu não tenho que obedecer a regras diferentes porque nasci com orgãos sexuais femininos em vez de orgãos sexuais masculinos; por uma sociedade onde as mulheres não são julgadas porque não gostam de fazer tarefas domésticas; por uma sociedade onde os homens não “ajudam” nas tarefas familiares, mas fazem a sua parte nelas.

E para lá chegarmos, não basta batermo-nos a favor do aborto, das barrigas de aluguer, da permissão para mudar de género, pessoas queridas. Para lá chegarmos, temos todos que ser mais exigentes connosco e com os nossos: repudiem as piadas machistas nojentas; não permitam que os vossos amigos façam comentários depreciativos; não permitam que os vossos filhos se achem superiores às vossas filhas; não lhes digam que eles não têm que fazer a cama ou limpar a loiça porque “são homens”; não chamem galdérias às miúdas que usam saias mais curtas do que gostam ou que se maquilham mais do que acham sensato; não excluam mulheres de cargos que sabem que elas cumpririam bem somente porque são mulheres.

Tudo isto começa em casa. Nas nossas casas. E repudiem, indignem-se, mostrem-se verdadeiramente enojados quando há casos destes a acontecer no mundo: trinta homens violaram uma mulher. Repitam isto para vós - repitamos isto para nós - até que entendamos que uma mudança social tem que ser forçada por nós. Trinta homens violaram uma mulher na cidade maravilhosa. Num país que vai receber os Jogos Olímpicos. Num país que todos adoramos. Trinta homens violaram uma mulher. E muita gente acha que ela mereceu. A sério. Repitam isto até à exaustão.


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