quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Neste Natal vamos...

...comprar menos brinquedos, roupas, livros e demais bugigangas que tantas vezes acabam em quermesses. Vamos olhar para o que temos em casa e podemos oferecer (sim, o re-gift é um hábito saudável), vamos perguntar às pessoas de que precisam ou o que gostavam mesmo de ter e tentar dar-lhes isso, sem gastar um salário inteiro?

...vamos comprar menos, e menos em lojas enormes de grandes cadeias e procurar nos artesãos, nas feiras, nas lojas de rua?

...vamos olhar para os nossos vizinhos, colegas do lado e saber se têm necessidades que não estejamos a suprir?

...vamos perguntar nas associações e instituições perto de nós que contribuições podemos dar para ajudar os que estão próximos a ter um melhor Natal?

...vamos embrulhar os presentes com papel de revista ou de jornal, reutilizar sacos de papel, usar papel de seda ou outro que possa ter outra utilização para além de uma única?

...vamos desperdiçar menos dinheiro (e comida, e tempo) em almoços e jantares de Natal que na verdade só tentam colmatar as ausências do resto dos meses?

...vamos tentar que os nossos filhos não recebam 30 presentes que só os vão fazer sentir que têm tudo aquilo que querem, e dosear - ao longo do ano - a entrega dos que receberem?

...vamos lembrar-nos verdadeiramente do sentido do Natal - nascimento, renascimento, renovação, amor, vida - e deixar de lado o consumismo desenfreado em que se transformou?

Se dermos mais abraços, mais atenção, mais bondade, desconfio de que teremos, verdadeiramente, um Natal melhor. E consequentemente, um mundo melhor [um daqueles onde não há pessoas a serem vendidas a 300 euros; crianças abandonadas à sua sorte sem famílias que as queiram; velhotes sozinhos sem que cuidem deles..]

Feliz Advento!

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Por que deixamos a depressão ganhar?

Desde pelo menos de 2011 – isto equivale a uma pesquisa muito rápida – que os números não mentem: os portugueses estão consistentemente entre os mais deprimidos da Europa. Os números são assustadores – um relatório da OCDE revela que em 2014 havia uma incidência de 17% de depressão crónica nas mulheres, em Portugal – e é preciso atentar neles rapidamente, antes que seja tarde demais.

Durante os anos da crise, os estudos apontavam para a falta de emprego e a incerteza como factores a pesar consideravelmente na incidência das depressões. No entanto, isso não explica tudo. Há também alguns estudos que mostram uma evidência entre a falta de sono – os portugueses estão também entre os que menos tempo dedicam ao sono – e a falta de saúde mental.

Mas o que leva a que um problema destes, com números públicos, não seja tratado pelas autoridades? E o que leva a que socialmente não sejamos pessoas atentas a isto? Como é possível que os anos passem, os números continuem a aumentar, e nós continuemos a assobiar para o lado? Que tipo de pessoas somos nós, que deixamos que tanta gente viva deprimida mesmo ao nosso lado?

Eu tenho algumas coisas a dizer sobre o assunto – como pessoa que já passou por duas depressões, há coisas que se sentem de forma diferente, vos garanto J:

1.      Ligamos pouco às doenças mentais. Muito pouco. São um tabu que é preciso quebrar, porque muita gente sofre de doenças mentais e isso não faz delas más pessoas ou pessoas loucas. Temos que desmistificar o assunto e fazer ver a todos à nossa volta que é legítimo sentirmo-nos mal, às vezes. Porque esta tentativa constante de fingir alegria durante toda a vida faz com que estas questões se agravem. As doenças mentais existem, temos que aprender a lidar com elas e não achas que quem as tem é uma pessoa fraca. E isto leva ao ponto dois…
2.       Somos uns fingidos. Somos, generalizando, e com o risco que as generalizações acarretam. As redes sociais vieram piorar tudo, porque as pessoas adoram fingir que estão felizes, que têm o emprego de sonho, que têm tudo o que querem, que têm muitos amigos. Mesmo que muitas vezes estejam mais sozinhos do que nunca. Ao invés de procurarmos mostrar uma vida bonita nas redes sociais, era boa ideia ligar aos nossos amigos, de vez em quando, a perguntar como estão realmente: como estão as coisas em casa, no trabalho, se têm tido tempo para hobbies, se querem ir jantar.
3.        A felicidade não é o mesmo para todas as pessoas, verdade? Então, paremos de fingir que queremos ser todos como as pessoas dos blogues da moda, porque há algumas pessoas que também são felizes sem fazer yoga, ir a restaurantes fancy e sem ter a roupa da última coleção ou a decoração mais incrível em casa. Algumas nem sequer sentiam essa necessidade antes desta vaga de “felicidade através do ter cenas e fazer viagens e tudo e tudo e tudo”. É importante respeitarmos isso.
4.       Educação: os últimos dois pontos podiam ser resolvidos através de uma educação cuidada. É importante explicarmos aos mais novos que não é o que temos ou onde comemos que nos define. O que nos define são os nossos valores. A nossa verdade. Tudo o resto poderá tornar-se fonte de angústia e, consequentemente, levar a estados depressivos – porque no fundo estamos a viver para expectativas que nem sequer nos pertencem.
5.       Temos muita vergonha de dizer que estamos tristes. Hoje em dia a tristeza não é permitida. Os lutos não são permitidos. Dizer a verdade não é permitido. Toda a gente se ofende, toda a gente acha que sabe o que é melhor para o outro…guardar tudo isso para dentro faz mal, e faz com que as pessoas sofram sozinhas, pensando que estão erradas, de alguma forma. Não estão. Às vezes estão só doentes, mesmo e precisam de ajuda. Quando alguém vos disser que se sente deprimido, não julguem. Encaminhem a pessoa para ajuda profissional. As pessoas que têm depressões não são fracas. Simplesmente precisam de ajuda!
6.       As depressões não se tratam sozinhas. Muitas vezes são precisos remédios, muitas vezes é precisa terapia. E não faz mal! Porque se nós tratamos do corpo indo ao ginásio ou fazendo uma massagem; se tratamos do cabelo no cabeleireiro; se tratamos das unhas na esteticista, por que raio não podemos tratar da nossa alma?



terça-feira, 17 de outubro de 2017

E agora, o que fica?

As reportagens deste verão – as fotografias, as imagens, os textos – devem passar a constar dos programas educativos. Estas pessoas que, desamparadas, lutaram contra um fogo inatacável, são os heróis de uns tempos em que a solidariedade e a empatia já não existem e precisam de ser rapidamente repostos.

Nestas aldeias longe de Lisboa, do Porto ou dos centros de decisão onde se passeiam as elites, cada um teve que tentar valer a si e ao do lado, mesmo que isso significasse que idosos andassem de baldes ou ramos nas mãos, sem qualquer formação ou sequer capacidade física. Valeram-se uns aos outros, porque “não podem ficar à espera dos bombeiros”. E não ficaram. Nos entremeios, morreram mais 36 pessoas – que se juntam às 65 falecidas no incêndio de Pedrogão Grande. Há 3 meses e meio. Nos entremeios, ficou um bebé de um mês. Também ele não podia ficar à espera dos bombeiros?...

Estas reportagens, estes relatos na primeira e na terceira pessoas, têm que passar a constar dos programas educativos – não temos disciplinas de educação cívica? –  porque muito do que se passa hoje em matérias de incêndio tem mão humana – nem toda criminosa, mas humana. Cada beata deitada ao chão, cada garrafa de vidro abandonada, cada pedaço de terra descurado, cada porção de lixo atirada para onde for. A displicência com que nos tratamos e ao ambiente são meio caminho andado para tragédias destas – a falta de consciência do que a desertificação faz ao país; a falta de consciência do que o desperdício provoca; a falta de consciência do que estamos a provocar com o consumo desenfreado e inconsequente.

Estas reportagens, estas mortes têm que passar a fazer parte dos programas educativos porque nós não andamos a educar cidadãos. Andamos a fazer crescer pessoas sem escrúpulos, de onde saem depois as nossas ‘elites’, os nossos governantes que, perante uma catástrofe, dizem que não podemos contar com os meios que o Estado tem obrigação de ter à disposição dos cidadãos para os salvar. Os nossos governantes, alegadamente os melhores de nós, que nem sequer têm a humildade de perceber que falharam. Falharam ao não ouvir quem mais sabe; falharam ao ignorar avisos sobre o perigo que se avizinhava; falharam ao não querer saber de populações que, estando isoladas o ano inteiro, mais isoladas ficam quando uma tragédia lhes bate à porta.

