quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Detestei amamentar

Basicamente, é o que tenho para partilhar hoje: eu nunca gostei de dar de mamar, e tenho zero saudades desses tempos - que não sendo tão longínquos quanto isso, são o bastante para já nem os querer recordar novamente.

Não quer isto dizer que não o tenha feito conscientemente e de livre vontade, naturalmente. Desde que soube que estava grávida nunca me passou pela cabeça rejeitar, desde o início, a amamentação. Acho que a natureza é incrível e acredito que o leite materno existe por alguma razão - é ótimo para a criança, ajuda imenso a mãe a voltar à forma física de antes e poupa-se imenso dinheiro. Factos. Mas sempre disse, também, que não ia pensar muito nisso. Se desse, dava; se não desse, não dava que felizmente os leites em pó já são ótimos e não põem em risco a saúde dos putos.

Por sorte, a miúda soube perfeitamente como mamar assim que nasceu. Não tive que me esforçar nada e quando fomos para casa já ela estava novamente a ganhar peso, como se a vida cá fora fosse espetacular. A subida do leite foi um inferno - todas as mães que desistiram nesta altura têm a minha compreensão - e dei de mamar, muitas vezes, com as lágrimas a caírem-me pela cara abaixo. Tendo em conta que eu até sou uma pessoa que suporta a dor lindamente, podem imaginar como foi incrível. Percebi, nesse momento, o que era o amor incondicional pela minha filha, que ainda não era o melhor do mundo. É que, apesar das dores, não me passou pela cabeça desistir. E não desisti.

Passei por uma subida de leite dos infernos, por feridas e por duas mastites. Amamentei a miúda até ela querer - felizmente ela saiu a mim nisso e despachou-me com uma grande pinta pouco depois de começar a comer [bla bla bla, não amamentei em exclusivo até aos seis meses, portanto SPARE ME, que foi tudo muito consciente]  - e se ela não tivesse deixado de querer, eu tinha parado na mesma. Desde que ela nasceu, também, eu tinha imposto um limite até ao qual daria de mamar, que nunca tive muita vocação para vaca leiteira, sobretudo havendo alternativas.

Imunidades passadas - para quem não sabe, bem que lhes podem dar de mamar até aos 10 anos que ali a partir do 5.º/6.º mês já é o sistema imunitário deles a trabalhar, sim? Não se iludam -, primeiros meses feitos, miúda a comer lindamente e cada uma de nós na sua vida e na sua independência. Poupámos uns trocos valentes - uma vénia aos pais que arcam com a despesa dos leites desde o início! Aquilo é caro para burro!! - e ficou toda a gente feliz.

E não, não tenho saudades nenhumas. Embora tenha desgostado menos de a amamentar depois de ter regressado ao trabalho - de alguma forma sentia que aquele era um momento só nosso, antes e depois do bulício do dia - nunca gostei verdadeiramente. Na verdade, nem sequer gostava era nada. E há uns dias, quando visitei uma amiga que foi mãe há pouco tempo e a vi dar de mamar, senti um arrepio absolutamente surreal só de me lembrar de que ainda há pouco tempo era eu quem amamentava.

Se tiver outro filho, naturalmente, tentarei amamentá-lo - não precisam de me crucificar já! -, mas para mim foi algo que nunca perdeu a sua missão absolutamente prática. Havia lá melhor coisa do que poder sair à rua durante o tempo que fosse e a comida da miúda estar sempre pronta? Há melhor coisa do que sabermos que andamos a passar anti-corpos super necessários aos nossos filhos? Claro que tudo isso é mega incrível. Além de que era também bastante barato.

Mas nunca senti aquilo que muita gente diz que sente. Nunca senti a amamentação como a única forma de criar vínculos com a criança, e nunca achei que fosse a coisa mais maravilhosa do mundo. E também não acho que isso seja reflexo de coisa alguma sobre os sentimentos que nutro pela criança.

Isto tudo para dizer que 99% das conversas sobre amamentação me irritam: parece que só se pode ser totalmente a favor e querer amamentar até a criança já andar e pedir mama; ou ser tão contra que nem se quer pensar sobre o assunto. Eu cá acho que cada um deve fazer como bem entender, com a ajuda do pediatra e de muito bom senso.


8 comentários:

  1. Epa que bom, adoro gente que se assume.
    Felicidades

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  2. Que bom ler um texto assim :)
    Há uma toda uma "fábula" criada a volta de certos assuntos, as verdades absolutas no capítulo da maternidade tiram-me do sério. A uma pressão social para que no capítulo da maternidade tudo seja uma alegria constante ... Não há o "direito" a não gostar..
    Não gostei de estar grávida, não vi a "luz quando a miúda nasceu ( cada vez que dizia isto em publico quase que era crucificada ) e cruzes canhoto não pude amamentar .. Incrível é que a minha miúda até gosta de mim e eu dela :)
    Obrigada pelo texto

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  3. Eu adorava amamentar, mas confesso que ficava exausta. Quando voltei para o trabalho era um tormento, as mamas enchiam, vazavam, doía, uma vez quase desmaiei de dor. Mas era tão bom saber que o meu corpo alimentava o meu filho, eu me sentia empoderada! Ele largou o peito aos 10 meses e por um momento dei graças a Deus, podia pintar o cabelo de novo e agora ele ia dormir a noite toda. Mas quando me dei conta que ele já não mamava e que ele tava crescendo, tive um pouco de dificuldade para entender que ele agora não dependia tanto de mim. Mas morro de saudades desses momentos!

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  4. Concordo em absoluto! E felizmente penso que é uma ideia que cada vez tem mais aceitação entre nós. Cada mãe tem de fazer aquilo que sente que é melhor para ela também, e não só para o bebé. É uma opção que cabe a cada uma de nós, e mais importante que o leite materno, é estarmos bem e transmitirmos isso ao bebe :) só não concordo que as pessoas que optem por amamentar sejam consideradas pessoas especialmente vocacionadas para ser vacas leiteiras ....

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    1. Ahahah, Maria, peço desculpa se foi essa a ideia que passou. Naturalmente estou a falar da minha sensação...confesso que era mesmo isso que sentia: Que era uma vaca leiteira - não estou a chamar nomes a ninguém, naturalmente :D Aliás, como disse no início do texto, acredito que por alguma razão temos leite para dar aos filhos.

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  5. Detesto fundamentalismos.
    Cada bebé é um bebé e cada mãe é uma mãe.
    Amamentar é uma escolha e uma opção da mãe e só a ela diz respeito.
    É preferível uma mulher não amamentar e estar bem e tranquila, do que se obrigar por causa de outros e entrar num estado de ansiedade e nervosismos e transmitir ao bebé.
    Amamentar custa, dói muito, é extremamente cansativo e é preciso perder a mania de criticar as mulheres que optam por não amamentar.
    Obrigada pela honestidade, gostei muito do texto :)

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  6. Adoro gente que fala o que sente sem filtros :-) o meu leite tinha pouca qualidade e as bebés não ganhavam peso. Depois de experimentarem o biberon nunca mais quiseram mamar. São supersaudaveis graças a Deus e ao leite adaptado ih ih ih

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