terça-feira, 27 de setembro de 2016

Solitária

O tempo de licença de maternidade é profundamente solitário. Lamento, mas é. Um bebé é uma coisa maravilhosa, é um amor que não se sabe explicar, é um turbilhão de emoções - muitas boas e algumas más. Sim, más.  Mas este tempo, em que somos só nós e o bebé, é maravilhoso mas também é profundamente solitário. Por várias razões e nem todas solucionáveis.

1. Primeiro começa o turbilhão de emoções ao qual se junta o cansaço. É durante as primeiras semanas em que (a opção foi nossa) o melhor é mesmo não ter ninguém em casa a visitar-nos. É muita coisa a assimilar, muita coisa para aprender, muito desconforto para gerir: as dores, a subida do leite, a rotina da comida numa cadência parecida à de um relógio suíço, o novo registo de uma vida a três. Aqui em casa a miúda até nos facilitou a vida, mas não imagino o que passam pessoas que não tiveram a nossa sorte e que ficam privadas de sono até à exaustão;

2. É a constante sensação de impotência e de desconhecimento. E mesmo os conselhos - excepto, eventualmente, os que nos chegam das mães - caem mal. (Por isso é que também optámos por não ter visitas no início). Não é controlável. São muitas hormonas e muito nervosismo que não se compadecem quando as pessoas acham que sabem tudo e nos fazem sentir ainda mais que não sabemos coisa alguma: não abanes o carrinho que a habituas mal; ela deve ter fome; isso são cólicas; está com as mãos frias; está com as mãos quentes; põe mais um casaco; tira o casaco; deves ter pouco leite ou ser fraco; esse sling é super quente; o ovo é desconfortável, não a habitues à chupeta...bom, enfim. Aprendemos a ouvir e a calar, o que é também, em si, uma tarefa bastante solitária;

3. De repente, a vida muda. Muda mesmo, apesar de nem parecer que muda assim tanto: ficamos muito mais tempo em casa, e no caso de termos sorte, despachamos uma quantidade de séries e livros durante as sestas da criança. Saímos para tomar café, ler o jornal e ver pessoas mas não há jantares com amigos (no limite há almoços e com pouca gente por causa do barulho). Vamos a festas de casamento ou batizado mas saímos da sala assim que damos três garfadas por causa do barulho. Passamos o tempo a passear a criança ou a dar-lhe comida, ou a ver se dorme num lugar sossegado, silencioso e portanto... Com quem? Com o bebé, somente;

4. Adoramos comentar o telejornal, as revistas, as séries e os livros com a criança que nos faz companhia. O problema? É que basicamente ela não responde. Ou, com sorte, diz um "aguuu" ou "abbrrbrrrbrb". E nós ficamos contentes com isso. Ou quando ela sorri. Fingimos que foi mesmo pelo que dissemos e ignoramos que estamos a falar com um bebé. Só para nos sentirmos menos sozinhas;

5. Almoçar - e se temos que nos alimentar bem, mãe do céu, que a amamentação faz uma fome disparatada - também é extremamente interessante. Sobretudo quando temos que pensar no almoço. E até nos entusiasmamos a cozinhar, quando o bebé já tem dois ou três meses (sempre é algo que puxa pelo nosso intelecto) mas depois sentamo-nos à mesa sozinhas. E afinal aquele prato sabe melhor é acompanhadas...