Os alegadamente melhores de nós não querem saber se o José, de 70 anos, perdeu o sustento depois de ter salvado, sozinho, a sua casa, ou se Maria Joaquina viu vizinhos – as suas companhias de sempre – morrer. Aos alegadamente melhores de nós importa nada que o padre António, de 80 anos, tenha passado dez horas a acartar e distribuir baldes de água para tentar salvar as suas três paróquias. 
A quem é alegadamente melhor do que nós, a quem está a ocupar um cargo que exige sentido de Estado, importa pouco que aquela gente que pouco tinha, tenha ficado sem nada. Sobretudo, tenha ficado sem os seus. Importa pouco que três meses depois de uma tragédia, por erros precisamente iguais, tenhamos perdido mais pessoas, mais terras, mais esperança. Porque em Lisboa segue tudo igual. Porque no Parlamento, mais lei menos lei, a vida continua e aqueles incêndios, aquelas perdas, dizem pouco a quem no Orçamento do Estado para 2018, depois da tragédia de Pedrogão, não ocorreu aumentar a verba para o Ministério da Administração Interna e prever mudanças no combate aos incêndios, flagelos a que, ainda por cima, “teremos que nos habituar”, segundo António Costa. 

Ali, em São Bento, continuará a encomendar-se o almoço na hora das sessões plenárias, continuará a comer-se na cantina ou no restaurante do lado, e continuará a haver um tecto, aquecimento, e um salário na conta no final do mês. 

As nossas elites, as pessoas que devem ser o nosso exemplo, não foram sequer capazes de fazer aquilo que se pede às crianças desde que começam a ter entendimento: pedir desculpa. Por não terem sido capazes de proteger os seus. Nem estou a pedir que elenquem já as razões pelas quais falharam, mas como líderes que se espera que sejam, deviam pedir desculpa. Porque não fizeram tudo o que era possível para salvar o bebé de um mês que morreu longe dos pais, também eles mortos neste incêndio infernal. Como vamos nós dizer aos nossos filhos que pedir desculpa é nosso dever, quando aqueles que nos devem servir de exemplo não têm a humildade para tal?

Estes fogos têm que ser usados como exemplo de falta de cidadania, de empatia, de cuidado: são os mais fortes que devem proteger os mais fracos. É para isso que os elegemos. É isso que apregoam os sucessivos Executivos. Estes fogos têm que começar a entrar, como exemplo, na cabeça dos mais novos rapidamente, para que percebam que as acções de todos têm implicações na vida de todos. Que juntos, em gestos pequeninos, podemos criar um mundo melhor.


Estas tragédias têm que nos ajudar a criar cidadãos melhores do que nós: mais exigentes, mais reivindicativos, mais engajados, mais socialmente atentos. Pessoas envolvidas na política e movimentos de cidadania, crentes no sistema, activos nas lutas. Se tem que ser pela violência das imagens, das mortes, do drama, que seja. Mas que estas 100 mortes não sejam em vão. Que estas perdas não se fiquem apenas por isso mesmo: por perdas.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

É o mínimo. E não custa nada. A sério!

As lojas de rua fecham. Os jardins públicos estão mal tratados. Os idosos não têm apoios e as escolas públicas degradam-se. Não há vagas para crianças, não há escolas suficientes, não há acividades que promovem a saúde física e mental dos mais velhos, não há residências assistidas [e não lares] que lhes permitam manter a dignidade sem perder todas as poupanças.  

Não há casas com preços comportáveis, não há rede de transportes públicos que funcione. Não há alternativas ao carro, e o estacionamento não se pode pagar. As obras estendem-se por prazos inacreditáveis, minando os acessos, enchendo as casas de pó, melhorando quase nada, no final. As periferias das cidades perdem gente, ainda que a qualidade de vida seja francamente superior, sobretudo se a juntarmos a custos de vida consideravelmente mais baixos. Mas não há soluções que prendam as pessoas por lá – incentivos fiscais, boas ligações às cidades onde há emprego… 

Não estou a fazer queixas particular, limito-me a juntar todas as que oiço durante anos, no trabalho, em casa, no prédio, no bairro, na cidade, no país. Não é que possamos fazer muito para mudar as coisas – até podemos, mas teimamos em fingir que não é nada connosco. Mas há uma coisa que podemos fazer e que adoramos deixar passar: votar! Votem, minha gente. Se não gostam do estado actual das coisas, votem. Votem no partido da ponta oposta, votem no partido pequeno que nunca lá esteve, votem em branco, mas votem! Mostrem que não estão felizes, que querem mais e melhor. Envolvam-se. Preocupem-se. Escolham, em consciência, quem é a pessoa que está mais interessada nos cidadãos e menos no poderzinho que uma autarquia lhe pode dar. Borrifem-se para a demagogia e para o partido em que os vossos pais votam se não concordam com ele, se a pessoa que o representa não serve. Votem pela mudança. Mas votem. 

Porque este é um direito que demorou tempo demais a ser conseguido para ser ignorado. Não sejam mal-agradecidos a quem lutou pela democracia. Façam alguma coisa pelo estado actual das coisas e deixem de culpar os outros. O que se passa, infelizmente, também é culpa nossa e da nossa falta de exigência, de comprometimento. Comecem pelo mais fácil: vão votar! É o mínimo. A sério: o mínimo.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Somos os mais educados

Adoramos ser fashion. Ler os blogues todos, vestir as roupas da moda, ir aos restaurantes da moda, publicar tudo nas redes sociais; também adoramos ser saudáveis. Seguir as pessoas que comem bem, correr, ir ao ginásio - sempre com o devido outfit - e publicar tudo nas redes sociais. Adoramos design e decoração de interiores. Lemos revistas, lemos blogues, vemos youtubers e programas de decoração. Depois aplicamos à nossa casa e publicamos nas redes sociais. Adoramos jantar com amigos, ir a praias paradisíacas, fazer viagens incríveis para poder fotografar os lugares - mesmo que não estejamos bem a ver o que está defronte de nós - e publicar tudo nas redes sociais.

Aliás, publicamos nas redes sociais como somos pessoas incríveis: viajadas, cultas, fashion, atualizadas, com dinheiro, com bom gosto, saudáveis, activas, com o melhor trabalho do mundo (#lovemyjob), super comprometidas com diversas causas (#girlpower; #refugees; #dogoodthings...); super preocupadas com o mundo e com o ambiente no geral. Somos, num retrato das redes sociais, a sociedade ideal que vai fazer o mundo durar para sempre.

Só que depois existe a vida real: onde cada pessoa usa um carro, e pode demorar quase uma hora a chegar ao trabalho porque "Deus nos livre ir com a plebe de transportes" - causamos mais trânsito na cidade, mandamos o ambiente dar uma curva e até nem queremos bem saber se por acaso demoraríamos menos de transportes;

Inscrevemos os filhos em colégios particulares porque "a escola pública já se sabe...", mas quando os vamos levar deixamos o carro em segunda fila, ou em cima do passeio, ou em cima da passadeira, ou simplesmente no meio da estrada, num acesso de muita boa educação (por favor, detectem a ironia); não importa se os outros carros não passam, se as cadeiras de rodas e carrinhos de bebé não passam, se causamos uma fila inacreditável. É tudo pela melhor (?) educação dos miúdos;

Lemos milhares de livros sobre parentalidade positiva, amor, educação, glúten, peles atópicas e afins, mas não nos importamos que os putos, aos dois anos, só comam agarrados a telefones. Desde que sejam brócolos...

Conduzimos de olhos postos no telefone e sempre a ver se conseguimos fazer aquele quilómetro na fila da esquerda porque na da direita, para onde precisamos de ir, está fila. E depois entramos assim à maluca. Afinal, não tem mal, pois não?

Fumamos cigarros na rua, de preferência à porta do escritório, e ignoramos estoicamente o cinzeiro que lá está. Há-de passar um varredor para limpar as beatas, e o que importa o mundo, no geral? O mesmo se aplica à praia: vamos com a toalha da moda, o protector da moda, os óculos da moda e a seguir atiramos beatas para a areia toda, porque... bom, não sei. Mas sei que este ano os primeiros minutos do meu dia eram a garantir que a minha filha, muito apreciadora de areia, não morria com uma beata na garganta.

Atiramos lixo pela janela do carro, papéis para o chão, pastilhas elásticas para o campo. Compramos nas lojas de produtos biológicos, mas não nos importamos que o Continente online nos entregue as compras com mais 10 sacos de plástico do que o realmente necessário. Clamamos igualdade de género mas somos os primeiros a comentar a roupa de uma mulher que chegue a um cargo qualquer de responsabilidade - ou a pensar, mesmo que sem dizer, que certamente ela terá dormido com alguém.

E podia continuar, porque me bastam dois dias ou três a andar de carro em Lisboa ao invés de nos habituais transportes para ficar com pano para mangas para tantas análises sociológicas. E no final disto tudo, deste mar de coisas, acontecimentos, novidades, pessoas, vale também a pena perguntar: quantos de nós, durante o dia, perguntamos a uma só pessoa da nossa lista de amigos como é que ela está?

