sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

"O marido foi amigo" o tanas

Tinha prometido ao Rodolfo que em breve escrevia algo sobre a paternidade. Sobre eles, os pais. Que afinal são sempre demasiado esquecidos no meio disto tudo, e muitas vezes nós até temos alguma responsabilidade no assunto.

Só que nunca era a hora certa, nem o dia em que tinha assunto sobre o qual escrever. Até que me deparei, num blogue absolutamente dedicado à família que se orgulha de ter uma working mom, uma frase que dizia qualquer coisa como: “o meu marido foi super amigo e foi buscar os filhos. E ajudou muito quando eu estive doente”.

Li a frase três vezes para ter a certeza de que li bem, respirei fundo, tentei acalmar-me, mas não deu. É que fico tão mas tão irritada com este tipo de comentários que sobe-me logo uma urticária incontrolável que, geralmente, só para quando escrevo algo para acalmar o espírito.

Ponto prévio: é óbvio que cada um gere a vida como acha melhor; que as mulheres têm o direito a não querer mais do que ajuda dos homens; bla bla bla whiskas saquetas. Agora, quando temos um blogue lido por milhares de pessoas, numa altura em que as mulheres já andam sobrecarregadas – e se fala e se discute sobre isso – talvez fosse boa ideia pensar-se sobre três coisas:

1. Os maridos que tratam dos filhos não são amigos. São pais. É dever deles, tanto quanto da mãe, tratar dos filhos. Era o que mais faltava que quando eu trato da minha filha, o meu marido dissesse que eu sou “amiga”. Sou mãe e tenho essa obrigação. Como ele é pai e tem essa obrigação. Não há cá “ser amigo”, o que há é responsabilidade, uma coisa que infelizmente ainda falta a muitos homens neste país.
É claro que isto advém de questões sociais e culturais que não passam assim de um dia para o outro, mas se calhar era importante que “influenciadores” (breff) se apercebessem de que ajudam a perpetuar ideias que são disparatadas. A ideia de que o pai é amigo é uma delas. E portanto há MILHARES de mulheres que vão ler isto e que acham normal “agradecer” aos maridos porque eles fizeram algo que NÃO É MAIS DO QUE A SUA OBRIGAÇÃO!

2. O marido não ajuda quando a mulher está doente. O marido faz. Como deve fazer todos os dias. Vou voltar a bater naquela tecla terrível da expressão “ai, o meu marido ajuda imenso em casa”. Mas ajuda porquê? Porque a casa não é dele? Porque a mulher não trabalha e decidiu ficar em casa – que é uma opção muito válida, obviamente – e portanto tem um “dever”? Porque ficou escrito em algum lugar que ele não tem qualquer parte na lida da casa? Mas que raio de ideia é esta?

3. Os pais são fundamentais aquando do nascimento de uma criança. Uma vez que não passam pelo parto e pelos dramas da amamentação e das hormonas, é neles que podemos confiar e descansar quando o mundo nos parece um inferno. Os pais cuidam dos filhos com um amor que só lhes faz bem. Brincam. Ensinam-lhes coisas que nós, mulheres, nunca ensinaremos porque somos biologicamente diferentes. Passam tempo de qualidade com eles sem reparar se estão com o body sujo ou as calças a cair. Não querem saber. E isso é saudável, porque os pais se concentram noutras coisas e ajudam os filhos a desenvolver-se noutras vertentes. Os pais são o porto de abrigo das mães sempre que o pânico chega. Fazer a viagem juntos não só é recomendável como é essencial: um pai deve entender o cansaço da mãe (que no pós-parto é sempre maior, como é obvio) e conseguir minimizá-lo. Porque isso é essencial para todos. E não está a fazer um favor a ninguém. Está a cumprir o seu papel. Pura e simplesmente.

Dentro da minha irritação, e pedindo já desculpa pelo tom, deixem-me que vos explique como geralmente faço a quem me vem com esta conversa de que “ai, o João ajuda-te imenso”.

Cá em casa, eu e o João somos iguais. Ambos trabalhamos horrores, temos profissões cansativas que implicam horas estranhas, viagens repentinas e horários completamente idiotas, às vezes. A minha carreira não é mais importante que a dele, mas a dele também não é mais importante do que a minha. 

Ambos somos pais da miúda e partilhamos o mesmo tecto. Isto significa, naturalmente, que temos exactamente os mesmos direitos e os mesmos deveres no que se refere à casa e à família. Que é como quem diz: ele não é meu amigo quando fica com ela e eu vou de viagem; ele não é meu amigo nem me ajuda quando a vai buscar à escola (sempre) e lhe dá jantar e banho e põe na cama; ele não me ajuda quando estende a roupa ou arruma a cozinha. Porque, OBVIAMENTE, eu também não sou amiga e não ajudo quando faço o jantar ou a visto a criatura de manhã. Eu não sou amiga quando fico com ela porque ele foi de viagem. Eu não o ajudo quando ponho roupa a lavar. Se estamos juntos, se somos ambos pais, se ambos trabalhamos e temos vida dentro e fora de portas, a divisão de tarefas não é uma picuinhice. É o que tem que ser, e o que deve ser.

Portanto, eu agradecia mesmo que as pessoas que têm milhares de pessoas a lê-las ou a ouvi-las pensassem bem no que dizem, quando dizem. Porque é por estas e por outras que continuamos com uma sociedade absolutamente desequilibrada que acha que as mulheres não foram feitas para trabalhar e que os homens só são homens se não fizerem coisa alguma em casa.

[E é por estas e por outras que às vezes tenho mesmo a sensação de que nós somos as nossas maiores inimigas].

4 comentários:

  1. Exacto... Ai o que me irrita quando me dizem que tenho sorte que ele lhe dá banho e muda fraldas... Ele gosta! Gosta de passar tempo com ela, custa-lhe ir trabalhar e ficar sem ela, está sempre disponível e se ele não fosse assim acho que não estaríamos juntos...
    Mas eu tinha em casa um pai que fazia e faz de tudo um pouco...

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  2. Margarida, tenho a sensação, para não dizer a certeza, que anda meio mundo a lutar por conceitos tão básicos como igualdade de género e outro meio a boicotar essa demanda, nem se apercebendo que se uma metade a lutar por todos já é inglório, pior será se os sabotadores forem a new beautiful people, vozes activas para tudo e coisa nenhuma, mas seguidos com fé e espírito copy paste. Menos "ajudas" e mais Sense & Responsability.

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  3. Concordo tanto com este texto que acho que devia ser partilhado! MAs se queres que te diga, acho que as nossas maiores inimigas até poderiam ler, mas acho que não iam compreender. É outro mundo, é outra cultura, outra educação. O meu pai, ao contrário do da Vera ali em cima, é dos que se calhar de vez em quando ajudou e isso bastou-me para perceber que não concordo nem quero nada assim para mim. Antes só...

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    1. O pai do Ricardo nunca mudou uma fralda nem deu banho! Nunca e cheguei a ouvir que tinha sorte por isso mesmo. O filho faz o que o pai nunca fez... Claro que disse que o Ricardo é que está certo.

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