quinta-feira, 3 de novembro de 2016

[Reposting] Depressão.


Eu tinha dezoito anos e um mundo cheio de sonhos. Foi o primeiro ano de faculdade, a vinda para a capital, uma imensidão de coisas para descobrir, uma imensidão de medos para ultrapassar.

Ela chegou, devagarinho, como chegam sempre. Sem se desconfiar que eu sou uma pessoa de responder sempre o mesmo: "Está tudo bem!" ou "Estou ótima!". Foi-se instalando, facilmente, numa cabeça que estava mais cheia de solitude e de medos do que de força e de coragem. Os telefonemas, de um amor proibidíssimo, repetiam-se mas não aliviavam a dor. Na verdade aumentavam-na da proporção do bom que eram aquelas minutos de amor, de carinho, de ternura, de entrega.

Eu, pessoa de pensar pouco e falar muito, dava por mim horas a fio a olhar para o vazio e a sonhar com coisas que sabia não serem possíveis. Mas entre o que sabemos e aquilo em que queremos acreditar vai uma distância enorme que pesa no coração porque deixamos - sim, porque deixamos. De olhos presos em outro lugar que não o telefone, sorria num esgar de dor cada vez que recebia um sms ou um telefonema. Porque, novamente, era tudo tão bom quanto tão mau se adivinhava.

Os encontros furtivos, as promessas sonhadas a dois - que ambos sabíamos que nunca iriam acontecer - as ausências, a dor, a dor, a dor. Fui perdendo peso e horas de sono. Cheguei a menos de 50 quilos em menos de nada e a minha mãe - atenta, Mãe com letra grande - atirou-me para o consultório médico antes de eu ter tempo  [ou vontade] de reagir. A única coisa que sabia fazer, naquela altura, era chorar. Chorava, tomava remédios para a dor de cabeça que não me largava porque não dormia e obrigava-me a colocar alguma comida na boca só para conseguir arrastar-me para a faculdade.

Miraculosamente fiz todas as cadeiras nesse semestre. Ainda hoje não sei como, porque a única imagem que tenho é a minha, sentada à secretária, a olhar durante três horas para a mesma folha de papel sem conseguir ler o que lá estava escrito. E os dias de febre, de cansaço, de exaustão pura de mim própria.

Com mais remédios na mala e uma depressão diagnosticada, valeu-me, já na altura, o João. A primeira e das únicas pessoas que soube o que se passava, e que, sem uma pergunta, tomava conta de mim. Era ele que controlava as horas dos remédios, durante o dia; era quem me ia buscar à noite para ir passear; era quem me tirava de casa quando eu só queria ficar enrolada no sofá a olhar para uma televisão que ia passando programas aleatórios.

Nos tempos seguintes tive alguns laivos de consciência. Com noites de sono decentes e a ajuda preciosa dos meus pais, decidi que era demasiado nova para aquilo. Parei de tomar a medicação e decidi que não iam ser remédios a controlar-me a vida. Que seria!! Num esforço [que senti como] sobre-humano decidi controlar a minha vida. Não que doesse menos. Não que sofresse menos. Mas tinha que ser eu. Isso eu sabia: tinha que ser eu a controlar a minha vida, a minha vontade, a minha alegria ou tristeza. Recusava-me [também] que fosse um homem, um sentimento por um homem, a fazê-lo.

Durante quatro ou cinco anos lutei contra o azedume que se quis instalar na minha vida porque estava furiosa. Sentia-me enganada, trucidada por mim própria. Sentia-me uma idiota por ter acreditado, mesmo sem querer, em algo que sempre soube ser impossível. Por ter tido esperanças infundadas, mas cheias de uma amor tão puro que nunca desapareceu. Durante anos deixei de olhar para o mundo e para as pessoas e esqueci-me de que tudo passa. Senti a falta dos amigos, a quem não falava do que estava a passar [tonta!] e cuja ausência sentia no meu coração porque achava que não se preocupavam comigo. Durante esse tempo, esqueci-me também de que só nos é dado aquilo que podemos suportar.

Hoje, quando olho para trás, sei que não poderia ter sido de forma diferente, embora adorasse não ter passado por uma depressão. Sobretudo assim, tão nova. Hoje, quando olho para trás, consigo sorrir e perceber tudo o que aprendi com alguém que sei, realmente amava e que me amava. Hoje consigo perceber que sou muito mais forte e muito mais 'amor' porque passei por isso.

Não sei porque decidi escrever sobre este assunto agora.  De alguma forma, creio que senti uma necessidade catártica de o fazer. E porque sei quão bom é saber que há pessoas que já passaram por aquilo que tatnas pessoas poderão estar agora a passar. A essas, posso dar três conselhos:

1. Peçam ajuda e não se fechem em vós próprias;
2. Escrevam num papel todas as coisas boas que a vida já vos deu. Leiam-no todos os dias;
3. Aceitem o problema, aceitem a ajuda e nunca desistam.

*Texto publicado originalmente em Fevereiro de 2014. Por razões várias hoje lembrei-me dele e pareceu-me bom voltar a publicá-lo.

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