Como dizia uma grande amiga minha: "quando nos damos menos, sofremos menos". Só que quando nos damos menos, o mundo todo perde. E nós, animais sociais, ainda não nos apercebemos de como estamos a deitar tudo a perder.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Velvet

Por absoluta casualidade vi o primeiro episódio de Velvet, pelo qual tinha passado três vezes sem ligar nenhuma. Tinha acabado de ver a primeira temporada da [brilhante, brilhante] Chicas del Cable, e foi-me aparecendo como sugestão da Netflix. Numa das noites em que estava sozinha e não me apetecia ver mais séries americanas-ao-estilo-de-sempre-e-das-que-vejo-sempre, carreguei no botãozinho. O que fui eu fazer, senhores, o quê?? Criar um problema para o meu sono, por um lado, e um pequeno ataque de ciúmes ao meu querido marido que se sentiu - e com alguma razão - trocado várias vezes pela Paula Echevarria e pelo Miguel Angel Silvestre. E pelo José Sacristan. E pelo Javier Rey (<3 adiante="" e="" p="" por...bom="">

Paula Echevarria e Miguel Angel Silvestre, o meu novo amor...ah!
O argumento não tem nada de incrível - é uma espécie de Romeu e Julieta dos anos 1950/1960 - mas tudo o resto é incrível: a frescura dos actores, o guarda-roupa (que sonho, às vezes! Que sonho!), as lições. Cada vez gosto mais de séries europeias - obrigada, Borgen e Les hommes de l'ombre - mesmo que sejam tão leves quanto uma novela. Mesmo que já saiba como vai acabar. Foi o que aconteceu em Velvet: mais volta, menos volta, sabíamos que tinha que acabar de uma forma para acabar bem, para que possamos voltar a sonhar, para que estas pequenas obras de abstracção ainda nos façam acreditar e sonhar. 

Mas são quatro temporadas tão mas tão boas, que quase tenho vontade de repetir tudo outra vez - e mal acabei de a ver. No tempo em que tive que esperar que a Netflix disponibilizasse as duas últimas temporadas, deviam ter visto como ficou o meu humor: não estava a aguentar de emoção. Podia ter sido somente porque a Paula Echevarria e o Miguel Angel Silvestre me fizeram sentir o mesmo que a Julianna Margulies e o Josh Charles, em The Good Wife (que casal, senhores. Que energia no ecrã!), mas não. Velvet tem também o incrível Asier Etxeandia (tanta gargalhada!) e um segundo casal maravilha (Javier Rey e Marta Hazas for ever); tem uma Amaia Salamanca de estouro (vê-la aqui e no Gran Hotel é suficiente para perceber quão versátil pode ser); tem uma Cecilia Freire que não dá para acreditar e uma Angela Molina que nos prende no primeiro olhar que faz na série.



Se não tiverem nada que fazer durante o verão - e enquanto as séries americanas estão em pausa - vejam Velvet. Cada episódio tem mais de uma hora (houve dias que foram um problema, mas aproveitei uma semana em que tive que estar de repouso para despachar uma temporada inteira!! Yeah!) e vão ver que vale a pena. Isto se tiverem pachorra para séries românticas e bonitas. Porque é só isto. Mas isto, bem feito, já é tanto nos dias de hoje, que não consigo deixar de ter saudades desta gente toda...

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A [terrível] dependência dos avós

Se há coisa que sempre me fez confusão foi a dependência que a sociedade portuguesa tem dos avós - no outro dia voltámos a falar disto, lá em casa, porque a todos incomoda o mesmo. Somos estranhamente e ao contrário da maior parte dos outros povos, absolutamente dependentes dos avós, que acreditamos terem um qualquer 'dever' para connosco.

Antes não podia falar do assunto porque recebia inevitavelmente como resposta um "não és mãe, sabes lá!". Agora que já sou, e até já passou mais de um ano, pode ser que já possa dizer algo sobre o assunto.

Não sei onde começa o problema, e desconfio de que tem três focos distintos. Mas por um temos que começar:

1. Temos um sistema laboral que não funciona - não há horários decentes para as pessoas poderem passar tempo com os filhos, nem salários que permitam contratar alguém que cuide deles para nós trabalharmos. Eu adoro trabalhar e não trocaria a minha carreira pela maternidade a tempo inteiro, mas seria bom dispor de condições que me permitissem, por exemplo, ter uma pessoa que todos os dias ficasse com a miúda e não tivéssemos que andar no corre-corre dos horários da escola - e muita sorte temos nós, que temos horários absolutamente flexíveis e podemos continuar a trabalhar desde casa. As empresas penalizam quem sai cedo, quem precisa de ficar em casa, quem tem filhos, no geral. É um nojo.

2. Temos um sistema escolar que não funciona - o mesmo Estado que não impõe regras que facilitem a vida dos pais nas empresas é o mesmo que impõe regras e horários nas escolas que não fazem sentido nenhum com as necessidades laborais. E é o mesmo que não fornece escolas suficientes para que nos não levem metade do salário em mensalidades ridículas. A essas mensalidades - que mais de metade do país não pode pagar - acrescem depois os alargamentos de horários para além das 17h (!!). E ainda se ouve um "a menina não devia ficar tanto tempo na creche" quando se vai buscar a miúda 9h depois de a ter lá deixado, como se não tivéssemos que trabalhar 8h por dia...

3. Temos uma sociedade podre: os filhos acham que os pais têm obrigação de cuidar dos filhos deles, e os pais não sabem dizer que não. Não temos avós [como os alemães ou os franceses ou os holandeses] que sejam capazes de olhar para os filhos e dizer: "Amiguinho, gosto muito de ti, mas já passei a minha vida a cuidar de ti. Agora vou viajar, descansar, apanhar ervas do jardim...viver a vida de que fiquei privado tanto tempo". Temos filhos que têm filhos já a contar com a ajuda dos avós e sem os quais não conseguiriam viver - porque ninguém lhes disse que era isso que deviam fazer.

Eu acho incrível que os netos passem tempo com os avós - desconfio de que são dos melhores presentes que lhes podemos dar - mas não por obrigação. Porque os avós são para se estar de vez em quando. Têm a vida deles e têm zero obrigação com filhos que não são deles (não, avós não são pais duas vezes. São avós!). E se houvesse mais avós a dizer que não, havia mais gente a lutar por escolas com horários melhores e por regras decentes no mundo laboral (salários, horários, you name it).

Porque ninguém luta por coisas das quais não precisa. Deixaria de haver pessoas a chorar porque "não tive outra solução se não deixá-lo com os avós" e passaria a haver pessoas a dizer "vou fazer o pino até encontrar uma solução porque tenho que o fazer". E consequentemente havia pais mais felizes e uma sociedade mais saudável. Porque nós devemos lutar pelas coisas que fazem sentido: conseguir ter as condições certas para cuidar dos nossos filhos sem contar com quem já fez a sua parte é uma delas.

E se tantos povos no mundo o conseguem fazer, nós também conseguimos. Só precisamos de fazer por isso.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Let's talk about boobs (again)

Uma das questões que aparece com a maternidade são as alterações corporais: primeiro inchamos, engordamos, ficamos com uma barriga que parece uma bola de basquete, fazemos retenção de líquidos, as nossas mamas parecem as da Cicciolina, enfim...

Depois a criança nasce e temos a ilusão simpática de que o corpo vai voltar ao normal - mesmo que leve o seu tempo. E ficamos um bocado tristes quando não volta - claro que para quem faz muito desporto, à laia de Daniela Ruah, a coisa não é bem assim. Mas como estou a falar de mim, paciência.
E pronto, o meu não voltou. Não me queixo - na verdade até estou bem mais magra do que antes de engravidar -, comecei a fazer desporto assim que a miúda fez 3 meses, continuo a comer como antes e está tudo bem. Dentro do género. Porque perdi imenso peito. Mamas, mesmo. Não é que eu fosse desprovida delas, mas posso dizer-vos que baixei dois ou três números de soutien assim sem dar por ela. E não é que esteja muito infeliz, porque acho que há roupa que agora me fica bem melhor. Só que as camisas e camisolas e casacos do armário deixaram de me ficar bem, os soutiens ficaram ridículos, eu comecei a sentir-me cada vez pior - quem é que quer ter roupa que parece ter sido comprada para outra pessoa, com outro corpo?

E sim, podem tomar café enquanto esperam 

Voltei à loja que me salvou a vida há um par de anos, e onde passei a fazer todas as compras, e elas voltaram a salvar-me. Já me tinham ajudado no processo-de-me-transformar-numa-baleia e no regresso à normalidade. Só que afinal, quando pensei que tinha regressado à normalidade, não tinha. E foi preciso reajustar novamente. E foi incrível. Porque saí de lá, novamente, com a sensação de estar muito mais bonita porque vesti o soutien certo. Porque deixei de sentir que tinha ligerie que não me pertencia - e consequentemente, deixei de me lamentar por todas as alterações que o meu corpo sofreu, mesmo que até me sinta bem nele.

Portanto, fica novamente a dica: vão à Dama de Copas e percebam a diferença de usar o número certo de roupa interior. Vão ficar espantadas com a diferença. Prometo!

