terça-feira, 14 de março de 2017

Era suposto ser um médico, mas olhe..é um estudante. Está bem?

Nos últimos meses tem sido assustador. De cada vez que recebo uma notificação do Linkedin ou me salta uma janela do Facebook, ou tenho uma conversa com antigos colegas percebo que as pessoas estão a abandonar o barco. A maior parte delas fá-lo com muita razão, o que me entristece mais ainda: os jornalistas estão a desistir. Pior. Os bons jornalistas estão a desistir. Muitos, demasiados bons jornalistas estão a desistir. É claro que isso se reflete na qualidade dos jornais, revistas, televisões no final, mesmo que haja quem queira continuar a dizer que não.

Vou tentar explicar isto de uma forma simples: quando chegam ao hospital para uma cirurgia, não há médicos experientes para vos atender. Vão ter que ficar com um estagiário, que não vai ter quem o supervisione. Pode ser?

Ou então, vamos imaginar que estão num restaurante de elevada qualidade. Só que afinal o chef que lá estava já não está. Nem o sous chef. Restam os ajudantes de cozinha. Não se importam, verdade?
Podemos ainda pensar no seguinte: o vosso filho chega à escola, mas hoje não há professores. Hoje há uma pessoa que ainda não acabou o curso, sequer, a dar aulas. Vai ficar o resto do ano que não há dinheiro para pagar ao professor, sim?

Faz sentido? Não. Acontece? Todos os dias. Hoje as redações estão cheias de estagiários que trabalham sem rede: porque a) não há jornalistas experientes que sobrevivam aos despedimentos colectivos – são quem ganha melhor, logo, alvos a abater; b) não há pessoas que se sujeitem a fazer um trabalho desta responsabilidade pelo salário ridículo que as empresas querem pagar. Portanto, os jornalistas estagiários passam a jornalistas num instante, e um júnior com dois anos de carreira acha que tem a experiência de 10. Sensação que é natural, porque trabalhou o triplo do que devia, mas que não se reflete, muitas vezes, no resultado final (estou a generalizar!, como é óbvio. Porque felizmente há bons jornalistas com 2 anos de trabalho, sim? Pronto.)

Depois começam a acontecer coisas: termos errados, contas mal feitas, informação não confirmada. E isso não é culpa de quem está nas redações, é culpa de quem manda. Porque não percebe a diferença entre um jornalista sólido e um jornalista estagiário – conquanto ganhe metade e trabalhe mais horas, está tudo bem. Porque não percebe que não é possível, havendo um jornalista sénior para 5 estagiários, formar bons profissionais e ainda dar boas notícias e apurar boas histórias. Porque não percebe que a falta de qualidade e o preço baixo de um trabalho, a prazo, se paga e bem. Temos alguns bons exemplos disso na nossa praça e nem preciso de pensar muito para chegar a dois ou três casos.

Isto tudo para dizer o quê? Que fico verdadeiramente triste quando percebo a quantidade de gente que está a ir embora. A desistir. A desencantar-se e a optar por ter uma vida digna ao invés de continuar a lutar por um sonho que, cada vez mais, implica muito mais sacrifícios do que alegrias. E isso deixa as radações ainda mais abandonadas, os jornais, televisões, rádios e revistas muito mais abandonados e, inevitavelmente, a sociedade mais pobre.


Mas sobre jornalismo ninguém quer saber. Enquanto o Facebook for veiculando informação ridícula está bom para todos, verdade?

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