quarta-feira, 8 de março de 2017

No dia da Mulher, um brinde [também] aos homens da minha vida

Vem de há pouco tempo, esta minha veia de luta pela igualdade de género, confesso. Nunca foi algo a que tenha dado muita importância porque achava, honestamente, que nunca a tinha sentido na pele. Depois, com as chamadas de atenção de amigas queridas - obrigada, Paula e Teresa! - fui percebendo que na verdade, era uma luta que também me pertencia. A do feminismo - essa palavra que ainda assusta tanta gente.

Não gosto do Dia da Mulher, tal como não gosta de quotas - embora seja a favor delas. Não gosto de marchas, de manifestações, de pequenos-almoços para executivAs.

Mas gosto ainda menos que tudo isto seja necessário. Gosto ainda menos que os números me mostrem que ainda há tanto, demasiado a fazer, no que toca à Igualdade de Género. Não sei se sabem, mas Portugal entregou na UNESCO uma proposta de Declaração Universal da Igualdade de Género. Parece quase tão tolo quanto promover a água a Direito Humano, não é? O problema é que tanto um como outro têm que ser forçados sob risco de, na nossa santa ignorância, deixarmos que o mundo continue a mostrar que ainda estamos longe, tão longe de garantir a homens e mulheres os mesmo direitos, as mesmas oportunidades.

Se não, vejamos:

As mulheres representam metade da população mundial - e 70% dos pobres; 
As mulheres trabalham 2/3 do total das horas trabalhadas - e representam apenas 1/10 da receita mundial
Uma em cada quatro mulheres sofre actos de violência durante a gravidez;
As mulheres representam apenas 8% no que toca a cargos executivos;
Todos os dias, 39 mil raparigas menores são obrigadas a casar.

Podemos dizer que em Portugal estamos muito longe desta realidade. Que a parte principal está feita - é verdade. Mas falta muito mais, ainda.

Falta garantir que as mulheres ganhem salários iguais por desempenharem trabalhos iguais; falta garantir que as mulheres podem chegar a cargos de topo com a mesma facilidade que os homens; falta conseguir que uma mãe que trabalha não seja vista como uma péssima mãe e como uma má profissional; falta conseguir que os homens percebam que as suas carreiras não são mais importantes que as das mulheres; falta conseguir que as vozes das mulheres sejam ouvidas, não porque são mulheres, mas porque são tão válidas quanto as dos homens; falta acabar com os preconceitos aliados à defesa da igualdade de género; falta, falta, falta... Portanto, que venham as quotas, os dias da Mulher, os pequenos-almoços de executivas, os debates. Let's fake it until we make it!

Eu tenho tido, na vida, a graça e a sorte de ter à minha volta, no meu círculo íntimo, homens - sim, que este problema é das mulheres mas são os homens quem podem fazer ainda mais por nós, 'educando' os seus pares - que me respeitam. Que sempre me olharam como uma igual no que toca a direitos e deveres, e me respeitaram na minha feminilidade. Cresci, cresço ainda, com homens que não me dizem que as minhas conversas ou os meus problemas são 'coisas de mulher'; que não se assustam diante da minha independência ou das minhas certezas; que não me consideram mais frágil porque sofro de amores ou de dores nos pés por causa dos saltos altos. Cresci, cresço ainda com homens que me fizeram acreditar que a igualdade de género era uma não questão. E estou-lhes grata por isso. Porque me ensinaram, ensinam todos os dias, que é possível fazer melhor do que o que temos hoje. No trabalho, em casa, na escola, na rua.

No Dia da Mulher, mais do que agradecer às mulheres da minha vida [a essa agradeço fazendo a minha parte nesta luta, e todos os dias], quero agradecer aos homens que dela fizeram e fazem parte. Porque são eles que me apoiam nesta causa da Igualdade de Género, fazendo a parte deles: reforçando as minhas certezas sobre a necessidade e a possibilidade de um dia ela ser uma não questão.

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