Em Lisboa, há uma loja no Saldanha e outra na Baixa, no Porto há uma na Rua Sá da Bandeira, e em Madrid, na Calle Goya. Não há é desculpas par não ir - não vão é à espera de preços tipo Calzedonia ou Oysho. Mas valem cada cêntimo. Mesmo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Cheiros bons

Eu sou super, hiper sensível a cheiros. E os cheiros, os odores, são para mim o melhor reavivar de memória que existe. Em 2 segundos de inalação de um odor específico sou capaz de voar 10, 15 anos da minha vida e de repente voltar a ouvir os sons, a sentir os sabores, a ver os rostos. Acontece-me frequentemente em coisas tão banais como...no banho. Cada gel duche guarda, no seu aroma, momentos muito específicos da minha vida:

há um que é claramente Taizé. Grita Taizé de tal forma que passo o resto do banho a sorrir enquanto trauteio uma das músicas e recordo as muitas pessoas com quem lá me cruzei ao longo dos anos;
há um outro que me lembra o meu 12.º ano. Mas tão, tão bem. Sei exatamente o que se passou naquele ano só porque no outro dia tomei banho com aquele gel duche, imagine-se;
há outro que me cheira a Natal - desconfio de que é por ser o que está sempre em casa dos meus pais;
há ainda aquele que me cheira a regresso de campo. Deve querer dizer Verão, mas aquilo de que me lembro quando o cheiro é do meu regresso a casa, depois de um grande acampamento de Verão.

Claro que também há o gel duche da praia, das viagens, de algumas férias. Mas uns vão-se esbatendo muito mais que outros, porventura tendo em conta a sua importância em cada momento da minha vida. Portanto, não estranhem quando um dia virem alguém a abrir os vários frascos de gel duche no supermercado: muitas vezes sou eu a perder-me nas minhas memórias.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Counting Down

Eu gostava de ter tempo para dissertar sobre as coisas bonitas que a vida me tem proporcionado. Mas não tenho. No pouco tempo que tenho, por norma, tenho-me lamentado pela falta de tempo. Ou então queixo-me terrivelmente até deixar de ter tempo novamente.

É isto. Quero férias. Quero muito ter férias. E ainda falta e estou absolutamente em ácidos. É isto. Obrigada e um queijo!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Pelo Rodrigo, pela Gina, pelo Miguel, a Ana...

Por todos aqueles  que morreram neste incêndio que teima em não nos dar descanso. Porque estas pessoas que perderam a vida de uma forma atroz merecem, mais do que o nosso respeito, que honremos as suas vidas, deixem-me que vos lembre de algumas coisas que todos nós fazemos e que tanto contribuem para que desgraças destas tomem estas proporções que nunca acreditamos possíveis.

E tenham, tenhamos em mente que as desgraças não acontecem só aos outros nem acontecem somente lá longe, no Portugal longínquo. Podem acontecer de muitas formas diferentes, em muitos lugares, e nós podemos ter parte activa em parte da prevenção de algumas delas.

Lembrem-se, por favor, do Ricardo, do António, da Bianca, da Fátima de cada vez que:

- pensarem em deitar uma beata ao chão;

- não quiserem guardar o lixo convosco para deitar no sítio certo;

- forem fazer um piquenique e se 'esquecerem' de detritos em matas ou florestas;

- não vos apetecer limpar aquele pedacinho de terreno (seja no campo ou na cidade) onde têm árvores e vegetação que vos/nos pode pôr em risco;

- virem ou pensarem em colocar carros em cima de passeios, em segunda fila, em espaço que pode fazer falta para passar uma ambulância ou um carro dos bombeiros;

- virem ou pensarem em colocar os vossos carros a trancar outros carros, porque a pessoa foi "só ali ao café. Eram 5 minutos";

- não vos apeteça ensinar aos vossos filhos a importância de tomar atenção a normas de segurança. E aos outros.

- acharem mais importante enviar uma mensagem, enquanto conduzem, do que a segurança na estrada;

- pegarem no carro sabendo que beberam demasiado álcool;

Lembremo-nos todos de que a vida é demasiado curta e que não está garantida. Que há acidentes e tragédias que não conseguimos prever, prevenir ou controlar, mas que há muitas que podemos. Que esta tragédia, estas mortes, estas perdas irreparáveis nos façam ser melhores pessoas. Porque nós somos os melhores a reagir - vejam a onda de solidariedade incrível que se gerou - mas somos péssimos a agir.

Que este horrível acontecimento sirva para nos pôr a pensar. A ser melhores cidadãos. Para bem de todos.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Sim, é preconceito.

Há largas semanas fui buscar a miúda à creche. É coisa que faço pouco, uma vez que é o pai quem está por norma incumbido dessa tarefa, por ser ele quem usa o carro para ir trabalhar. Quando lá cheguei, toquei como sempre à campainha e uma das auxiliares abriu-me a porta. Enquanto me dirigia ao berçário, fui abordada por uma das educadoras da sala dos mais velhos. "Olhe desculpe, a senhora é quem?", disse-me com ar inquisidor. Sorri e respondi, educadamente, de quem era mãe e quem vinha buscar e continuei o caminho. "Sabe, é que nunca a vi por cá", disse num tom a roçar a crítica. Respirei fundo, virei-me novamente com um sorriso e disse: "é natural, geralmente é o pai quem a vem buscar". E antes que me conseguisse virar, ela reforça, de nariz empinado: "Pois, realmente...estava quase a pedir-lhe o Cartão do Cidadão, porque realmente como nunca a tinha visto cá...".

Pensei, em 5 segundos, se lhe respondia como ela merecia ou se deixava ficar assim mesmo. Esbocei outro sorriso e disse-lhe apenas que faria lindamente em pedir-me a identificação, que uma das razões pelas quais gostamos daquela creche é pelo cuidado que têm com a segurança das crianças. E fui-me embora, buscar a miúda que, vá lá, me reconheceu apesar de eu nunca a levar ou ir buscá-la. E a pensar no que fazer para conseguir compensar, em casa, esta cultura educacional completamente enviesada de que a mãe é que tem a obrigação de ir buscar os filhos.

Acham, sinceramente, que a conversa seria a mesma se fosse eu a ir buscá-la todos os dias e o João a ir buscá-la só de vez em quando? E depois ainda me querem obrigar a não acreditar que muitas vezes são as mulheres as suas piores inimigas na prossecução da igualdade de género.


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Um ano!

A miúda fez um ano e isso deixou-me surpreendentemente sem palavras. Uma alegria imensa por termos (todos) sobrevivido a este ano. Uma preocupação imensa por ainda faltar uma vida inteira e eu não saber se estou à altura da responsabilidade. Uma surpresa diária para sabermos como gerir esta coisa de agora sermos três e não podermos descurar o facto de sermos dois, antes de mais. Portanto, vamos ouvindo Caetano em loop para mantermos isto bem presente:

"Existe alguém em nós
Em muito dentre nós esse alguém
Que brilha mais do que milhões de sóis"

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Voltou tudo ao mesmo

A redução de horário ainda não acabou e eu já não meto os pés no ginásio há dois meses. E já voltei a comer e a engordar. E já trabalho mais horas do que devia e durmo menos do que devia. E a agenda continua a encher-se de compromissos enquanto eu tento esticar as 24 horas do meu dia para terem 48 e mesmo assim a coisa não se dá.

Caramba!, de repente já preciso desesperadamente de férias e nem dei conta de aqui chegar. A maternidade é muito linda e faz-nos mudar em imensa coisa. Só podia era fazer com que as mudanças aguentassem mais um tempinho...

terça-feira, 11 de abril de 2017

Nunca é tarde

Para descobrir que afinal gostamos de favas. Foram precisos mais de 30 anos e muitas refeições a saltar este prato para desenvolver todo um palato que agora me diz que aquilo é coisa boa, gente. Guisadas, cruas, you name it. Um fim-de-semana e de repente as favas entraram na minha vida...vá-se lá entender isto.

segunda-feira, 20 de março de 2017

De perder a cabeça

Lisboa está de se perder a cabeça.  A sério, não é possível, não são possíveis os preços que se andam a praticar na cidade. T1 a 1000 euros porque "estão totalmente remodelados"; T2 decrépitos a 800 euros "numa zona calma e com estacionamento"... E estou a falar fora do centro, porque se começar a olhar para Alvalade, Avenidas Novas and so on, as coisas descambam até preços que tenho vergonha de proferir.

A sério? I mean: a sério? Uma amiga disse-o assim de rajada e eu nem sequer tinha pensado na comparação, mas realmente é verdade. Estamos num dos países onde pior se ganha na Europa - sim, sim um salário médio é de 838 euros por mês, uma fortuna - com casas ao preço de Paris. Para além de quem já começa num degrau acima - com casas de família, uma casa oferecida pelos pais que pode arrendar ou afins - gostava sinceramente de saber quem consegue pagar os preços que andam a pedir por casas que nem deviam ter este nome.

Numa conta rápida, pensando num casal que, na loucura ganhe 2.000 euros por mês (sabem quantas pessoas NÃO ganham isto? Pois, a maioria), pagar 800 euros de casa implica uma taxa de esforço de 40% - sabemos que esta deve ser 30%, não sabemos? O que significa que se por acaso o senhorio decidir aumentar a renda todos os anos, mesmo segundo a inflação, ou se uma despesa de água ou luz ou gás aumentar, esse mesmo bom casal se vê aflito para pagar a renda. Certo?

Nem vou falar de uma pessoa sozinha - não sei sinceramente como conseguem. Mas acho absolutamente surreal o que se anda a passar. E acho surreal que pouca gente ache isto surreal - sei de um caso, concreto, em que um apartamento que está a ser arrendado por 550 euros vai chegar ao mercado, daqui a uma semana, por 750 euros...a sério!, sou mesmo só eu que acho isto surreal?

