segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O melhor do mundo? Sim, mas não é logo...

Os filhos são o melhor do mundo, dizem. Compensa tudo, dizem. A maternidade é um dom que deve ser vivido com a maior das alegrias, sem direito a queixumes porque - lá está - é a melhor coisa do mundo.

E até que é. Mas não é logo.

Eu sei que não sei nada do que é ser mãe. Aliás, deixem-me divagar um pouco sobre isto, que é algo que me faz rir imenso. Antes de eu ser mãe não sabia, naturalmente, nada sobre a maternidade. Era indiferente se convivia com sobrinhos, amigos, enfim, porque, no limite, não era mãe. E quando fosse é que eu "ia ver".

Entretanto fui mãe. Mas continuo sem saber coisa alguma sobre a maternidade, porque "mães cujos filhos só têm meses, ainda, não venham com teorias que não sabem nada". Lá está. Na verdade, já somos mães mas ainda não o tempo suficiente para sabermos algo sobre o assunto. Muito bem. Depois acresce outro problema. "Vocês não sabem o que é ter filha", dizem. Porque a miúda até se porta bem. Consta que é um bebé fácil. "Sorte, é o que vocês tiveram". Naturalmente. Porque nós, na verdade, não sabemos nada sobre maternidade ou paternidade, nem filhos. E porque o facto de ela ser como é também tem zero a ver connosco. Somos pais, mas ainda não somos pais há tempo suficiente. Nem com desafios suficientes para termos esse selo. Deve ser uma cena tipo: só pode botar faladura quem tiver pequenos demónios em casa. Certo.

Mas vou voltar ao assunto do início do texto: os filhos são o melhor do mundo. Que são! Mas não é desde o momento zero. Desculpem, mas não é. Lembro-me que depois de a miúda nascer - e por depois entenda-se, umas horas - as pessoas chegavam e diziam: "Foi difícil? Ah, está bem. Mas é o melhor do mundo, não é?". E eu sorria. Porque na verdade, não era. Era algo muito bom, que eu nem sabia bem descrever, mas não...garantidamente não era o melhor do mundo.

Nos dias seguintes, entre pontos e subida do leite, as pessoas continuavam: "Ah, mas é o melhor do mundo, não é?". E eu continuava a sorrir, em silêncio. Porque continuava a não ser. Eu só tinha dores,  queria chorar, sentia-me miserável (faz parte!) e NÃO, não era o melhor do mundo. Durante vários dias senti-me a pior mãe do universo. Achei que não devia ter sido mãe. Não percebia por que raio toda a gente me dizia que a maternidade era o melhor do mundo e eu só queria chorar, só queria que as dores passassem, que ela deixasse de mamar, que deixasse de chorar, que nos deixasse dormir. Desconfio de que houve dias em que até pensei que bom, bom, era ela voltar para dentro da minha barriga.

Senti, durante vários dias, que não devia ter tido a graça de ser mãe. Porque para mim ela não era o melhor do mundo e toda a gente me dizia que era.

Até que de repente, ela se tornou no melhor do mundo. Quando passou o pior e consegui olhar para a minha filha sem sentir dores, infecções e demais vicissitudes desta coisa da maternidade que tem tanto de bonito quanto de feio, a minha filha era e é o melhor do mundo. Mas isso levou tempo.  Não foram meses, mas foi tempo. O meu tempo.

Se calhar toda a gente levou tempo e depois esqueceu-se disso. Diz-se que nós esquecemos de tudo o que passamos no primeiro ano em que temos um bebé. Se calhar eu vou esquecer-me de que no início de tudo ela não era o melhor do mundo. Mas fiz uma promessa enquanto isso estava presente na minha cabeça: nunca diria a nenhuma recém-mãe que o filho dela era o melhor do mundo até passar o primeiro mês. Pelo menos.

Porque quando se tem costuras que infectam, mastites, sonos trocados, hormonas, receios, o mundo pode ficar muito negro. E não precisamos de nos sentir ainda pior por não conseguirmos olhar e ver "o melhor do mundo" logo. Porque às vezes precisamos também que cuidem de nós. Que somos mães. Que também somos o melhor do mundo, embora disso ninguém queira saber.

Eu sei que estou a escrever isto tudo porque ainda não sei nada sobre a maternidade. Mas achei que alguém tinha que o dizer. Os vossos filhos são o melhor do mundo. Mas se não sentirem isso na primeira semana, sintam-se acompanhadas. Porque há pelo menos mais um 'monstro' que pensa como vós!




10 comentários:

  1. Olá. Eu também ando nestas andanças da maternidade há pouco tempo. O meu filho tem 4 anos e meio e a minha filha 1 ano e meio. Posso dizer que o amor desde o primeiro segundo foi diferente com os dois. Com ele veio depois de me recompor psicologicamente (e isso foram umas valentes semanas...talvez meses), com ela veio assim que a vi. Depois há o dia-a-dia. Uns dias maravilhosos em que tudo corre bem e parece que nasci para ser mãe e outros em que não percebo porque me fui meter nisto. Uma coisa parece-me muito comum entre mães: a maternidade é boa (muito boa!), mas facilmente é cansativa, pesada, frustrante....enfim, acho que ser mãe é sentir mesmo a dualidade entre o bom e o menos bom (não sei se mau é uma palavra demasiado forte para ser aplicada). Quem me conhece sabe que ADORO os meus filhos, mas também já me viu dizer que quem ainda não tem que pense muito bem o que quer!
    Um beijinho e que a maternidade traga tantas coisas maravilhosas que consigam abafar as situações menos boas ;)

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    1. Acredito que a maternidade traz muito mais de bom do que de mau! :) Só não é tudo bom como nos querem fazer crer :D Um beijinho!

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  2. Ai que me senti tão normal em ler este blog! Muitos são os dias em que me sinto um ET e é bom saber que há mais como eu!
    Tudo de bom

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    1. Somos ET's a povoar a terra :D Tudo de bom!, Bailarina

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  3. Obrigada por escreveres aquilo que sinto é que por vezes parece tão mal compreendido!
    Obrigada

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    1. :) Eu também me sentia muito desacompanhada. Odeio que pintem tudo de cor-de-rosa*

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  4. Nem na primeira semana nem nos primeiros meses! Concordo em absoluto com o que escreves! Por cá sei que a amei ao segundo choro (o primeiro nem dei conta tão anestesiada e aparvalhada que estava!), mas aquela coisa de ligação emocional e tal nem por isso. Houve uma altura em que achava que nunca iria conseguir ser a mãe que ela precisava porque parecia que a miúda só em dava trabalho e preocupação e zero conexão.
    Felizmente foi uma fase e agora sinto que realmente foi a melhor coisa que fiz na vida, mas não é sempre cor de rosa e ainda há muitos dias que não sei se estou a fazer as coisas bem.
    Ela é feliz e isso é que é importante <3
    Um beijinho Margarida e obrigada por dizeres aquilo que nem sempre as pessoas dizem!

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    1. É que somos muito mais a sentir isso tudo do que aquilo que nos querem fazer crer* Felicidades :D

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  5. Também foi igual com a primeira, o pós parto não foi fácil e não senti esse amor avassalador logo. Foi uma paixão em crescente. Curiosamente da segunda foi amor à primeira vista, já tinha o chip talvez ;).

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    1. Se calhar ao segundo já estamos formatadas..será? :D

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