sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Tudo mal.

Ontem, enquanto descia a rua de São Bento, vi uma senhora dos seus 50 anos, passo apressado e carregada de sacos que tinham roupas, provavelmente comida e demais objetos que não consegui identificar - nem é relevante para o caso. A senhora caminhava, com ar cansado de 19h e não das 15h que marcava o relógio, olhos postos no caminho que fazia - sinuoso como só as ruas de Lisboa às vezes sabem ser.

A senhora, que não me viu enquanto eu passava de carro, confortavelmente sentada e sem cansaço de maior, fez-me pensar que está tudo errado na forma como vivemos. Só pode estar tudo errado, continuava a minha cabeça a dizer-me. Vamos por pontos, para ver se fica claro aquilo que me tem passado pela cabeça:

1. Já olharam para a vossa vida? Verdadeiramente? Quantos de nós podemos dar-nos 'ao luxo' de não ter mês a sobrar no final do salário, depois de pagas as contas? Quantos de nós achamos, aliás, que é um luxo almoçar ou jantar fora, comprar uma peça de roupa, comer um bife do lombo ao jantar? Isto é vida? Passar o dia a trabalhar para pagar contas e, no final do mês, não conseguir sequer podermos dar-nos um mimo?

2. Para onde queremos realmente ir? O que nos interessa? Trabalhar estupidamente, eventualmente em algo de que nem gostamos particularmente, para podermos ter dinheiro sem nos aborrecermos, fazermos viagens, aproveitarmos as coisas boas de vida? Ou simplesmente trabalhar porque não temos alternativa, e ainda assim, no final do mês não ter dinheiro para aquilo de que gostávamos, não podermos escolher o destino de férias que queremos porque o orçamento não chega...Pior: para termos dinheiro temos que nos matar a trabalhar ou fazer algo de que não gostamos? Por que é que os trabalhos não são, simplesmente, justamente pagos? Acham que não têm a culpa? Têm. Temos todos: quando exigimos menos, quando nos impomos menos e quando nos resignamos;

3. Qantas vezes vêem as pessoas de que gostam? Nós temos amigos a viver na mesma rua, no mesmo bairro, na mesma cidade. Não os vemos, sequer, uma vez por semana; raramente uma vez por mês. Os dias são passados a correr entre trabalho, supermercado, coisas para tratar, e no final das contas, não há dinheiro nem tempo nem paciência para estarmos com quem gostamos. Para estar, somente. Há dois anos lembro-me de combinar com umas amigas que tínhamos que jantar uma vez por mês (parece razoável, verdade?). Jantámos juntas 3 ou 4 vezes no ano. Pois.

4. Os fins-de-semana são realmente fins-de-semana? Ou seja: os dois dias servem para fazer somente o o que vos apetece; para descansar; para aproveitar a vida? Ou são extensões do trabalho, das tarefas domésticas? Sempre que tentamos marcar finais de semana com alguém, apercebemo-nos de que não é possível: as pessoas ou estão a trabalhar, ou têm compromissos domésticos, ou têm que adiantar algo...

5. Ter que, ter que, ter...Arrisco-me a dizer que estamos todos tão focados no que temos que fazer que nos esquecemos do que gostamos de fazer. Às vezes não temos que fazer nada. Era importante de vez em quando pensarmos pela nossa própria cabecinha e perceber que a vida é mais do que ter que fazer coisas e do que ter que ter coisas. Era importante perceber que mais importante do que ter é ser. E estar. Se todos nos esforçássemos mais para ser e estar, desconfio de que havia muito menos gente infeliz.

Resumidamente, a senhora que calcorreava em passo apressado as ruas de Lisboa fez-me pensar demasiado. E fez-me perceber que a vida é muito mais do que aquilo que tenho feito dela, ainda que me esforce para que seja eu a tomar conta dela e não o contrário. Fazia-me falta encontrar mais vezes senhoras como aquela: para me lembrar de que somos nós quem ditamos as regras do caminho a seguir, e não o contrário.


1 comentário:

  1. Olá, Tens toda a razão e eu penso tantas vezes nisso! Um dia destes disse ao meu marido que viemos trabalhar para o estrangeiro para ganharmos dinheiro para não estarmos com a família. Exatamente assim: trabalhar fora do país = ganhar dinheiro = demasiado tempo a menos com a família e deu-me um aperto no coração e vieram-me as lágrimas aos olhos...
    Beijos e obrigada a ti por me fazeres pensar (ainda mais) nestas injustiças da vida!

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