Tudo bem, podem dizer-me que devíamos todos ganhar melhor - lá está, se tivéssemos salários de Paris, não me estava a queixar -, mas uma vez que também pouca gente se insurge quanto a isso, não acham mesmo surreal andar a pagar um salário por casas que não passam de cubículos? Ah, desculpem, não vos disse que as  casas com ar de casas estão ainda mais caras que aquelas que referi? My bad...

sexta-feira, 17 de março de 2017

Um dia também vamos ser velhos

Hoje, no comboio, um senhor que aparece de quando em vez entrou na carruagem a pedir esmola. Cego de um olho, já entrado em idade, repete a mesma cantilena desde que me lembro de o encontrar: mais vale pedir do que roubar; ninguém me dá emprego; não tenho ninguém.

Enquanto ele se aproximava decidi que hoje queria dar-lhe algo para o ajudar - geralmente dou comida, raramente dou dinheiro, mas eram 9h da manhã e não tinha onde comprar coisa alguma. Dei-lhe aquilo que o meu coração achou que devia dar. Ele parou e disse "não posso aceitar, menina, esta moeda é muito grande". Pedi-lhe que aceitasse. "Não lhe faz falta, menina? É uma moeda grande..." Aquela frase doeu-me mais do que qualquer uma que tenha ouvido nos últimos tempo. Pensei para mim que a moeda me faz menos falta a mim do que a ele e pedi que a aceitasse. Ele recitou-me um poema, com a minha mão na dela, enquanto pessoas à minha volta olhavam, algumas enojadas, para o facto de ele me estar a tocar. "Já valeu a moeda, já viu? Até ganhei um poema", desejei-lhe felicidades e voltei para a minha leitura, enquanto as pessoas desviavam o olhar - incomoda ignorar as pessoas, é um facto. Preferimos olhar para o lado e fingir que não podíamos ser nós a ter que pedir para comer.

Saí do comboio e a caminho da redacção uma senhora, terrivelmente parecida com a minha mãe na estatura, na dignidade e no discurso pediu-me atenção. Aos 73 anos é viúva e não tem emprego. Tinha uma cesta cheiinha de saquinhos de alfazema, feitos à mão para vender e a "ajudar a comprar os legumes para a sopa, ou os remédios na farmácia". Não trouxe o saco, dei-lhe o dinheiro que tinha comigo e desejei-lhe felicidades, novamente.

E enquanto subia, no elevador, não podia deixar de pensar que andamos a falhar miseravelmente na forma como andamos a viver e a tratar as nossas pessoas, os nossos velhos, que mereciam muito mais respeito do que aquele que lhe andamos a votar. Não sei bem o que fazer em relação a isto, mas estou comprometida em pensar sobre isso. Obrigatoriamente.

terça-feira, 14 de março de 2017

Era suposto ser um médico, mas olhe..é um estudante. Está bem?

Nos últimos meses tem sido assustador. De cada vez que recebo uma notificação do Linkedin ou me salta uma janela do Facebook, ou tenho uma conversa com antigos colegas percebo que as pessoas estão a abandonar o barco. A maior parte delas fá-lo com muita razão, o que me entristece mais ainda: os jornalistas estão a desistir. Pior. Os bons jornalistas estão a desistir. Muitos, demasiados bons jornalistas estão a desistir. É claro que isso se reflete na qualidade dos jornais, revistas, televisões no final, mesmo que haja quem queira continuar a dizer que não.

Vou tentar explicar isto de uma forma simples: quando chegam ao hospital para uma cirurgia, não há médicos experientes para vos atender. Vão ter que ficar com um estagiário, que não vai ter quem o supervisione. Pode ser?

Ou então, vamos imaginar que estão num restaurante de elevada qualidade. Só que afinal o chef que lá estava já não está. Nem o sous chef. Restam os ajudantes de cozinha. Não se importam, verdade?
Podemos ainda pensar no seguinte: o vosso filho chega à escola, mas hoje não há professores. Hoje há uma pessoa que ainda não acabou o curso, sequer, a dar aulas. Vai ficar o resto do ano que não há dinheiro para pagar ao professor, sim?

Faz sentido? Não. Acontece? Todos os dias. Hoje as redações estão cheias de estagiários que trabalham sem rede: porque a) não há jornalistas experientes que sobrevivam aos despedimentos colectivos – são quem ganha melhor, logo, alvos a abater; b) não há pessoas que se sujeitem a fazer um trabalho desta responsabilidade pelo salário ridículo que as empresas querem pagar. Portanto, os jornalistas estagiários passam a jornalistas num instante, e um júnior com dois anos de carreira acha que tem a experiência de 10. Sensação que é natural, porque trabalhou o triplo do que devia, mas que não se reflete, muitas vezes, no resultado final (estou a generalizar!, como é óbvio. Porque felizmente há bons jornalistas com 2 anos de trabalho, sim? Pronto.)

Depois começam a acontecer coisas: termos errados, contas mal feitas, informação não confirmada. E isso não é culpa de quem está nas redações, é culpa de quem manda. Porque não percebe a diferença entre um jornalista sólido e um jornalista estagiário – conquanto ganhe metade e trabalhe mais horas, está tudo bem. Porque não percebe que não é possível, havendo um jornalista sénior para 5 estagiários, formar bons profissionais e ainda dar boas notícias e apurar boas histórias. Porque não percebe que a falta de qualidade e o preço baixo de um trabalho, a prazo, se paga e bem. Temos alguns bons exemplos disso na nossa praça e nem preciso de pensar muito para chegar a dois ou três casos.

Isto tudo para dizer o quê? Que fico verdadeiramente triste quando percebo a quantidade de gente que está a ir embora. A desistir. A desencantar-se e a optar por ter uma vida digna ao invés de continuar a lutar por um sonho que, cada vez mais, implica muito mais sacrifícios do que alegrias. E isso deixa as radações ainda mais abandonadas, os jornais, televisões, rádios e revistas muito mais abandonados e, inevitavelmente, a sociedade mais pobre.


Mas sobre jornalismo ninguém quer saber. Enquanto o Facebook for veiculando informação ridícula está bom para todos, verdade?

quarta-feira, 8 de março de 2017

No dia da Mulher, um brinde [também] aos homens da minha vida

Vem de há pouco tempo, esta minha veia de luta pela igualdade de género, confesso. Nunca foi algo a que tenha dado muita importância porque achava, honestamente, que nunca a tinha sentido na pele. Depois, com as chamadas de atenção de amigas queridas - obrigada, Paula e Teresa! - fui percebendo que na verdade, era uma luta que também me pertencia. A do feminismo - essa palavra que ainda assusta tanta gente.

Não gosto do Dia da Mulher, tal como não gosta de quotas - embora seja a favor delas. Não gosto de marchas, de manifestações, de pequenos-almoços para executivAs.

Mas gosto ainda menos que tudo isto seja necessário. Gosto ainda menos que os números me mostrem que ainda há tanto, demasiado a fazer, no que toca à Igualdade de Género. Não sei se sabem, mas Portugal entregou na UNESCO uma proposta de Declaração Universal da Igualdade de Género. Parece quase tão tolo quanto promover a água a Direito Humano, não é? O problema é que tanto um como outro têm que ser forçados sob risco de, na nossa santa ignorância, deixarmos que o mundo continue a mostrar que ainda estamos longe, tão longe de garantir a homens e mulheres os mesmo direitos, as mesmas oportunidades.

Se não, vejamos:

As mulheres representam metade da população mundial - e 70% dos pobres; 
As mulheres trabalham 2/3 do total das horas trabalhadas - e representam apenas 1/10 da receita mundial
Uma em cada quatro mulheres sofre actos de violência durante a gravidez;
As mulheres representam apenas 8% no que toca a cargos executivos;
Todos os dias, 39 mil raparigas menores são obrigadas a casar.

Podemos dizer que em Portugal estamos muito longe desta realidade. Que a parte principal está feita - é verdade. Mas falta muito mais, ainda.

Falta garantir que as mulheres ganhem salários iguais por desempenharem trabalhos iguais; falta garantir que as mulheres podem chegar a cargos de topo com a mesma facilidade que os homens; falta conseguir que uma mãe que trabalha não seja vista como uma péssima mãe e como uma má profissional; falta conseguir que os homens percebam que as suas carreiras não são mais importantes que as das mulheres; falta conseguir que as vozes das mulheres sejam ouvidas, não porque são mulheres, mas porque são tão válidas quanto as dos homens; falta acabar com os preconceitos aliados à defesa da igualdade de género; falta, falta, falta... Portanto, que venham as quotas, os dias da Mulher, os pequenos-almoços de executivas, os debates. Let's fake it until we make it!

