segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Call me Mrs. Instável

No outro dia, a propósito da minha mais recente mudança de emprego, alguém disse que eu era "instável". Houve ainda também quem dissesse que, enquanto a maioria das pessoas da minha idade [vetusta, como sabemos] queria era assentar arraiais, eu andava de um lado para o outro. Tola.

Eu sei que já mudei mais vezes de trabalho desde que comecei a minha vida profissional do que muita gente numa vida inteira de muitas décdas. E ainda por cima foi sempre por minha livre e espotânea vontade, o que parece fazer ainda menos sentido. Foi sempre porque, em qualquer altura e por uma qualquer razão, quis sair de onde estava. Ou porque apareceu algo que me desafiou - que foi o caso desta vez, por exemplo, em que até estava mega feliz no trabalho anterior - ou porque sim. Ponto. Umas vezes tinha tido propostas, mas até chegou a acontecer demitir-me sem ter emprego algum em vista. Somente porque não queria estar ali, onde estava. 

Já aconteceu trocar um emprego por outro menos bem pago, descer de categoria profissional, e tudo isso por opção minha. Esta "instabilidade", como as pessoas lhe chamam, para mim tem outro nome: chama-se liberdade. Liberdade de decidir, de escolher, de ser quem sou, quem quero ser, de fazer o meu caminho da forma como acredito que o devo trilhar. Liberdade de optar pela felicidade.

Sei que há muita gente para quem o "emprego para a vida" e o dinheiro são fundamentais ou muito relevantes. A "estabilidade" de saber que ao final do mês terão um salário confortável, que depois de X meses terão um aumento, depois um carro, depois um cartão de crédito, depois mais uns benefícios...acho isso maravilhoso e quem me dera que existisse na minha profissão. E fico também muito feliz por quem consegue encontrar a felicidade laboral nesse regime e por quem gosta de estar no mesmo sítio uma vida inteira. Mas para além de essas coisas todas não existirem na minha profissão - ou pelo menos, na generalidade dos meios de comunicação, há duas coisas a que eu sou, efetivamente, pouco apegada: dinheiro e cargos.

E não me interpretem mal: acho o dinheiro muito importante e sei bem quanto vale poder adormecer sem estar a pensar como conseguiremos chegar ao final do mês com apenas 10 euros na conta. Tenho perfeita noção de que há muita coisa na vida que se resolve por termos folga financeira e jamais serei pouco agradecida por não me faltar comida na mesa, dinheiro para a eletricidade e um teto onde dormir. Mas também sei viver com pouco se for preciso. Sobretudo se isso significar que sou livre e feliz no meu caminho. O mesmo pensamento vale para os cargos - isso realmente ainda importa?

O que me dá estabilidade, a mim, é outro tipo de coisas: trabalhar com pessoas que admiro, com quem aprendo coisas todos os dias; conhecer gente maravilhosa, ter o privilégio de ter tempo para pensar, para olhar para a sociedade. Poder ouvir histórias, contar histórias. Tantas coisas que para a maior parte das pessoas não valem coisa alguma, para mim significam o mundo. Mas acima de tudo, o que me dá estabilidade é, mesmo, poder continuar a fazer este caminho de descoberta das coisas que eu não quero na e para a minha vida. E estou sempre a descobrir imensas coisas, ainda que não saiba bem dizer-vos quais são as coisas que quero :)

Por isso, pessoas queridas, não se preocupem com a minha estabilidade - ou aquilo que vocês acham que é falta dela. Ela está directamente relacionada com a minha felicidade. E trocar de trabalho mais vezes do que vocês consideram 'normal' não quer dizer que eu seja infeliz ou instável. Quer apenas dizer que não perdi ainda a capacidade de arriscar sempre que acredito que posso ser ainda mais feliz num outro lugar. 

1 comentário:

  1. Indentifiquei-me com a tua descrição. Desde que comecei a trabalhar (e ando perto da década) já vou no 5º trabalho. Saí sempre por opção. A minha área é como a tua, não há evolução monetária, nem carros, nem nada disso... enfim. Cada um sabe de si, mas normalmente quem critica esta "instabilidade" na verdade é capaz de nunca ter tido coragem para o fazer, mesmo que tenha tido vontade.

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