6. À nossa volta, a vida continua: as amigas continuam a ir jantar fora e sair; combinam-se brunches, pequenos-almoços, jantares de grupo. E nós saltamos os jantares porque os bebés se deitam às 20h e há, claro, a birra das 19h; almoços só se for na esplanada; brunches não dá muito jeito que é mesmo ali entre a sesta da manhã e a maminha da hora de almoço; sair à noite...bom. Sentimos que estamos a perder todos os acontecimentos, mesmo que não estejamos, e que no regresso (qual regresso?) já não conseguiremos acompanhar a carruagem;

7. No final do dia, quando o pai do bebé chega a casa, atiramo-nos a ele de tal forma qual bóia de salvação que não sei como é que há tanto casamento a aguentar os primeiros meses de um filho: aguentam o nosso mau humor daquele dia porque dormimos menos do que era suposto; a alegria de ter um adulto com quem conversar; a neura de ter estado sozinha o dia todo e ainda por cima com o bebé a fazer birras absolutamente épicas; a sofreguidão por assuntos do mundo exterior; a impaciência ao ouvir mais um choro...e para além da nossa bipolaridade ainda leva com a criança em cima porque "agora é a tua vez" :D Só que a meio da noite, quando estamos sozinhas a dar de mamar à criança e toda a casa dorme, no silêncio que só deixa ouvir aqueles golos pequeninos, voltamos a sentir quão solitária é esta tarefa;

8. Nós desaparecemos. Não literalmente, mas às vezes sentimos que sim: ninguém pergunta como está a mãe. Ninguém. A única coisa que passa a interessar é o bebé. As pessoas vão mandar mensagens a perguntar pelo bebé; ligar para saber do bebé; mandar mails a pedir fotos do bebé. "Onde está o bebé? Como está o bebé? Comeu bem? Dormiu bem? Fez cocó?(really?)" Tirando raras e honrosas excepções, ninguém quer saber como vocês estão...se estão a falar e a responder, devem estar bem;

Ninguém tem culpa de isto ser assim. É o que é, e é assim há muito tempo e sinceramente não sei se vai mudar. Por outro lado, o 'baby blues' existe mesmo - não é preciso ser uma depressão pós-parto - e isso também não ajuda ao humor de uma recém-mãe, que às vezes precisa mesmo de chorar (chorem, a sério. Só faz é bem!) e as pessoas têm dificuldade em perceber isso. Portanto, mais vale não estar ao pé das pessoas. Mas depois sentimo-nos sozinhas e...enfim, é um ciclo vicioso ;)

Isto tudo para dizer que sim!, a maternidade é uma coisa maravilhosa e estar em casa é incrível para além de absolutamente necessário (ninguém aguenta não dormir noites seguidas durante meses e ter o cérebro  a trabalhar decentemente). Mas é realmente uma tarefa profundamente solitária e difícil para uma mulher.

Por isso, confesso que tenho o coração absolutamente dividido, e perigosamente a pender mais para um lado do que para outro: é que apesar de ser incrível poder olhar para miúda a todas as horas do dia!, preciso absolutamente de voltar a trabalhar. De estar com adultos. De não estar sozinha.

Ups. I said it.

6 comentários:

  1. Olá,
    Sugestões: combinar almoços/cafés com mães que tenhas conhecido na maternidade/curso pós-parto. Soube-me muito bem e era alguém que estava a passar pelo mesmo.
    Ir passear para o jardim e levar um livro ou música para caminhar. Vantagens: o bebé (alguns) adormece bem a passear, apanha ar puro e nós também. E apesar de estar a ler sozinha, estou num banco de jardim, enquanto vou vendo outras pessoas. Aproveita enquanto não chove, aí é mais depressivo.
    Boa sorte e muitas felicidades,
    um beijinho,
    Filipa

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    1. Olá Filipa!,
      Obrigada pelas sugestões;) Eu não me posso queixar (passei a maior parte da minha licença com a família, na praia, e estive quase sempre acompanhada. Mas senti tudo isto quando regressei a casa e comecei a pensar em como deve ser difícil aguentar os meses todos nesta solidão :)

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    2. Eu entendo-te. São muitos mixed feelings. E depois voltas a trabalhar e sentes saudades desse tempo :)

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    3. Por agora, ainda está a correr bem (tirando o sono. Muito sono que se sente neste regresso ao trabalho! :D) Obrigada!

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  2. Sugestões não tenho, não sou mãe mas mando força e energia boa para vocês :D

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