Eu tenho tido, na vida, a graça e a sorte de ter à minha volta, no meu círculo íntimo, homens - sim, que este problema é das mulheres mas são os homens quem podem fazer ainda mais por nós, 'educando' os seus pares - que me respeitam. Que sempre me olharam como uma igual no que toca a direitos e deveres, e me respeitaram na minha feminilidade. Cresci, cresço ainda, com homens que não me dizem que as minhas conversas ou os meus problemas são 'coisas de mulher'; que não se assustam diante da minha independência ou das minhas certezas; que não me consideram mais frágil porque sofro de amores ou de dores nos pés por causa dos saltos altos. Cresci, cresço ainda com homens que me fizeram acreditar que a igualdade de género era uma não questão. E estou-lhes grata por isso. Porque me ensinaram, ensinam todos os dias, que é possível fazer melhor do que o que temos hoje. No trabalho, em casa, na escola, na rua.

No Dia da Mulher, mais do que agradecer às mulheres da minha vida [a essa agradeço fazendo a minha parte nesta luta, e todos os dias], quero agradecer aos homens que dela fizeram e fazem parte. Porque são eles que me apoiam nesta causa da Igualdade de Género, fazendo a parte deles: reforçando as minhas certezas sobre a necessidade e a possibilidade de um dia ela ser uma não questão.

segunda-feira, 6 de março de 2017

T - 22

Recomeça a contagem decrescente para o aniversário. E este ano, por incrível que pareça, não há nada - NADA - pensado. Os 31 foram maravilhosos, mas incrivelmente difíceis. Ainda estão a ser. Há tanto a fazer, tanto a acontecer, que nem sei que faça com a chegada dos 32.

Um drama.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Urgente!

O que é realmente urgente, antes da chegada dos 32 (!!!) é eu ir cortar este cabelo que não vê uma tesoura há MESES, senhores. Eu!, a pessoa que cortava o cabelo de 2 em 2 ou de 3 em 3 meses, sem falhas!

Para a semana não há desculpas: vão ver se não fico mais nova dez anos antes de envelhecer um!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Noves fora..

Estive 9 dias fora, em trabalho. Voei para o outro lado do Atlântico, como já fiz tantas vezes, desta vez com o coração apertado e um horroroso sentimento de culpa que me acompanhou até aterrar - o pediatra dela bem me avisou que ia acontecer. Confesso que passou assim que a porta do avião se abriu e senti o cheiro do país que escolhi como pátria de coração. As saudades que eu tinha de viajar, senhores. Sobretudo para ali!, para aquelas ruas que conheço tão bem, para aquele povo de que tanta falta sinto.

Durante 9 dias não fui mãe - excepto no coração: fui jornalista, fui amiga, fui colega de viagem. Durante 9 dias não houve preocupações com horários, sopas, fraldas, roupas, compressas.
Durante 9 dias não houve sonos interrompidos nem noites mal dormidas - houve noites de poucas horas, mas isso são ossos do ofício.

Se me senti terrivelmente culpada em alguns momentos? Absolutamente. Se me soube pela vida? Absolutamente.

É certo que tenho, deste lado, o melhor-pai-marido do mundo, o que facilita todo o processo. Mas a verdade é que este tempo que tiramos para nós, seja para trabalhar ou para nos divertirmos uns dias com os amigos, fazem muita falta. Claro que nos últimos 2 dias só queria entrar no avião e regressar a casa, tais eram as saudades. E receber um abraço assim que ela acordou, na manhã em que eu tinha acabado de chegar - hoje, portanto - foi a coisa mais incrivelmente deliciosa. Ela está enorme, linda, a fazer mais coisas do que quando fui embora. E eu sou uma sortuda por ter uma família que me permite tantas coisas boas.

O pior mesmo foi voltar para o frio. Mas oh well, não podemos ter tudo na vida!, verdade?

[e pronto. o próximo texto é menos sobre bebés que isto também já não se aguenta!]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Detestei amamentar

Basicamente, é o que tenho para partilhar hoje: eu nunca gostei de dar de mamar, e tenho zero saudades desses tempos - que não sendo tão longínquos quanto isso, são o bastante para já nem os querer recordar novamente.

Não quer isto dizer que não o tenha feito conscientemente e de livre vontade, naturalmente. Desde que soube que estava grávida nunca me passou pela cabeça rejeitar, desde o início, a amamentação. Acho que a natureza é incrível e acredito que o leite materno existe por alguma razão - é ótimo para a criança, ajuda imenso a mãe a voltar à forma física de antes e poupa-se imenso dinheiro. Factos. Mas sempre disse, também, que não ia pensar muito nisso. Se desse, dava; se não desse, não dava que felizmente os leites em pó já são ótimos e não põem em risco a saúde dos putos.

Por sorte, a miúda soube perfeitamente como mamar assim que nasceu. Não tive que me esforçar nada e quando fomos para casa já ela estava novamente a ganhar peso, como se a vida cá fora fosse espetacular. A subida do leite foi um inferno - todas as mães que desistiram nesta altura têm a minha compreensão - e dei de mamar, muitas vezes, com as lágrimas a caírem-me pela cara abaixo. Tendo em conta que eu até sou uma pessoa que suporta a dor lindamente, podem imaginar como foi incrível. Percebi, nesse momento, o que era o amor incondicional pela minha filha, que ainda não era o melhor do mundo. É que, apesar das dores, não me passou pela cabeça desistir. E não desisti.

Passei por uma subida de leite dos infernos, por feridas e por duas mastites. Amamentei a miúda até ela querer - felizmente ela saiu a mim nisso e despachou-me com uma grande pinta pouco depois de começar a comer [bla bla bla, não amamentei em exclusivo até aos seis meses, portanto SPARE ME, que foi tudo muito consciente]  - e se ela não tivesse deixado de querer, eu tinha parado na mesma. Desde que ela nasceu, também, eu tinha imposto um limite até ao qual daria de mamar, que nunca tive muita vocação para vaca leiteira, sobretudo havendo alternativas.

Imunidades passadas - para quem não sabe, bem que lhes podem dar de mamar até aos 10 anos que ali a partir do 5.º/6.º mês já é o sistema imunitário deles a trabalhar, sim? Não se iludam -, primeiros meses feitos, miúda a comer lindamente e cada uma de nós na sua vida e na sua independência. Poupámos uns trocos valentes - uma vénia aos pais que arcam com a despesa dos leites desde o início! Aquilo é caro para burro!! - e ficou toda a gente feliz.

E não, não tenho saudades nenhumas. Embora tenha desgostado menos de a amamentar depois de ter regressado ao trabalho - de alguma forma sentia que aquele era um momento só nosso, antes e depois do bulício do dia - nunca gostei verdadeiramente. Na verdade, nem sequer gostava era nada. E há uns dias, quando visitei uma amiga que foi mãe há pouco tempo e a vi dar de mamar, senti um arrepio absolutamente surreal só de me lembrar de que ainda há pouco tempo era eu quem amamentava.

Se tiver outro filho, naturalmente, tentarei amamentá-lo - não precisam de me crucificar já! -, mas para mim foi algo que nunca perdeu a sua missão absolutamente prática. Havia lá melhor coisa do que poder sair à rua durante o tempo que fosse e a comida da miúda estar sempre pronta? Há melhor coisa do que sabermos que andamos a passar anti-corpos super necessários aos nossos filhos? Claro que tudo isso é mega incrível. Além de que era também bastante barato.

Mas nunca senti aquilo que muita gente diz que sente. Nunca senti a amamentação como a única forma de criar vínculos com a criança, e nunca achei que fosse a coisa mais maravilhosa do mundo. E também não acho que isso seja reflexo de coisa alguma sobre os sentimentos que nutro pela criança.

Isto tudo para dizer que 99% das conversas sobre amamentação me irritam: parece que só se pode ser totalmente a favor e querer amamentar até a criança já andar e pedir mama; ou ser tão contra que nem se quer pensar sobre o assunto. Eu cá acho que cada um deve fazer como bem entender, com a ajuda do pediatra e de muito bom senso.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Índice de felicidade

Quantos de vós conhecem os vossos vizinhos? Quantos de vós sabem que pessoas vos costumam acompanhar, todos os dias, nos transportes que apanham? Quantos de vós conhecem os problemas da pessoa que partilha convosco a secretária? Quantos de vós largam o telefone durante a refeição para conversar com quem vos acompanha? Quantos levantam os olhos, no caminho, para verem as pessoas que convosco se cruzam? Quantos abdicam de tempo vosso para fazer bem aos outros – mesmo que esse tempo seja somente um café com um amigo que está a precisar?

Quantos de vós sabem verdadeiramente o esforço que as pessoas com quem convivem fazem para ter uma vida digna? Quantos de vós sabem quantas horas por dia trabalha a pessoa que se senta ao vosso lado do autocarro ou no metro?

A pergunta poderia estar feita na primeira pessoa do plural, para que também eu lhe tivesse que responder, mas de há uns tempos para cá tenho tentado fazer esse exercício. E não tenho gostado das respostas, embora elas expliquem bastantes coisas. Explicam por que andamos todos cada vez mais esgotados; explica por que somos dos mais infelizes do mundo; explica por que nos tornamos, a cada dia que passa, mais intolerantes; explica por que há cada vez mais pessoas a sofrer com solidão; explica por que pessoas como Donald Trump ganham adeptos no mundo.

