domingo, 22 de janeiro de 2017

Ainda o congresso de jornalistas

Houve, pela primeira vez em 18 anos, um congresso de jornalistas portugueses. A iniciativa é de louvar, porque, lá está: há 18 anos que não havia um. Portanto, antes de mais: well done a quem agarrou na ideia e a fez acontecer!

O congresso não foi perfeito. O programa não era particularmente apelativo, e o facto de apanhar dois dias de semana não foi incrivelmente bem pensado uma vez que a vida de jornalista já é complicada sem ter congressos durante o dia, quanto mais tendo. Mas adiante, que dava sempre para lá dar um salto se se quisesse muito - e todos deviam querer!

Eu confesso que comprei o bilhete para o congresso ainda antes de haver programa, e por uma razão simples: o jornalismo está em crise - lamento, David Dinis, mas está - e nós temos que falar sobre o assunto. E temos que aproveitar estes espaços para ouvir, para aprender, para discutir, para conseguir ter novas ideias.

Ora, aqui é que me parece que isto falhou: tirando dois ou três painéis verdadeiramente interessantes, não era possível ouvir pessoas novas. Ou ideias novas. Ou sequer pessoas que nos fizessem aprender. Houve debates sobre o estado do jornalismo que serviram, basicamente, para achincalhar jornais e jornalistas desses mesmos jornais.E o achincalhanço foi feito por jornalistas do jornal do lado - era bom que parasse de haver esta ideia de que há jornais e jornalistas de primeira e de segunda, para início de conversa.

Houve debates sobre salários e precariedade entre os patrões, quando deviam ter sido entre os jornalistas. Houve painéis com diretores que se dizer “estar diretores” e não “ser diretores” mas que “estão” diretores há anos - a dança das cadeiras existe mas é absolutamente horizontal. E isso devia fazer-nos pensar.

Houve painéis em que praticamente não houve direito a perguntas. Houve faltas de respeito inimagináveis por convidados - repito, CONVIDADOS - que esperaram mais de duas horas para falar porque houve momentos que se tranformaram em batalhas campais com travo de manifestações sindicais. Houve, basicamente, mais do mesmo: uma facção que diz que o jornalismo não está em crise; outra que diz que o jornalismo está em crise. E no final de tudo, houve um sentimento geral de frustração porque de um congresso de onde se esperava muita coisa saiu muito pouco. 

Isto leva-me a pensar em várias coisas - muitas delas já pensadas por tanta gente que passou pelo São Jorge há quase duas semanas - e a mais preocupante é a que faz adivinhar que não há soluções quando não há empenho. Se não, vejamos:

  1. Dos cerca de 7 mil jornalistas existentes em Portugal, houve apenas 700 que se inscreveram. Lamento imenso, mas o facto de as inscrições terem fechado no primeiro dia não é desculpa para tudo: a percentagem de interesse é ridícula;
  2. Desses 700, muitos não apareceram de todo. É obvio que os outros não foram sempre porque, lá está, vida de jornalista é lixada portanto só deu para ir a algumas sessões. Mas não aparecer..bom, enfim.
  3. As maiores críticas que fui vendo ao congresso vinham precisamente de pessoas que não tinham ido ao congresso. Grande parte delas porque se achavam boas demais para o evento. Ora, eu sempre aprendi que quem quer soluções para problemas que lhe tocam, tem que se envolver nas coisas. Ficar de fora a mandar postas de pescada é muito bom mas…pois, não resolve coisa alguma - é assim como a malta que não vai votar e depois quer discutir política, estão a ver?
  4. Os jornalistas não são amigos uns dos outros. Não pensam em conjunto para soluções conjuntas; não querem saber do colega do lado, do jornal do lado, do projeto do lado. Para além de grave e de potenciador de problemas, é triste;
  5. A malta continua com algumas ideias feitas que são um bocado graves: uma delas é o facto de que os jornalistas ganham mal porque os projectos editoriais não dão dinheiro. É que já toda a gente disse e repetiu - em Portugal e no resto do mundo - que os jornais não dão dinheiro. É só ver as contas das publicações e perceber que lucro não é coisa que venha com um jornal. Por alguma coisa eles sempre foram detidos por grupos económicos com outras actividades mas com interesse em ter poder na sociedade - lembram-se daquela coisa do 4.º poder e assim? Pois. No alarm and no surprises, right? Assim sendo, a malta ganha mal também porque acha que não tem que ganhar bem. Tudo bem que o jornalismo é uma vocação - também acho - e que vai ser sempre uma profissão com contornos eventualmente complexos. Mas as vocações não têm que ser mal pagas - se não, só tínhamos médicos a ganhar miseravelmente, por exemplo. Aceitar salários baixos é meio caminho andado para que o ciclo não se quebre. Portanto não me venham com m*rd*s de que  “antes ganhar mal do que estar desempregado” porque é precisamente esta forma de estar que nos tem levado onde estamos. E isso leva-me ao ponto seguinte:
  6. Foram votadas resoluções como ‘aumentar a literacia mediática’ dos portugueses, bla bla whiskas saquetas. Mas não foi votado, por exemplo, que nenhum jornalista devia aceitar um salário mínimo, pois não? Pois.
  7. Os jornalistas não têm que descobrir a pólvora nem o modelo de negócio que funciona. Porque isso não é trabalho deles. É trabalho dos donos dos jornais. Os jornalistas têm que se preocupar em fazer um trabalho bem feito: em exigir tempo e dinheiro para não serem secretários que basicamente copiam comunciados de imprensa para sites porque “o que importa são os cliques”. Ouvindo aquilo que vários diretores disseram no Congresso, os trabalhos grandes e bem feitos têm muitos leitores. Se assim é, por que raio insistimos em fazer listas de viagens e em peças sobre que marca de roupa usa a filha do Jogn Legend (a sério?).
  8. Os jornalistas têm que trabalhar o seu amor próprio. Isso implica saber quando não se pode aceitar mais exigências editoriais que não façam sentido - como acumular cargos de responsabilidade sem um aumento salarial ou trabalhar 15 horas por dia porque “a redação está curta”.

Tenho a firme convicção de que se todos remarmos para o mesmo lado, as coisas continuarão difíceis, mas deixarão de parecer impossíveis. Mas para isso precisamos, urgentemente, de olhar para nós e de percebermos que temos, todos, um papel a desempenhar na mudança que se adivinha. Porque que a mudança vai existir, isso é certo. Agora resta-nos decidir se queremos fazer parte dela ou se queremos ficar a lamentar-nos, no final.


Dito isto, espero sinceramente que daqui a dois anos possa haver um novo congresso. Até gostava de fazer parte da sua organização - e sim, já fiz saber isto a quem de direito. É que acho realmente que a mudança começa de dentro. E se nós continuarmos a achar que só lá fora é que se faz bem, temo que  acabemos todos a jogar as regras de um jogo que não conhecemos. Porque não quisemos conhecer.

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