quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Problemas sinápticos

Não sei o que acontece ao cérebro de algumas pessoas depois da maternidade - quer dizer, sei o que acontece em termos de memória e em termos de aflição constante, mas não é disso que estou a falar. Há coisas que claramente me estão a passar ao lado neste 'mundo das mães' que me deixam a pensar se sou eu que sou louca.

Por exemplo, chamarem mães às mães. No Facebook, na rua, nas escolas, no médico. "A mãe quer entrar? A mãe não veio à reunião. É a mãe que está a falar? Oh, mããããe". Nas redes sociais, o que é ridículo torna-se somente ainda mais ridículo. É que repare-se: o nome das pessoas aparece. Verdade?

Acho maravilhoso que todas as perguntas em qualquer grupo de mães (!!) comece com: "Mães!", ou "Mães que tudo sabem" (é mentira..). Podemos evitar o vocativo e dizer somente: "Olá! Será que alguém me pode ajudar?" Assim como fazemos se estivermos a escrever um mail. Ou a escrever no nosso Facebook para ninguém em particular. O que acham?

É que depois isto desenvolve do "Mães que tudo sabem" para um tratamento generalizado pelo vocativo 'Mãe'. A título de exemplo, a Maria faz uma pergunta e eu respondo. Ora, na minha resposta aparece o meu nome, verdade? A Maria podia dizer: "Obrigada, Margarida, bla bla bla..." Mas não. A Maria vai dizer: "Obrigada. mãe". WHY?? WHYYYYY?  Eu não sou mãe das pessoas! Não me tratem por mãe se não são meus filhos. É que não faz sentido. É como chamar Engenheiro a toda a gente só porque sim. É disparatado.

Outra coisa que me tira do sério são as certezas. TODA a gente tem TODAS as certezas do mundo depois de parir. É uma cena que deve ter acontecido a milhões de pessoas menos a mim. O fenómeno é exponenciado [mais uma vez, lá está] pelas redes sociais. Por exemplo, se a minha filha estiver doente ou com algum sintoma que eu não consiga identificar, o que geralmente faço é ligar ao médico. Ou enviar-lhe um email - no qual até posso colocar anexos com fotos da miúda, se se justificar. Porquê? Bom, porque ele é que é o médico, verdade? Mentira. Pelo que me apercebi, as "mães que tudo sabem" são ótimas médicas. Portanto, assim que começam os sintomas, as pessoas não só atiram fotos e textos a elencar todos os sintomas da criança como perguntam: "O que acham que é?" Ou melhor ainda: "Que dose de que medicamento devo dar?"

WAKE UP, people! A sério. As "mães que tudo sabem" são mães. Que não sabem tudo. E que não são médicas. E de repente vocês chegam ali e têm dez diagnósticos diferentes e dez remédios diferentes e acham que tudo é verdade porque se está no FB é verdade mas NÃO É!

Eu acho ótima a existência de grupos de Mães. Dá para partilhar experiências, referências, opiniões sobre escolas, fazer doações, troca de roupa, you name it. Mas não façam das coisas mais do que elas são. Pela vossa saúde, pela dos vossos filhos e pela sanidade mental de que m está a ler tudo isso! Pode ser?

Obrigada


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Pela igualdade

Cá em casa as tarefas são divididas. Não tem que haver uma ordem específica, mas basicamente toda a gente – ou seja, eu e ele – faz tudo: pode ser um de nós a fazer o jantar, a pôr a mesa, a fazer a cama, a pôr roupa a lavar, estendê-la ou apanhá-la. Posso ser eu a ter jantares de rajada e a deixá-lo com a miúda ou acontecer ao contrário. Portanto, significa que há dias em que posso ser eu a dar banho, jantar e pô-la na cama e outros em que pode ser ele. Na maioria dos dias somos os dois, o que é bem mais fixe.

Mas o que é curioso é que para o comum dos mortais, eu é que tive imensa sorte com a pessoa com quem casei – e tive! – porque ele faz tudo. Imagine-se! Imagine-se que um dos habitantes da casa faz exatamente o mesmo que o outro. Onde é que já se viu uma pessoa cozinhar, arrumar a cozinha, tratar da filha? Onde? Ainda no outro dia a minha mãe me dizia que eu tinha imensa sorte porque, quando cheguei do ginásio, ele já tinha tratado da miúda e já a tinha posto na cama. Eu só tive que me sentar e jantar, que a comida estava pronta e a mesa posta. “Ah, que sortuda!”. Eu ri-me. E perguntei: se tivesse sido eu a ficar em casa, a tratar dela, a fazer o jantar e a esperar que ele viesse do ginásio dizia o mesmo?” A minha mãe deu uma gargalhada, porque no fundo sabe que o que disse é disparatado. Mas está-nos inculcado na sociedade.

Por exemplo, há umas semanas estávamos a almoçar com uns amigos, numa esplanada, e o João estava a dar a sopa à miúda. A empregada chegou e disse-me: “Ai é o pai que dá a sopa?”. Eu respondi que sim. Que ele até o fazia melhor do que eu. A senhora olhou-me com desdém e foi à vida dela. Eu ri-me. O João riu-se.

Felizmente, os homens são cada vez mais assim: inteligentes o suficiente para perceber que o mundo mudou. Que tanto eu como ele trabalhamos – quando eu estive de licença era eu que tratava das coisas em casa, por razões óbvias –, e que nenhum de nós tem primazia sobre o outro. Que temos os mesmos direitos e os mesmos deveres. É claro que isto para os homens também é um processo violento: porque há sempre os outros homens idiotas – até mulheres, sobretudo mães e sogras – que acham que tratar dos filhos ou da casa os diminui, de alguma forma, na sua virilidade. Porque há chefes que acham que as mulheres é que têm esse dever – e depois lá entramos nós na conversa sobre o facto de as mulheres não chegarem a cargos de chefia – e portanto fazem um escândalo quando o pai diz que tem que ficar em casa porque o filho está doente.


