sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A melhor forma de gastar dinheiro

Quem me conhece sabe que, se eu pudesse, estava sempre com um pé fora daqui, a viajar por esse mundo fora. É uma pena não ter dinheiro nem um trabalho que me permita fazer todas as viagens que quero quando quero, mas já sou muito afortunada por, ainda assim, viajar imensas vezes a trabalho.

Anyway!, no final do ano passado fui novamente até aos EUA para uns dias na cidade que nunca dorme com a mana mais velha. Foi ótimo, como sempre, porque não importa o frio, o calor, o dólar mais alto ou baixo quando se está em NYC. Aprende-se tanto somente por passear nas ruas, por olhar para as pessoas, por entabular uma conversa com desconhecidos que tudo vale a pena. A energia daquela cidade é incomparável e de cada vez que lá vou há uma estranha sensação de que está tudo igual estando sempre tudo diferente.

Mas o que me ficou realmente gravado destas férias não foi NYC. Foi, contra todas as expectativas, Washington. Não pela cidade em si, que não tem a mínima graça  - a Casa Branca foi uma desilusão no que toca à imponência, embora creia que possa ter a ver com a criatura que lá habita estes dias -, mas pelos museus. Entre o Capitólio (esse deixou-me sem respirar, confesso), os edifícios federais que são obviamente de uma imponência impressionante e os museus, fiquei encantada por aquela zona da cidade mais poderosa do mundo.

Vi uns cinco museus de rajada, tendo passado em alguns deles largas horas - não fora empobrecer de cada vez que precisava de comer, podia ter passado dias lá dentro. Em Washington D.C. os museus são gratuitos (pelo menos os Smithsonian) e vale muito a pena conhecer alguns deles. Houve dois que me marcaram profundamente:

- o primeiro, o Newseum, que não pertencendo aos do Estado, me levou parte do orçamento para as férias, mas que voltaria a visitar assim que pudesse. O bilhete é válido por dois dias - o que faz sentido, porque é enorme e para o ver com olhos de gente, dois dias é uma ótima ideia - e tem vários andares que vão passando pelas várias épocas da história do jornalismo, inovações, dificuldades, desafios, marcos e países. Ficamos a perceber opções políticas, editoriais e movimentações civis; percebemos como as coberturas jornalísticas foram mudando ao longo dos anos, emocionamo-nos com os relatos na primeira pessoa do 11 de Setembro e aprendemos muito muito sobre aquilo que é a base da minha profissão. Mesmo para quem não é jornalista, é um lugar de aprendizagem magnífico. Passei lá quase 4h e não consegui ver tudo...

- o segundo, que não consigo esquecer - e duvido de que algum dia consiga - foi o National Museum of African American History & Culture. Confesso que acabei por ir lá passar um pouco por teimosia. Uns amigos da minha irmã teimavam que era impossível lá entrar porque as filas eram imensas, tinha que se reservar a visita pela net (há salas muito pequenas e eles controlam o número de visitantes que está no interior) e que não dava e bla bla bla. Sem entender muito bem o que estaria por detrás de todo este interesse por um museu que nem sequer é único no país - há outros do género em várias cidades americanas - acabámos por chocar contra um dos edifícios mais bonitos que vi nos últimos tempos e imediatamente percebemos que era aquele. E claro que decidimos tentar entrar, só para provar que conseguíamos. E conseguimos.
Edifício desenhado por Adjaye Associates, Freelon Group e Davis Brody Bond. Os cantos alinham perfeitamente com o Washington Monument 


Surreal este cartaz a chamar afro-americanos para a guerra. Surreal.
 E foi um turbilhão de emoções, de descobertas, de surpresas - más, sobretudo - que não vos consigo descrever, mas que me fizeram lá ficar umas cinco horas. A história da escravatura (Hurray, Portugal. Fomos responsáveis pelo tráfico de 5,8 milhões de pessoas. Conseguimos ser os primeiros em algo...); da colonização, os navios de negreiros, a luta pelos direitos civis, as mortes disparatadas em pleno século XX, o racismo gritante que ainda se vive em tantos lugares - mas sobretudo nos EUA, uma nação fundada graças a tanto trabalho escravo, graças a tantos homens e mulheres afro-americanos que fazem dos EUA aquilo que que é hoje.

Yep. 5,8 milhões. Líderes incontestáveis de tráfico humano.

Aprendi mais sobre a humanidade - e sobre história - naquelas cinco horas do que na minha vida toda, e garanto-vos que hei-de lá voltar para o mostrar a mais pessoas. Saí de lá com uma enorme sensação de culpa (eu sei, não tenho a culpa de os nossos antepassados serem uns otários) mas acima de tudo, de gratidão: por ter a possibilidade de conhecer estes sítios, estas histórias. Por poder viajar, aprender e trabalhar (espero) para ser uma pessoa melhor.
Olhar o passado para entender os problemas do presente. Sempre.

O ano de 2017 foi outro ano de cocó. Mas esta viagem de irmãs - e se eu gosto de viajar com a minha irmã - acabou por conseguir fazer esquecer parte do sinuoso caminho que foram os meses anteriores. E relembrou-me de que, de facto, não há melhor forma de gastar dinheiro nem investimento mais frutuoso do que o que fazemos em viagens.

PS - And so many thanks, sister, for another the opportunity of great and deep learning.*


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