quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Pela igualdade

Cá em casa as tarefas são divididas. Não tem que haver uma ordem específica, mas basicamente toda a gente – ou seja, eu e ele – faz tudo: pode ser um de nós a fazer o jantar, a pôr a mesa, a fazer a cama, a pôr roupa a lavar, estendê-la ou apanhá-la. Posso ser eu a ter jantares de rajada e a deixá-lo com a miúda ou acontecer ao contrário. Portanto, significa que há dias em que posso ser eu a dar banho, jantar e pô-la na cama e outros em que pode ser ele. Na maioria dos dias somos os dois, o que é bem mais fixe.

Mas o que é curioso é que para o comum dos mortais, eu é que tive imensa sorte com a pessoa com quem casei – e tive! – porque ele faz tudo. Imagine-se! Imagine-se que um dos habitantes da casa faz exatamente o mesmo que o outro. Onde é que já se viu uma pessoa cozinhar, arrumar a cozinha, tratar da filha? Onde? Ainda no outro dia a minha mãe me dizia que eu tinha imensa sorte porque, quando cheguei do ginásio, ele já tinha tratado da miúda e já a tinha posto na cama. Eu só tive que me sentar e jantar, que a comida estava pronta e a mesa posta. “Ah, que sortuda!”. Eu ri-me. E perguntei: se tivesse sido eu a ficar em casa, a tratar dela, a fazer o jantar e a esperar que ele viesse do ginásio dizia o mesmo?” A minha mãe deu uma gargalhada, porque no fundo sabe que o que disse é disparatado. Mas está-nos inculcado na sociedade.

Por exemplo, há umas semanas estávamos a almoçar com uns amigos, numa esplanada, e o João estava a dar a sopa à miúda. A empregada chegou e disse-me: “Ai é o pai que dá a sopa?”. Eu respondi que sim. Que ele até o fazia melhor do que eu. A senhora olhou-me com desdém e foi à vida dela. Eu ri-me. O João riu-se.

Felizmente, os homens são cada vez mais assim: inteligentes o suficiente para perceber que o mundo mudou. Que tanto eu como ele trabalhamos – quando eu estive de licença era eu que tratava das coisas em casa, por razões óbvias –, e que nenhum de nós tem primazia sobre o outro. Que temos os mesmos direitos e os mesmos deveres. É claro que isto para os homens também é um processo violento: porque há sempre os outros homens idiotas – até mulheres, sobretudo mães e sogras – que acham que tratar dos filhos ou da casa os diminui, de alguma forma, na sua virilidade. Porque há chefes que acham que as mulheres é que têm esse dever – e depois lá entramos nós na conversa sobre o facto de as mulheres não chegarem a cargos de chefia – e portanto fazem um escândalo quando o pai diz que tem que ficar em casa porque o filho está doente.


Eu acredito que a educação se faz pelo exemplo. Acredito que a minha filha vai perceber que lá em casa o pai e a mãe são iguais no que toca a direitos e deveres. Que vai crescer a querer essa justiça, a procurar pessoas que pensem como ela e a evangelizar as que não pensam. E se todos nós fecharmos a boca quando estiver para sair algo como “ele ajuda-te em casa?”, o mundo mudará muito mais depressa do que julgamos possível. 

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