Eu acredito que a educação se faz pelo exemplo. Acredito que a minha filha vai perceber que lá em casa o pai e a mãe são iguais no que toca a direitos e deveres. Que vai crescer a querer essa justiça, a procurar pessoas que pensem como ela e a evangelizar as que não pensam. E se todos nós fecharmos a boca quando estiver para sair algo como “ele ajuda-te em casa?”, o mundo mudará muito mais depressa do que julgamos possível. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

[Reposting] Depressão.


Eu tinha dezoito anos e um mundo cheio de sonhos. Foi o primeiro ano de faculdade, a vinda para a capital, uma imensidão de coisas para descobrir, uma imensidão de medos para ultrapassar.

Ela chegou, devagarinho, como chegam sempre. Sem se desconfiar que eu sou uma pessoa de responder sempre o mesmo: "Está tudo bem!" ou "Estou ótima!". Foi-se instalando, facilmente, numa cabeça que estava mais cheia de solitude e de medos do que de força e de coragem. Os telefonemas, de um amor proibidíssimo, repetiam-se mas não aliviavam a dor. Na verdade aumentavam-na da proporção do bom que eram aquelas minutos de amor, de carinho, de ternura, de entrega.

Eu, pessoa de pensar pouco e falar muito, dava por mim horas a fio a olhar para o vazio e a sonhar com coisas que sabia não serem possíveis. Mas entre o que sabemos e aquilo em que queremos acreditar vai uma distância enorme que pesa no coração porque deixamos - sim, porque deixamos. De olhos presos em outro lugar que não o telefone, sorria num esgar de dor cada vez que recebia um sms ou um telefonema. Porque, novamente, era tudo tão bom quanto tão mau se adivinhava.

Os encontros furtivos, as promessas sonhadas a dois - que ambos sabíamos que nunca iriam acontecer - as ausências, a dor, a dor, a dor. Fui perdendo peso e horas de sono. Cheguei a menos de 50 quilos em menos de nada e a minha mãe - atenta, Mãe com letra grande - atirou-me para o consultório médico antes de eu ter tempo  [ou vontade] de reagir. A única coisa que sabia fazer, naquela altura, era chorar. Chorava, tomava remédios para a dor de cabeça que não me largava porque não dormia e obrigava-me a colocar alguma comida na boca só para conseguir arrastar-me para a faculdade.

Miraculosamente fiz todas as cadeiras nesse semestre. Ainda hoje não sei como, porque a única imagem que tenho é a minha, sentada à secretária, a olhar durante três horas para a mesma folha de papel sem conseguir ler o que lá estava escrito. E os dias de febre, de cansaço, de exaustão pura de mim própria.

Com mais remédios na mala e uma depressão diagnosticada, valeu-me, já na altura, o João. A primeira e das únicas pessoas que soube o que se passava, e que, sem uma pergunta, tomava conta de mim. Era ele que controlava as horas dos remédios, durante o dia; era quem me ia buscar à noite para ir passear; era quem me tirava de casa quando eu só queria ficar enrolada no sofá a olhar para uma televisão que ia passando programas aleatórios.

Nos tempos seguintes tive alguns laivos de consciência. Com noites de sono decentes e a ajuda preciosa dos meus pais, decidi que era demasiado nova para aquilo. Parei de tomar a medicação e decidi que não iam ser remédios a controlar-me a vida. Que seria!! Num esforço [que senti como] sobre-humano decidi controlar a minha vida. Não que doesse menos. Não que sofresse menos. Mas tinha que ser eu. Isso eu sabia: tinha que ser eu a controlar a minha vida, a minha vontade, a minha alegria ou tristeza. Recusava-me [também] que fosse um homem, um sentimento por um homem, a fazê-lo.

Durante quatro ou cinco anos lutei contra o azedume que se quis instalar na minha vida porque estava furiosa. Sentia-me enganada, trucidada por mim própria. Sentia-me uma idiota por ter acreditado, mesmo sem querer, em algo que sempre soube ser impossível. Por ter tido esperanças infundadas, mas cheias de uma amor tão puro que nunca desapareceu. Durante anos deixei de olhar para o mundo e para as pessoas e esqueci-me de que tudo passa. Senti a falta dos amigos, a quem não falava do que estava a passar [tonta!] e cuja ausência sentia no meu coração porque achava que não se preocupavam comigo. Durante esse tempo, esqueci-me também de que só nos é dado aquilo que podemos suportar.

Hoje, quando olho para trás, sei que não poderia ter sido de forma diferente, embora adorasse não ter passado por uma depressão. Sobretudo assim, tão nova. Hoje, quando olho para trás, consigo sorrir e perceber tudo o que aprendi com alguém que sei, realmente amava e que me amava. Hoje consigo perceber que sou muito mais forte e muito mais 'amor' porque passei por isso.

Não sei porque decidi escrever sobre este assunto agora.  De alguma forma, creio que senti uma necessidade catártica de o fazer. E porque sei quão bom é saber que há pessoas que já passaram por aquilo que tatnas pessoas poderão estar agora a passar. A essas, posso dar três conselhos:

1. Peçam ajuda e não se fechem em vós próprias;
2. Escrevam num papel todas as coisas boas que a vida já vos deu. Leiam-no todos os dias;
3. Aceitem o problema, aceitem a ajuda e nunca desistam.

*Texto publicado originalmente em Fevereiro de 2014. Por razões várias hoje lembrei-me dele e pareceu-me bom voltar a publicá-lo.
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