sexta-feira, 17 de março de 2017

Um dia também vamos ser velhos

Hoje, no comboio, um senhor que aparece de quando em vez entrou na carruagem a pedir esmola. Cego de um olho, já entrado em idade, repete a mesma cantilena desde que me lembro de o encontrar: mais vale pedir do que roubar; ninguém me dá emprego; não tenho ninguém.

Enquanto ele se aproximava decidi que hoje queria dar-lhe algo para o ajudar - geralmente dou comida, raramente dou dinheiro, mas eram 9h da manhã e não tinha onde comprar coisa alguma. Dei-lhe aquilo que o meu coração achou que devia dar. Ele parou e disse "não posso aceitar, menina, esta moeda é muito grande". Pedi-lhe que aceitasse. "Não lhe faz falta, menina? É uma moeda grande..." Aquela frase doeu-me mais do que qualquer uma que tenha ouvido nos últimos tempo. Pensei para mim que a moeda me faz menos falta a mim do que a ele e pedi que a aceitasse. Ele recitou-me um poema, com a minha mão na dela, enquanto pessoas à minha volta olhavam, algumas enojadas, para o facto de ele me estar a tocar. "Já valeu a moeda, já viu? Até ganhei um poema", desejei-lhe felicidades e voltei para a minha leitura, enquanto as pessoas desviavam o olhar - incomoda ignorar as pessoas, é um facto. Preferimos olhar para o lado e fingir que não podíamos ser nós a ter que pedir para comer.

Saí do comboio e a caminho da redacção uma senhora, terrivelmente parecida com a minha mãe na estatura, na dignidade e no discurso pediu-me atenção. Aos 73 anos é viúva e não tem emprego. Tinha uma cesta cheiinha de saquinhos de alfazema, feitos à mão para vender e a "ajudar a comprar os legumes para a sopa, ou os remédios na farmácia". Não trouxe o saco, dei-lhe o dinheiro que tinha comigo e desejei-lhe felicidades, novamente.

E enquanto subia, no elevador, não podia deixar de pensar que andamos a falhar miseravelmente na forma como andamos a viver e a tratar as nossas pessoas, os nossos velhos, que mereciam muito mais respeito do que aquele que lhe andamos a votar. Não sei bem o que fazer em relação a isto, mas estou comprometida em pensar sobre isso. Obrigatoriamente.

2 comentários:

  1. Não são apenas velhos, também temos muitas crianças a merecerem especial atenção, do governo e de todos nós...








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  2. Infelizmente o ser humano não tem dado atenção ao seu semelhante. Essa é uma realidade que acontece em todo o mundo, creio eu. Por isso cabe a cada um de nós fazermos a nossa parte, sem divulgar nossas boas obras. Além disso, o mundo está tão acostumado com a falta de boas ações que quando surge uma alma disposta a ajudar o seu semelhante os demais o aplaudem, como se isso não fosse seu dever.

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