Porque nos esquecemos de que vivemos num mundo onde há outras pessoas, que importam tanto ou mais do que nós. Porque nos esquecemos de que aquelas pessoas que passam fome, que trabalham 12h por dia, que vivem em países em guerra, podíamos ser nós. Ver os problemas dos outros minimiza os nossos, e muitas vezes não queremos que isso aconteça: é horrível perceber que, na verdade, muitas das coisas pelas quais nos queixamos são absolutamente disparatadas.

Guardo na memória o primeiro dia deste ano. Estávamos em Moçambique e fomos até uma aldeia construída pela Casa do Gaiato para acolher pessoas carenciadas e idosos sem família. No final da missa, celebrada debaixo de uma árvore no meio das casas, foram distribuídos bolo e refrigerantes por toda a gente. Para muitas daquelas pessoas, o almoço do dia. E nunca vi olhos tão felizes quanto os daqueles garotos e daquelas velhotas que, dançando, agradeciam pelo dom da vida.


Se nos colocássemos mais vezes na pele daqueles que partilham connosco o mundo tenho a certeza de duas coisas: de que seríamos menos egoístas, egocêntricos e fúteis; de que tornaríamos, pelo menos à nossa volta, o mundo num lugar muito mais bonito. 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Dormir, dormir, dormiiiiir

É claro que a maior parte das pessoas não vai acreditar em mim, mas a verdade é que nossa filha dorme. E dorme bem em 90% das noites, e dorme muito desde muito pequena. É óbvio que isso não é mérito nosso e que não foi por nada do que nós fizemos. É sorte, como tudo o que tem a ver com bebés – por favor, detetem a ironia. Obrigada.

Mas como é óbvio também, há algumas noites que são um verdadeiro inferno – e basta serem duas para parecerem 10 que nós já não temos 18 anos e a capacidade para fazer diretas já era. E andamos a ter algumas dessas noites porque vêm aí dentes, e quando não são os dentes é a tosse e se não é a tosse é ela a querer conversar – a sério? Às 3h da manhã? – e se não é ela a acordar sou eu, que acordo a pensar por que raio ela ainda não acordou. Enfim.

Portanto, quando no outro dia me avisaram que eu teria que trabalhar num fim-de-semana, e isso implicava ir para fora de Lisboa, confesso que o meu coração – egoísta, duro como pedra, de mãe desnaturada – se encheu de uma alegria avassaladora. É que aos meus olhos, a única coisa que esse final de semana me gritou foi: VAIS DORMIR DUAS NOITES SEM INTERRUPÇÕES!

Eu sei!, sou uma péssima pessoa, não gosto da minha filha, bla bla bla. Bring it on. Eu aguento. Na verdade, eu tenho aguentado todas as críticas dos últimos tempos porque estou muito focada no facto de, pela primeira vez em muitos meses, ir dormir duas noites seguidas, sozinha – a bem da verdade já dormi duas noites sem a miúda, que a avó dela é uma porreira e adora acordar durante a noite para cuidar dos netos que leva para o quarto, mas aí foi tão estranho que acordei várias vezes a pensar onde estava a criança. Go figure.

É claro que vou de coração apertado – não é preciso chamarem já a proteção de menores – e que vou estar preocupada durante o tempo todo, porque é assim que funciona. Mas na verdade, quando penso no fim de semana, repito, só me vem uma palavra à cabeça, repetidamente e em tamanho gigante: DORMIR!


E quem nunca sentiu isto que atire a primeira pedra. Humpf.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Ainda o congresso de jornalistas

Houve, pela primeira vez em 18 anos, um congresso de jornalistas portugueses. A iniciativa é de louvar, porque, lá está: há 18 anos que não havia um. Portanto, antes de mais: well done a quem agarrou na ideia e a fez acontecer!

O congresso não foi perfeito. O programa não era particularmente apelativo, e o facto de apanhar dois dias de semana não foi incrivelmente bem pensado uma vez que a vida de jornalista já é complicada sem ter congressos durante o dia, quanto mais tendo. Mas adiante, que dava sempre para lá dar um salto se se quisesse muito - e todos deviam querer!

Eu confesso que comprei o bilhete para o congresso ainda antes de haver programa, e por uma razão simples: o jornalismo está em crise - lamento, David Dinis, mas está - e nós temos que falar sobre o assunto. E temos que aproveitar estes espaços para ouvir, para aprender, para discutir, para conseguir ter novas ideias.

Ora, aqui é que me parece que isto falhou: tirando dois ou três painéis verdadeiramente interessantes, não era possível ouvir pessoas novas. Ou ideias novas. Ou sequer pessoas que nos fizessem aprender. Houve debates sobre o estado do jornalismo que serviram, basicamente, para achincalhar jornais e jornalistas desses mesmos jornais.E o achincalhanço foi feito por jornalistas do jornal do lado - era bom que parasse de haver esta ideia de que há jornais e jornalistas de primeira e de segunda, para início de conversa.

Houve debates sobre salários e precariedade entre os patrões, quando deviam ter sido entre os jornalistas. Houve painéis com diretores que se dizer “estar diretores” e não “ser diretores” mas que “estão” diretores há anos - a dança das cadeiras existe mas é absolutamente horizontal. E isso devia fazer-nos pensar.

Houve painéis em que praticamente não houve direito a perguntas. Houve faltas de respeito inimagináveis por convidados - repito, CONVIDADOS - que esperaram mais de duas horas para falar porque houve momentos que se tranformaram em batalhas campais com travo de manifestações sindicais. Houve, basicamente, mais do mesmo: uma facção que diz que o jornalismo não está em crise; outra que diz que o jornalismo está em crise. E no final de tudo, houve um sentimento geral de frustração porque de um congresso de onde se esperava muita coisa saiu muito pouco. 

Isto leva-me a pensar em várias coisas - muitas delas já pensadas por tanta gente que passou pelo São Jorge há quase duas semanas - e a mais preocupante é a que faz adivinhar que não há soluções quando não há empenho. Se não, vejamos:

  1. Dos cerca de 7 mil jornalistas existentes em Portugal, houve apenas 700 que se inscreveram. Lamento imenso, mas o facto de as inscrições terem fechado no primeiro dia não é desculpa para tudo: a percentagem de interesse é ridícula;
  2. Desses 700, muitos não apareceram de todo. É obvio que os outros não foram sempre porque, lá está, vida de jornalista é lixada portanto só deu para ir a algumas sessões. Mas não aparecer..bom, enfim.
  3. As maiores críticas que fui vendo ao congresso vinham precisamente de pessoas que não tinham ido ao congresso. Grande parte delas porque se achavam boas demais para o evento. Ora, eu sempre aprendi que quem quer soluções para problemas que lhe tocam, tem que se envolver nas coisas. Ficar de fora a mandar postas de pescada é muito bom mas…pois, não resolve coisa alguma - é assim como a malta que não vai votar e depois quer discutir política, estão a ver?
  4. Os jornalistas não são amigos uns dos outros. Não pensam em conjunto para soluções conjuntas; não querem saber do colega do lado, do jornal do lado, do projeto do lado. Para além de grave e de potenciador de problemas, é triste;
  5. A malta continua com algumas ideias feitas que são um bocado graves: uma delas é o facto de que os jornalistas ganham mal porque os projectos editoriais não dão dinheiro. É que já toda a gente disse e repetiu - em Portugal e no resto do mundo - que os jornais não dão dinheiro. É só ver as contas das publicações e perceber que lucro não é coisa que venha com um jornal. Por alguma coisa eles sempre foram detidos por grupos económicos com outras actividades mas com interesse em ter poder na sociedade - lembram-se daquela coisa do 4.º poder e assim? Pois. No alarm and no surprises, right? Assim sendo, a malta ganha mal também porque acha que não tem que ganhar bem. Tudo bem que o jornalismo é uma vocação - também acho - e que vai ser sempre uma profissão com contornos eventualmente complexos. Mas as vocações não têm que ser mal pagas - se não, só tínhamos médicos a ganhar miseravelmente, por exemplo. Aceitar salários baixos é meio caminho andado para que o ciclo não se quebre. Portanto não me venham com m*rd*s de que  “antes ganhar mal do que estar desempregado” porque é precisamente esta forma de estar que nos tem levado onde estamos. E isso leva-me ao ponto seguinte:
  6. Foram votadas resoluções como ‘aumentar a literacia mediática’ dos portugueses, bla bla whiskas saquetas. Mas não foi votado, por exemplo, que nenhum jornalista devia aceitar um salário mínimo, pois não? Pois.
  7. Os jornalistas não têm que descobrir a pólvora nem o modelo de negócio que funciona. Porque isso não é trabalho deles. É trabalho dos donos dos jornais. Os jornalistas têm que se preocupar em fazer um trabalho bem feito: em exigir tempo e dinheiro para não serem secretários que basicamente copiam comunciados de imprensa para sites porque “o que importa são os cliques”. Ouvindo aquilo que vários diretores disseram no Congresso, os trabalhos grandes e bem feitos têm muitos leitores. Se assim é, por que raio insistimos em fazer listas de viagens e em peças sobre que marca de roupa usa a filha do Jogn Legend (a sério?).
  8. Os jornalistas têm que trabalhar o seu amor próprio. Isso implica saber quando não se pode aceitar mais exigências editoriais que não façam sentido - como acumular cargos de responsabilidade sem um aumento salarial ou trabalhar 15 horas por dia porque “a redação está curta”.

Tenho a firme convicção de que se todos remarmos para o mesmo lado, as coisas continuarão difíceis, mas deixarão de parecer impossíveis. Mas para isso precisamos, urgentemente, de olhar para nós e de percebermos que temos, todos, um papel a desempenhar na mudança que se adivinha. Porque que a mudança vai existir, isso é certo. Agora resta-nos decidir se queremos fazer parte dela ou se queremos ficar a lamentar-nos, no final.


Dito isto, espero sinceramente que daqui a dois anos possa haver um novo congresso. Até gostava de fazer parte da sua organização - e sim, já fiz saber isto a quem de direito. É que acho realmente que a mudança começa de dentro. E se nós continuarmos a achar que só lá fora é que se faz bem, temo que  acabemos todos a jogar as regras de um jogo que não conhecemos. Porque não quisemos conhecer.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

It's all about family...

Os amigos são a família que escolhemos. Os amigos são quem nos diz sempre a verdade, mesmo que doa. São eles que nos amparam as quedas, secam as lágrimas e partilham os sorrisos. Escolhemos os amigos para apadrinhar o casamento e os nossos filhos. Os amigos são o nosso porto-seguro, ao qual podemos recorrer sempre que sentimos que precisamos. E nós? de que forma lhes respondemos?

Ainda no outro dia, numa tertúlia com amigas, surgia esta questão: quantas vezes, em caso de necessidade, recuamos para uma certa vivência salazarista (Deus, Pátria, Família) ao invés de darmos atenção ao nosso próximo? E se não o fazemos com os nossos amigos, como o faremos com aqueles que nos não são nada? Porque a verdade é que é esse o grande desafio que nos é apresentado, sobretudo atualmente: ama o próximo como a ti mesmo. 

Quantas vezes não usamos os amigos para tudo aquilo que enunciei acima mas, no caso de termos que tomar uma decisão, escolhemos invariavelmente a família, mesmo que com ela nos não identifiquemos? Desculpem se vos choco com o que vou dizer a seguir, mas a verdade é que não acho que os laços de sangue nos obriguem a identificarmo-nos com alguém. 

Acho que os laços de sangue nos devem obrigar a cuidar das pessoas que são da nossa família, mas eles não são passaporte para passarem para o início da fila só porque "são família". Não vale tudo, porque somos família. Ou como diz a minha querida amiga-irmã: a família é necessária para exercitar o amor e o perdão. Constantemente. Mas cabe-nos saber quem são as pessoas, família ou não, que precisam de nós, que fazem de nós pessoas melhores, que cuidam, que estão.

A família, como os Amigos - a caixa alta foi proposital - tem que regar uma relação de igual forma. Não basta dizer que é pai, mãe, irmão, primo, sobrinho e tudo fica explicado. "Acima de tudo está a família". E nessa não entra a que escolhemos? Ou só o dizemos para ficar bem na fotografia?

Vamos a exemplos práticos: quantas pessoas têm, na vossa vida, que considerem realmente vossas Amigas? Quantas vezes falam com essas pessoas ou estão com elas? E das vezes em que estão com elas, quantas vezes isso acontece porque algum de vós fez uma opção entre amigos e família? Quantas vezes faltamos ao almoço semanal de Domingo com a família para estar com amigos? Ou o lanche de sábado? Quantas vezes optamos pelos outros, pelos que "não nos são nada" [e se eu odeio esta expressão]? 

Se os amigos são a família que escolhemos, eles devem fazer parte dessa nossa vida preenchida, não sendo apenas presença das horas vagas. Apesar de muita gente defender que "a família deve estar sempre primeiro", eu acredito que deve estar primeiro quem faz de nós pessoas melhores. Quem está, sempre. E é importante perceber se essas pessoas são as mesmas que partilham connosco laços de sangue :)


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O melhor do mundo? Sim, mas não é logo...

Os filhos são o melhor do mundo, dizem. Compensa tudo, dizem. A maternidade é um dom que deve ser vivido com a maior das alegrias, sem direito a queixumes porque - lá está - é a melhor coisa do mundo.

E até que é. Mas não é logo.

Eu sei que não sei nada do que é ser mãe. Aliás, deixem-me divagar um pouco sobre isto, que é algo que me faz rir imenso. Antes de eu ser mãe não sabia, naturalmente, nada sobre a maternidade. Era indiferente se convivia com sobrinhos, amigos, enfim, porque, no limite, não era mãe. E quando fosse é que eu "ia ver".

Entretanto fui mãe. Mas continuo sem saber coisa alguma sobre a maternidade, porque "mães cujos filhos só têm meses, ainda, não venham com teorias que não sabem nada". Lá está. Na verdade, já somos mães mas ainda não o tempo suficiente para sabermos algo sobre o assunto. Muito bem. Depois acresce outro problema. "Vocês não sabem o que é ter filha", dizem. Porque a miúda até se porta bem. Consta que é um bebé fácil. "Sorte, é o que vocês tiveram". Naturalmente. Porque nós, na verdade, não sabemos nada sobre maternidade ou paternidade, nem filhos. E porque o facto de ela ser como é também tem zero a ver connosco. Somos pais, mas ainda não somos pais há tempo suficiente. Nem com desafios suficientes para termos esse selo. Deve ser uma cena tipo: só pode botar faladura quem tiver pequenos demónios em casa. Certo.

Mas vou voltar ao assunto do início do texto: os filhos são o melhor do mundo. Que são! Mas não é desde o momento zero. Desculpem, mas não é. Lembro-me que depois de a miúda nascer - e por depois entenda-se, umas horas - as pessoas chegavam e diziam: "Foi difícil? Ah, está bem. Mas é o melhor do mundo, não é?". E eu sorria. Porque na verdade, não era. Era algo muito bom, que eu nem sabia bem descrever, mas não...garantidamente não era o melhor do mundo.

Nos dias seguintes, entre pontos e subida do leite, as pessoas continuavam: "Ah, mas é o melhor do mundo, não é?". E eu continuava a sorrir, em silêncio. Porque continuava a não ser. Eu só tinha dores,  queria chorar, sentia-me miserável (faz parte!) e NÃO, não era o melhor do mundo. Durante vários dias senti-me a pior mãe do universo. Achei que não devia ter sido mãe. Não percebia por que raio toda a gente me dizia que a maternidade era o melhor do mundo e eu só queria chorar, só queria que as dores passassem, que ela deixasse de mamar, que deixasse de chorar, que nos deixasse dormir. Desconfio de que houve dias em que até pensei que bom, bom, era ela voltar para dentro da minha barriga.

Senti, durante vários dias, que não devia ter tido a graça de ser mãe. Porque para mim ela não era o melhor do mundo e toda a gente me dizia que era.

Até que de repente, ela se tornou no melhor do mundo. Quando passou o pior e consegui olhar para a minha filha sem sentir dores, infecções e demais vicissitudes desta coisa da maternidade que tem tanto de bonito quanto de feio, a minha filha era e é o melhor do mundo. Mas isso levou tempo.  Não foram meses, mas foi tempo. O meu tempo.

Se calhar toda a gente levou tempo e depois esqueceu-se disso. Diz-se que nós esquecemos de tudo o que passamos no primeiro ano em que temos um bebé. Se calhar eu vou esquecer-me de que no início de tudo ela não era o melhor do mundo. Mas fiz uma promessa enquanto isso estava presente na minha cabeça: nunca diria a nenhuma recém-mãe que o filho dela era o melhor do mundo até passar o primeiro mês. Pelo menos.

Porque quando se tem costuras que infectam, mastites, sonos trocados, hormonas, receios, o mundo pode ficar muito negro. E não precisamos de nos sentir ainda pior por não conseguirmos olhar e ver "o melhor do mundo" logo. Porque às vezes precisamos também que cuidem de nós. Que somos mães. Que também somos o melhor do mundo, embora disso ninguém queira saber.

Eu sei que estou a escrever isto tudo porque ainda não sei nada sobre a maternidade. Mas achei que alguém tinha que o dizer. Os vossos filhos são o melhor do mundo. Mas se não sentirem isso na primeira semana, sintam-se acompanhadas. Porque há pelo menos mais um 'monstro' que pensa como vós!




quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

2017, please be good

O ano de 2016 foi do demónio - tirando o nascimento da miúda, que consegue, em grande medida, fazer tudo valer a pena. Podia começar a enumerar tudo o que não correu bem, mas seria penoso, desnecessário e acima de tudo muito trabalhoso.

Ainda assim, acabou da melhor forma, com quem importa, e na certeza de que os nossos problemas são ridículos olhando para o grande esquema das coisas.

Resta, portanto, pedir a 2017 que seja bom para nós. Que saibamos escolher as batalhas certas. Que saibamos manter por perto quem realmente importa. Que saibamos escolher o amor. Que saibamos continuar a sorrir mesmo quando precisámos de chorar. Que saibamos dar mais, dar-nos mais. Que saibamos ser bons.

"Se não nós, quem. Se não agora, quando?"

Happy 2017, you all!
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